Renato Lima - 09 de dezembro de 2015 às 01H 00M

Donald Trump e o complô contra a América

Em seu The Plot Against America (Complô contra a América, publicado no Brasil pela Cia das Letras), o escritor Americano Philip Roth escreve um romance de história alternativa, em que o aviador Charles Lindbergh é eleito presidente dos Estados Unidos na chapa republicana, derrotando o democrata e então candidato à reeleição Franklin Delano Roosevelt.

complo-contra-a-americaComo é próprio da literatura de Roth, a barreira entre ficção e realidade é tênue e o romance está permeado de figuras históricas. Lindbergh foi um aviador de sucesso, mas tinhas suas simpatias pelo nazismo e por ideias eugênicas. Também foi um defensor público da não participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial – pregando que não era do interesse dos Estados Unidos lutar contra Hitler. Dizendo-se a favor da paz, fez vários discursos a favor da neutralidade americana, o que efetivamente beneficiaria a Alemanha Nazista, país o qual ele tinha visitado e recebido uma medalha de honra em 1938.

História alternativa pode ser muito mais do que uma boa peça literária. Pode também servir como uma importante reflexão política sobre o presente, escolhas e a solidez (ou não) de determinadas instituições, como o próprio sistema democrático. Eu e o escritor Jacques Fux escrevemos mais detidamente a respeito disso em um artigo acadêmico.

No romance de Roth, lançado em 2004, Lindbergh vence a disputa eleitoral com sua mensagem de não intervenção na Segunda Guerra. Ao mesmo tempo, domesticamente o governo pouco a pouco dificulta a vida de famílias de judeus, como a do Roth da história. O leitor perceberá que as mudanças institucionais, as pressões e a cooptação de lideranças contadas no livro são muito verossímeis. A obra nos faz refletir que valores como liberdade de expressão, religiosa e de associação dependem não apenas da letra fria constitucional, mas do cultivo diário dos valores que embasam tais garantias, como o da tolerância e respeito às liberdades individuais.

Neste momento, os Estados Unidos estão em período pré-eleitoral, com algumas características únicas. Do lado democrata, é quase certo que a vencedora da disputa primária será Hillary Clinton, que concorre principalmente com Bernie Sanders, um senador pelo estado de Vermont que defende a impopular bandeira do socialismo. Do lado republicano há mais de uma dezena de candidatos, incluindo governadores, senadores, empresários, executivos e um médico de prestígio aposentado. De todos esses, o que por mais tempo tem ficado na liderança é Donaldo Trump, que inicialmente foi recebido com muito descrédito sobre suas chances eleitorais. Só que o tempo vai passando e ele continua no topo das pesquisas.

USA-ELECTIONS/TRUMP

Da literatura para a realidade: Donald Trump evoca semelhanças com obra de Philip Roth

Donald Trump não é um republicano de carteirinha nem uma liderança do partido. É uma personalidade da TV, bilionário, e que cultivava relações com diversos políticos (inclusive com os Clintons, que estiveram em seu casamento). De personalidade egocêntrica, não mede palavras para atacar adversários e inimigos reais ou imaginários. Sua mensagem política é essencialmente de protecionismo econômico e xenofobia. Já se referiu aos Mexicanos como “estupradores” e “traficantes de drogas”. Também considera que a China e o México “roubam” empregos e empresas dos Estados Unidos e que “levam vantagem” na balança comercial porque “os políticos americanos são estúpidos”. Sem um mínimo conhecimento de conceitos econômicos, se refere ao comércio externo como um jogo de soma zero no qual os Estados Unidos estaria perdendo.

Nesta segunda-feira, 7 de dezembro, Trump se superou. Afirmou categoricamente que os Estados Unidos devem proibir todos os muçulmanos de entrarem no país. Seja a negócio, turismo, ou o que seja: para ele, se é muçulmano deve ser barrado na entrada. E se for um americano muçulmano? Ah, aí deve ser vigiado atentamente, afirmou. Quando pressionado sobre como colocar isso em prática, que tipo de teste seria feito, ele despista e muda de assunto. É típico de Trump – ele fala o que quer e nunca elabora as consequências das suas propostas.

A proposta é inconstitucional e obviamente tem cunho de preconceito religioso. Foi duramente criticada por lideranças dos dois partidos. Mas outra vez colocou Trump no centro das atenções políticas e representa mais um apelo por soluções extremas em defesa do solo americano. Há um público para isso e é para essa torcida que Trump vem jogando. Depois de tantas semanas na liderança das pesquisas no campo republicano e manipulando o medo do público americano após tantos atentados terroristas, é concebível que Donald Trump chegue à presidência. Só que ao contrário do retratado na obra de Philip Roth, dessa vez não seria ficção.

Renato Lima

Fundador do Café Colombo, é jornalista pela UFPE, mestre pela UIUC, doutor pelo MIT. Mora em Kuala Lumpur, Malásia.

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