Thiago Corrêa - 14 de dezembro de 2015 às 10H 35M

Conceito pelo viés da tecnologia

Katherine Hayles

Pesquisadora Katherine Hayles propõe centralidade do computador na literatura digital

Depois de muitas considerações, finalmente chegamos à literatura eletrônica. Como vimos antes, o termo não chega a ser um consenso, mas é um dos mais fortes nesse campo de pesquisa, agregando pesquisadores importantes como Katherine Hayles e organizações como a ELO – Eletronic Literature Organization, que foi criada em 1999 e hoje reúne artistas, escritores, pesquisadores, programadores e professores na missão “de incentivar e promover a leitura, a escrita, o ensino e a compreensão de como a literatura se desenvolve e persiste em um ambiente digital em mudança”.

Enquanto outras linhas teóricas privilegiam a análise sobre o papel do leitor e a utilização de recursos como o hiperlink ou o diálogo com outras formas de linguagem (vídeo, áudio, etc.), o termo literatura eletrônica foca essencialmente na relação do texto com o suporte digital, como podemos observar o conceito geral usado pela ELO: “obras com aspectos literários importantes que tiram proveito das capacidades e dos contextos oferecidos pelo computador, conectado à rede ou não”. Embora o conceito seja abrangente, deixando em aberto o que seriam de fato esses “aspectos literários importantes”, ele condiciona-os ao computador.

literatura eletronica katherine haylesO que, convenhamos, também não é muito esclarecedor. Afinal, hoje praticamente toda a produção literária é realizada no meio digital (escrita e diagramada em computador), por mais tradicional que seja o texto e por maior que seja a tiragem impressa dessas obras. Mas se prosseguirmos no conceito formulado pela ELO, vamos encontrar desdobramentos, com referências a nove gêneros que integram a literatura eletrônica, e uma clara posição do que a diferencia da literatura tradicional apenas produzida no meio digital: “o confronto com a tecnologia ao nível de criação é o que distingue a literatura eletrônica de, por exemplo, e-books, versões digitalizadas de obras impressas e outros produtos de autores antes impressos, mas que vem investindo na moda digital”.

A ideia é baseada na noção de “born digital”, ou seja, obras nascidas e criadas especificamente para o computador. Para a pesquisadora americana Katherine Hayles, que foi diretora da ELO entre 2001 e 2006, a literatura eletrônica é definida por sua relação intrínseca com o suporte digital, sendo inviável a sua migração para o meio impresso. “A computação não é periférica nem incidental à literatura eletrônica, mas central para seu desempenho, execução e interpretação”, diz Hayles no livro Literatura eletrônica: novos horizontes para o literário.

Thiago Corrêa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, Thiago Corrêa é um dos fundadores do grupo Vacatussa e já foi setorista de literatura nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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