Ricardo Borges Gama Neto - 28 de janeiro de 2016 às 08H 36M

Em ano de eleições municipais, a solidão sobe o planalto

Falta de confiança. Esta certamente é a expressão que melhor designa o sentimento de boa parte da sociedade e dos atores políticos com relação ao atual governo federal. Desde que foi reeleita, a presidente e seu staff têm vivido uma eterna crise que se manifesta nos constantes embates com o Congresso Nacional, especialmente a Câmara dos Deputados, na baixíssima popularidade e no declinante nível de investimento das empresas privadas.

O novo ano está se parecendo cada vez mais com o velho. O parlamento continua em recesso, mas nada indica que quando o Carnaval passar os líderes políticos vão tentar instaurar uma agenda de reformas positiva. Pelo andar da carruagem, as investigações e denuncias da Operação Lava Jato vão continuar tendo a primazia da opinião pública, e continuarão colocando políticos importantes em situações delicadas, como é atualmente o caso do ministro da Casa Civil Jacques Wagner.

As eleições municipais se aproximam, e dificilmente os candidatos a prefeitos e a vereador vão querer ser identificados ao governo da presidente Dilma Rousseff. Está será uma eleição muito complicada para os partidos da base parlamentar do governo. A tendência parece ser que o governo continuará só. O deficit de credibilidade se soma a necessidade de sobrevivência dos políticos.

A falta de confiança na capacidade do governo federal de administrar a crise que se abate na economia brasileira vem de todos os lados, até mesmo do partido da presidente. Em coluna anterior afirmei que o ministro Nelson Barbosa poderia adotar quatro estrategias para administrar a economia. Seguindo as informações repassadas pela imprensa, o ministro poderá adotar uma mescla de política de austeridade fiscal com aumento do oferecimento de crédito pelos bancos oficiais.

Pelo primeiro lado, o do ajuste das contas, a ideia defendida pelo ministro é controlar especialmente os gastos com a previdência social, que em 2015 produziram um rombo de 100 bilhões de reais. A ideia básica é estabelecer uma idade minima para a aposentadoria. Contudo, o PT é radicalmente contra a iniciativa. O Senador Lindberg Farias foi taxativo em definir a medida como um “suicidio político”. Mesmo sendo uma medida absolutamente necessária parece ser uma iniciativa natimorta.

Nelson-Barbosa

Outras medidas no mesmo sentido são o fim da isenção de impostos para o consumo e a tentativa de recriação da famosa e famigerada CPMF. Por outro lado, o do gasto público,  o ministro Nelson Barbosa pretende religar o motor da economia brasileira inundando o mercado com uma nova rodada de crédito subsidiado via bancos oficiais, como o BNDES e a Caixa Economica.

Além de imobilizado politicamente pela própria incompetência, o governo parece querer brincar de jogar gasolina no incêndio. É completamente estapafúrdia a ideia de que a economia poderá crescer novamente através de uma chuva de créditos subsidiados. Além de aumentar fortemente a dívida pública, uma medida deste tipo jogaria a inflação nas alturas, bem acima dos atuais 10%. Podemos até crescer no curto prazo, mas será um voo de galinha, com uma grande queda.

Esperemos que estas noticias não se concretizem, mas pela forma como o Banco Central tem conduzido sua política de juros e a comunicação com o mercado não se deve esperar sobriedade dos responsáveis pela política econômica.

Diferença entre as metas de inflação e o valor do IPCA

Metas de inflacao vs IPCA

O gráfico demonstra um completo e total divórcio entre a política de metas de inflação e a inflação real. Desde que foi estabelecido o regime de metas (1999) os governos federais têm demonstrado uma grande incapacidade de fazer com que a inflação convirja para o centro da meta. De 2005 a 2014, quando a meta foi estabelecida em 4,5%, apenas em três anos a inflação ficou abaixo do estabelecido. Contudo, em 2015 o descompasso foi total: uma diferença de  6,17%.

A economia é fortemente dependente da credibilidade dos governantes e da expectativa do funcionamento futuro do mercado, e em ambos os casos as coisas vão muito mal. O governo atual possui um forte déficit de confiança e a expectativa dos empresários e das famílias é a de que não há uma melhora num horizonte perceptível.

No primeiro Relatório Focus de 2016 as principais instituições financeiras do país estimam uma inflação para 2016 perto de 7,0%. Em outros documentos de análise a expectativa é de uma retração na economia acima de 2,0%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) é mais pessimista quanto ao desempenho da economia brasileira, prevendo uma recessão acima de 3,0% (anteriormente era de -1,0%).

Mesmo que o governo tente colocar a culpa das mazelas na crise internacional este é um exercício inócuo. Ninguém acredita nisto. Algumas economias importantes estão reduzindo seu ritmo de crescimento, como a China, mas a expectativa é que a economia mundial cresça em torno de 3,0%.

O governo tem de realizar um ajuste fiscal efetivo e voltar a agenda de reformas abandonada em 2002. É impossível que uma economia se desenvolva com o estado tungando quase 40% da renda nacional e regido por uma legislação trabalhista (o custo de um trabalhador é em média três vezes o salário pago) e tributária completamente anacrônicas. Sem reformas não há como aumentar a competitividade da economia e os investimentos privados.

Ricardo Borges Gama Neto

Análises de políticas públicas e interpretações sobre o mundo do poder com o cientista político Ricardo Borges Gama Neto, doutor em Ciência Política, diretor de pesquisa da Associação Brasileira de Ciência Política e professor da UFPE. Veiculação quinzenal, sempre nas terças-feiras.

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