Renato Lima - 08 de setembro de 2015 às 15H 19M

De livros que viram fenômenos culturais

Lolita

Publicado há 6 décadas, Lolita é um romance que se estabeleceu como ícone cultural, transcendendo o mercado editorial

“Ela é uma lolitinha”. Quantas vezes não escutei essa frase usada para descrever alguma mulher com feições bem novas. Acho até que Eduardo Cesar Maia, aqui do Café Colombo, foi um desses interlocutores. Lolita, título do romance mais famoso de Vladimir Nabokov, é uma dessas obras que transcendem o mercado editorial e viram ícone cultural, metáfora, novo verbete.

Nabokov lançou Lolita na metade dos anos 1950, quando já morava nos Estados Unidos após emigrar da Alemanha e, anteriormente, Rússia. Essas seis décadas que separam o lançamento da obra até hoje não diminuíram o impacto do seu romance. Não apenas porque Lolita (a Dolores do romance, ou Dolly) virou uma referência cultural – tanto quanto é usar o termo balzaquiana – mas porque o conflito principal do seu romance continua sendo perturbador.

Em comparação, a sociedade dos anos 1950 é bem diferente da atual – mais tolerante e diversa –, mas a ideia de um homem mais velho se relacionando com uma menina de 12 anos continua igualmente (e apostaria que até mais) perturbadora hoje, em contraste com a data do lançamento da obra. Fator esse que, por si só, garante a atualidade da obra.

lendo lolita em teerãMas outra forma de se ler um romance é entendê-lo no seu tempo, compreender como foi a sua recepção e impacto na sociedade. E nisso a Lolita de Nabokov foi revolucionária. A iraniana Azar Nafsi resume no título Lendo Lolita em Teerã todas as mudanças culturais e pequenas transgressões realizadas por um grupo de amigas lendo literatura ocidental após a Revolução Iraniana do aiatolá Khomeini (1979). O livro trata de várias obras, mas Lolita foi alçada ao título.

Ainda que depois recebido com enorme sucesso literário, o caminho para o estrelato de Nabokov nos Estados Unidos não foi fácil. Ele era um desconhecido professor universitário, já com vários livros publicados em russo até conseguir lançar Lolita. Editoras recusaram a obra até que ela fosse aceita por uma editora francesa de segundo calibre. Anos antes da publicação, o próprio Nabokov quase destruiu os manuscritos. E, depois de publicada, a obra foi censurada.

Havia ainda o risco de rotular o autor como maníaco, pedófilo, pornográfico e deixar de lado os valores literários. De fato ele foi acusado de várias coisas, mas o sucesso de Lolita se deve essencialmente à qualidade literária, incluindo a ambiguidade e as múltiplas leituras possíveis. A preocupação com a escolha dos nomes, a sonoridade e qual a contribuição dada pela arte mostra bem como Nabokov levava a sério cada etapa da construção do seu romance – como ele mesmo deixou claro em entrevista à revista Playboy.

Nabokov-in-AmericaUm romance essencialmente ambientado nos EUA, Lolita mostra bem a influência desse país na vida e obra do autor, embora as ideias que originaram o livro tenham sido gestadas ainda no período em que Nabokov viveu na Europa. Essa história está bem contada num livro que acaba de ser lançado por Robert Roper, Nabokov in America: On the Road to Lolita, indicação desta coluna. Roper retrata desde a concepção da obra até sua recepção nos EUA, passando pelo ofício de Nabokov como professor universitário e o seu hobby como caçador de borboletas. Quem o teve como professor guarda boas recordações.

Lolita é uma dessas obras tão fortes e tão conhecidas que pertencem ao universo dos livros que (quase) não precisam ser lidos para se discorrer e criticar, como sugere o francês Pierre Bayard no seu delicioso Como falar dos livros que não lemos, publicado no Brasil em 2008, pela Objetiva.

Renato Lima

Fundador do Café Colombo, é jornalista pela UFPE, mestre pela UIUC, doutor pelo MIT. Mora em Kuala Lumpur, Malásia.

Comentários

desenvolvido por Shamá