Renato Lima - 22 de setembro de 2015 às 12H 33M

Doloroso abandono: a biblioteca Oliveira Lima

oliveira lima

Pernambucano Manoel de Oliveira Lima faz parte da tradição de diplomatas que pensaram o Brasil

Como parte da sua agenda de viagem aos Estados Unidos, nesta quarta-feira o Papa Francisco visitará a Catholic University of America, em Washington D.C. O campus da universidade foi coberto de grades de ferro para proteger o sumo pontífice e o público é esperado em cerca de 25 mil pessoas. Em contraste com os cuidados para receber Francisco, há uma preciosidade desta instituição que está esquecida e descuidada: trata-se da biblioteca Oliveira Lima, umas das mais ricas coleções brasilianistas, atualmente fechada ao público por falta de pessoal.

O diplomata pernambucano Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) serviu em diversos países, incluindo na embaixada brasileira em Washington. Também historiador, escritor e jornalista, Oliveira Lima foi um intelectual de rica formação humanista e uma das mais importantes influências ao jovem Gilberto Freyre. A exemplo do também pernambucano Joaquim Nabuco, que foi o primeiro embaixador brasileiro em Washington, e de outros grandes nomes como Graça Aranha, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Vinícius de Morais, ele fez parte de uma tradição de diplomatas que pensaram o Brasil. Sobre isso, ressaltamos a leitura do ensaio Entre diplomacia e letras: um esboço sobre a busca de Manuel de Oliveira Lima pela identidade brasileira, de Joshua Enslen.

No epitáfio do pernambucano lê-se apenas “Aqui jaz um amigo dos livros”, o que muito transmite sobre sua paixão pela leitura. A sua biblioteca pessoal alcançou cerca de 40 mil volumes incluindo livros, panfletos, mapas e outros materiais raros. Antes da sua morte, Oliveira Lima deixou todo o material (com o devido termo de doação e compromissos) à Catholic University of America, onde a coleção começou a chegar em 1920.

Universidade abriga a biblioteca de Oliveira Lima desde

Fundada em 1887, Universidade Católica da América abriga a biblioteca de Oliveira Lima desde 1920

Desde então, a biblioteca tem atraído inúmeros pesquisadores interessados em história colonial, a vinda de Dom Joao VI ao Brasil, Independência do Brasil, primeiro e segundo reinados, primeira república brasileira e a extensa correspondência do diplomata, que mantinha como interlocutores figuras como o já citado Nabuco, além de Euclides da Cunha, Machado de Assis e José Veríssimo.

Na última semana, visitamos a Catholic University e conversamos com uma pessoa que tem amplo conhecimento sobre a biblioteca, mas que no momento prefere permanecer no anonimato. A biblioteca da universidade é belíssima, com amplos salões e em plena atividade no dia da visita.

Biblioteca funciona a pleno vapor

Biblioteca geral da Universidade funciona em plena atividade

Mas o mesmo não pode ser dito do local que alberga a famosa coleção Oliveira Lima. Localizado no porão, em portas fechadas, o espaço parece mais um depósito de livros do que um ambiente de pesquisa. Em outras oportunidades, liguei para o número que consta da biblioteca, em diferentes momentos, em pleno horário comercial. Ouvi somente uma mensagem eletrônica:

– Hello, you reached the Oliveira Lima library…

Se a universidade estava fazendo pouco com a coleção – a localização no porão já vem de anos – a situação piorou recentemente. Desentendimentos com o atual diretor da biblioteca, um professor do departamento de história, levaram à saída de três colaboradores, incluindo a curadora Maria Ângela Leal, que dava vida ao lugar, conhecia a biblioteca com a palma da mão e recebia pesquisadores de todo o mundo. Desde então, a biblioteca está desfalcada e sem pessoal para receber visitantes.

Abandonada, Biblioteca Oliveira Lima parece

Abandonada, Biblioteca Oliveira Lima parece mais um depósito de livros do que um ambiente para pesquisas

De acordo com a minha fonte, que falou com muita propriedade sobre o acervo e sua história, o ponto de discórdia é a falta de cuidados com que a biblioteca vem sendo tocada. Um caso exemplar é um projeto de digitalização que vem sendo conduzido pela empresa Gale Cengage Learning.

A empresa ofereceu digitalizar o material em troca de vender assinaturas para outras universidades interessadas na coleção. Só que o processo começou sem o devido cuidado, o que motivou protestos da equipe de funcionários. Primeiro, a digitalização está sendo conduzida fora da biblioteca, encaixotando materiais únicos e os sujeitando à fadiga por transporte e variação de temperatura. Segundo, nem mesmo um controle de saída dos materiais foi feito. Terceiro, uma das sugestões de quem estava digitalizando era desencadernar alguns materiais para poder passar pelo scanner – o que violaria os livros.

Não fosse isso pouco, a direção da biblioteca decidiu desmembrar parte da coleção original de Oliveira Lima, enviando livros de literatura europeia do diplomata para um galpão em Maryland. Quem queira saber quais os livros que Oliveira Lima lia ou observar suas anotações agora terá muito mais dificuldade. E tal desmembramento possivelmente fere o termo de doação, o que precisa ser conferido.

Influência importante para Gilberto Freyre, Oliveira Lima mantinha correspondências com personalidades como Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Aluízio Azevedo e Barão de Rio Branco

Influência importante para Gilberto Freyre (esquerda), Oliveira Lima (centro) mantinha correspondências com personalidades como Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Aluízio Azevedo e Barão de Rio Branco

A doação de Oliveira Lima vai fazer 100 anos em breve. De certa forma, o atual diretor e todos os ex-funcionários são temporários nessa história – ficam por um tempo, dão as suas contribuições e depois se vão. O que fica é o material histórico e o compromisso feito pela instituição com Oliveira Lima, firmado há quase um século.

A universidade não vem cumprindo com o seu papel de guardiã da obra de Oliveira Lima, o que deve ser motivo de espanto e mobilização de todos os interessados no patrimônio cultural brasileiro.

Renato Lima

Fundador do Café Colombo, é jornalista pela UFPE, mestre pela UIUC, doutor pelo MIT. Mora em Kuala Lumpur, Malásia.

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