Cristiano Ramos - 21 de setembro de 2015 às 12H 17M

E morre o mundo inteiro

Sobre Esman Dias, que nos deixou recentemente

I


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Depois das crônicas sobre Gilvan Lemos, novamente a coluna Doppio Espresso deixa de veicular resenha literária e se presta a uma modesta lembrança, alguma precária homenagem a um escritor que – recém-encantado – permanece através dos textos, afetos e sabedoria que legou. Na segunda-feira, 14 de setembro, faleceu no Recife o professor, poeta e tradutor Esman Dias.

Nascido na Paraíba, em 1937, Esman contava três anos de idade quando sua família mudou-se para Pernambuco. Em 2017, ele completaria quatro décadas de serviços prestados à Universidade Federal de Pernambuco. Da fortuna que cultivou durante essa trajetória acadêmica, tão dedicada quanto zelosa de discrição, vêm os incontáveis depoimentos de alunos e ex-alunos que tornam evidente o lugar central da docência no ethos do intelectual.

A sala de aula nunca foi mero sustento, meio de sobrevivência que possibilitasse a tranquilidade necessária para produzir e traduzir poesia, tampouco era colocada lado a lado com as demais atividades culturais e públicas. Ser professor estava acima disso tudo, muito além de quaisquer contingências vizinhas – ser professor era sua gravidade, sua órbita e sua consciência.

Nestes tempos de tanto descaso com a educação, Esman foi dessas embarcações que permanecem ancoradas, dignas e convidativas, enquanto o porto ameaça desabar, mal tratado por uma sociedade brasileira que se acostumou – talvez como nenhuma outra – com o abismo entre a retórica cínica de eminência do ensino e as ações concretas de sucateamento e desvalorização do sistema educacional.

Nem toda simplicidade da figura de Esman – de trajes e modos – impedia-nos de tê-lo como encarnação da lida nobre que abraçou; assim como nenhuma pintura de fachada ou qualquer outro disfarce – logístico ou político – deixa-nos esquecer como o Brasil é exemplar no delito de aviltamento da docência. A pátria não é educadora, nunca foi, seja lá em qual governo.

II

Sobre o poeta e tradutor, o mais importante – talvez única verdadeira homenagem póstuma que prestamos aos escritores – é ter a disposição de reunir, cuidar e divulgar sua obra. No caso de Esman, até pela citada centralidade que a docência teve em sua vida (além de algumas outras razões menores), sua produção poética se manteve rarissimamente publicada e reverberada (no mais das vezes, em projetos editoriais com visibilidade restrita e quase nenhuma possibilidade de reedição).

Nada seria mais justo do que nos empenharmos em organizar, comentar e espalhar os poucos e admiráveis versos que ele deixou, em mais de meio século dedicado à poesia – que jamais pode ser considerada como uma daquelas contingências vizinhas à sala de aula; porque, com Esman, eram indissociáveis o ofício docente e o ser/viver poético.

Como não poderia ser diferente, encerremos a Doppio Espresso com o próprio Esman Dias, e o poema “Acta est Fabula” (dedicado ao amigo Domingos Alexandre):

“Morre o poeta.
Morre, com ele, toda a luz do mundo:
o espaço do seu rosto, o mar profundo,
a aurora e um pôr-do-sol escandaloso.

Morre o poeta e morre o Ocidente.
E o Oriente. E os pontos cardeais.
Morrem as estrelas. Morre o firmamento.
Morrem as sombras do pântano e o arvoredo,
todos os santos, todos os escribas,
os dias da semana, a quarta-feira.

E o próprio tempo, imóvel, que agoniza:
foi-se o olhar que no relógio via
a marcha, alegre e triste, dos ponteiros.

Morre o poeta.
Morre a alegria.
Morre tudo o que flui: morre a poesia.

Morre o poeta.
E morre o mundo inteiro”.

 

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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