Eduardo Cesar Maia - 29 de agosto de 2015 às 21H 33M

Como ler um romance?

garota lendo livro

Em primeiro lugar, não acredito que haja uma fórmula, uma chave, um segredo ou qualquer regra preestabelecida para se ler um romance. O título acima serve somente, portanto, como provocação. Contudo, há muito o que se falar sobre o tema.

Entendo o romance como um espaço narrativo aberto a uma pluralidade de caracteres, à polifonia, à ambiguidade, à incerteza e à dúvida. E isso se reflete não somente no conteúdo, mas também na forma. Por isso a dificuldade tão grande que os teóricos – esses obsessivos – sentem em estabelecer definições normativas sobre tal gênero, caracterizado pela fluidez e pela maleabilidade. Cabe à crítica, é claro, fornecer perspectivas, chaves de interpretações possíveis, mas é ilusão supor que o crítico pode ter a última palavra – a interpretação definitiva – sobre um romance, pois, a cada leitor, um novo mundo de possibilidades hermenêuticas se abre.

Considero mais interessante um leitor “sem método”, porém atento e receptivo, do que um crítico que está limitado desde o princípio por uma metodologia inflexível: os métodos críticos são modificados, reformulados e, muitas vezes, abandonados com o passar do tempo, mas a experiência individual de leitura autônoma e “impressionista” é insubstituível, basicamente porque a experiência individual é intransferível (ainda que, pelo menos até certo ponto, comunicável).

A perspectiva humanista de crítica – tão em baixa em nossos dias – ainda insiste em enxergar a leitura de um romance, ou de qualquer outro gênero literário, como uma forma de apreensão de conhecimento (santa ingenuidade!, diriam os teóricos desconstrucionistas). Ela guarda como valor fundamental a crença na possibilidade de ampliação da experiência humana através das leituras literárias e também, portanto, na importância fundamental da literatura para o fortalecimento da autonomia dos indivíduos, colaborando de maneira decisiva com a construção de suas visões de mundo.

odo marquard

Odo Marquard: A hermenêutica é a arte de tirar do texto o que não está dentro dele

Enfim, um romance só oferece aquilo que você pode tirar dele… Nada mais, nada menos. Gosto da seguinte formulação do filósofo cético alemão Odo Marquard (infelizmente ainda não traduzido no Brasil até o momento): “A hermenêutica é a arte de tirar do texto o que não está dentro dele”.

Dentro da tradição crítica humanista, pela qual procuro me orientar como leitor e como crítico, a literatura participaria da história de uma forma dialogal, fazendo parte de uma grande e interminável conversação humana a respeito de todos os tipos de situações e problemas vitais, sejam de natureza mais propriamente individual ou de abrangência mais social.

Os romances, particularmente, suscitariam, antes de tudo, um tipo de conhecimento ligado à experiência vital, ao diálogo entre os homens, porque, diferentemente das proposições da lógica ou da ciência, não se propõem simplesmente a apresentar enunciados verdadeiros: eles problematizam certos aspectos “difíceis” da realidade humana. A literatura, compreendida nesses termos, aparece como um ponto de irradiação e de discussão de todo tipo de valores – éticos, estéticos, políticos etc.

Tentar explicar o porquê de a perspectiva humanista ter sido atacada por tantas correntes filosóficas e de teoria literária desde os começos do século passado será matéria de uma próxima coluna.

Eduardo Cesar Maia

Editor da revista Café Colombo e professor de comunicação na UFPE, Eduardo Cesar Maia é jornalista, mestre em filosofia pela Universidade de Salamanca e doutor em Teoria da Literatura. Trabalhou na revista Continente.

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