Eduardo Cesar Maia - 16 de dezembro de 2014 às 01H 33M

Crítica e retórica: Ortega em Genebra

Coluna_Barra_crítica & críticos

 

A nova edição das Obras Completas de Ortega y Gasset traz muitos textos que nunca haviam sido publicados antes em livro. Entre eles, no volume VI, encontra-se a transcrição de um debate ocorrido entre vários pensadores em Genebra, no ano de 1951, após a conferência “Pasado y porvenir para el hombre actual”, pronunciada pelo filósofo espanhol.

A nova edição das Obras Completas  de Ortega y Gasset foram publicadas pela Tauros.

Oitavo volume das novas Obras Completas de Ortega y Gasset , recentemente publicadas pela Tauros.

Interessa-me destacar, pelo que tem de diretamente ligado ao tema da crítica literária, um ponto específico do debate final entre os intelectuais presentes naquela ocasião, entre os quais se encontrava M. J. Durry, que apresentou suas preocupações a respeito do estado da crítica literária à época. Sua inquietude se devia à constatação de que, a seu ver, existia uma tendência muito forte nos estudos literários a “uma excessiva divisão do trabalho: crítica literária, crítica filosófica, crítica científica”; para ela, a extrema especialização dentro do campo dos conhecimentos humanísticos se tornara um fator de empobrecimento intelectual. Parecia-lhe urgente que os pensadores voltassem a se ocupar em integrar dialogicamente todas as disciplinas das chamadas “Humanidades” e evitassem uma especialização à maneira da que ocorria nas ciências abstratas ou empíricas. De fato, para outro pensador presente, R. Kanters, a preocupação de Ortega em sua palestra havia sido exatamente a mesma, pois o filósofo tinha endossado a ideia de que todos os ramos do saber humano poderiam ser interessantes “ciências auxiliares de uma crítica literária completa”.

Ortega intervém e põe no centro desse debate sobre a revisão dos estudos humanísticos a importância do resgate da retórica – disciplina de caráter eminentemente humanista –, que vinha sendo reiteradamente desprezada pela filosofia tradicional. O autor das Meditaciones del Quijote diz, então, que através do monopólio, na primeira metade do século XX, da utilização da retórica no âmbito da política (os ditadores são sempre grandes retóricos),  “essa coisa desprezada se vingou”. Ortega compreendia a retórica como ciência das palavras e defendia que ela deve ser aproveitada em nossa vida social e cultural, pois “o poder das palavras é o que de último há nos homens”. Advertiu ainda os presentes naquela ocasião que, se ainda existiam países que faziam da vida literária um dos centros da cultura e dos valores, a recuperação da herança latina da retórica deveria ser um tema central entre filósofos e críticos literários.

Voltarei ao tema da relação entre crítica e retórica nas próximas colunas.

Eduardo Cesar MaiaEduardo Cesar Maia é jornalista, mestre em filosofia e doutor em teoria da literatura. A coluna Sobre crítica & críticos é veiculada quinzenalmente no site do Café Colombo.

 

Eduardo Cesar Maia

Editor da revista Café Colombo e professor de comunicação na UFPE, Eduardo Cesar Maia é jornalista, mestre em filosofia pela Universidade de Salamanca e doutor em Teoria da Literatura. Trabalhou na revista Continente.

Comentários

desenvolvido por Shamá