Thiago Corrêa - 12 de outubro de 2015 às 13H 10M

Conceito pelo viés do leitor

Leitores tem papel

Leitores podem ter papel central na definição do conceito de literatura eletrônica

Embora esta coluna seja dedicada a questões que ligam a literatura à tecnologia e desde o artigo passado estejamos na missão de tentar explicar o que danado é essa nova literatura, hoje vamos tratar de ideias que não passam necessariamente pela tecnologia. Pode parecer até um contrassenso, mas o pesquisador norueguês Espen J. Aarseth, que é uma das principais autoridades sobre o que seria essa nova literatura, prefere focar não no texto em si ou no suporte utilizado, mas no seu efeito sobre o leitor.

Aarseth cibertextoPara Aarseth, a semiótica, o pós-estruturalismo, a teoria da recepção e a pós-modernidade se prendem a uma perspectiva tradicional de literatura desenvolvida em códex e, por isso, não dão conta da complexidade imposta pelos novos gêneros desenvolvidos, deixando escapar características importantes para a análise dessas obras. Assim, no livro Cibertexto: perspectivas sobre a literatura ergódica (1997) ele propõe uma nova forma de encarar os desafios apresentados à linguagem e à criação literária, adotando uma nomenclatura própria que tem como eixo os termos “cibertexto” e “literatura ergódica”.

Ainda que considere o suporte um importante fator a ser analisado, Aarseth não considera o papel do computador determinante para o surgimento de obras ergódicas. Obras publicadas em papel também podem ser ergódicas. Para isso, o leitor precisa não só interpretar o texto, como também explorá-lo, configurá-lo e mesmo produzi-lo. Por isso, o teórico norueguês propõe a substituição do termo “leitor” por “utilizador”. Segundo ele, o trabalho do leitor da Teoria da Recepção acontece exclusivamente no cérebro, enquanto que o do utilizador “também se exerce num sentido extranoemático”.

Em outras palavras, Aarseth compara o leitor tradicional como um torcedor de futebol, que por mais que grite, não possui o mesmo poder de um jogador, mostra-se impotente para influenciar o resultado. Já no cibertexto, a exigência de esforço e a energia por parte do leitor é tamanha que eleva a interpretação ao nível de intervenção. Isso significa que um utilizador, além da função de interpretar o texto, também precisa explorá-lo, configurá-lo ou mesmo produzi-lo.

Noruguês Espen Aarseth

Pesquisador noruguês Espen Aarseth

Thiago Corrêa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, Thiago Corrêa é um dos fundadores do grupo Vacatussa e já foi setorista de literatura nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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