Cristiano Ramos - 24 de agosto de 2015 às 13H 30M

Gilvan Lemos: o desejo encabulado

Homenagem a Gilvan Lemos (1ª parte)

I


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Na retomada da Doppio Espresso, não preparei resenha literária ou parte inicial de alguma crítica mais longa – como é de costume. Para começar segunda temporada da coluna, apenas duas crônica, algumas lembranças e ligeiras impressões que se pretendem modestíssimas homenagens ao romancista e contista Gilvan Lemos (nascido em São Bento do Una, em 1º de junho de 1928, e falecido no Recife, em 1º de agosto recente).

Gilvan foi encontrado sem vida em seu apartamento no bairro da Boa Vista, onde morava sozinho, sem jamais ter casado ou tido filhos. O mesmo endereço para o qual eu telefonei, em 2001, após conseguir a nada difícil tarefa de convencer Manuel da Costa Pinto a veicular na revista Cult uma entrevista com o autor de Emissários do diabo, O anjo do quarto dia, A lenda dos cem e Morcego cego, entre outros. Mal expliquei a proposta, Manuel já bateu o martelo: “Gilvan Lemos, claro que queremos a entrevista”!

“Não acredito, ele sabe de mim”? – perguntou Gilvan. A aceitação entusiasmada do editor da Cult foi uma das primeiras coisas que eu contara, por telefone, ao escritor retraído e solitário que carregava fama de não querer dar entrevistas e ser badalado. Há anos, de fato, os raros depoimentos eram concedidos a amigos próximos, e considerados pérolas arrancadas do submerso autor. O também jornalista Diogo Monteiro, que dividiu comigo aquela pauta, brincava sobre como seria o trabalho de transcrever e editar os dois ou três minutos de fala que conseguiríamos de Gilvan Lemos. E que grande engano o nosso!

O que descobrimos naqueles meses de contatos – que começaram e se seguiram por conta da entrevista – foi um escritor triste, bastante triste, e cuja frustração não era ter que abrir as portas de sua torre-claustro de marfim. Pelo contrário. Gilvan confessou ter muito e muito sonhado com a fama, com a condição de autor lido, reverberado, renomado, estudado, homenageado. A timidez que carregava desde menino não era um traço a mais de uma suposta ética autoral baseada no recolhimento, que se pautava contra as luzes e mecanismos do mercado editorial. A timidez, ao invés disso, foi desde sempre o empecilho que o impedia de conquistar justamente os espaços públicos desejados.

II

Com a morte de Gilvan, novamente surgiram teses aonde o prosador pernambucano surge como encabulado símbolo da resistência, do literato que se contrapõe aos modismos e às demandas do mercado – leitura que, embora compreensível, não poderia ser mais equivocada!

Talvez eu e Diogo tenhamos perdido a oportunidade de melhor esclarecer esta questão. Ainda assim, estão lá, nas páginas e site da Cult, as poucas frases que deixam evidente a condição que Gilvan viveu durante sua jornada literária. Disse ele:

“Eu sempre fui bastante tímido, nunca tive muitos amigos. Não frequentava universidades, não conhecia colunistas de jornais, não tinha intimidade com escritor nenhum. Desde o início me faltava coragem para bater à porta de editora. Esperava ingenuamente por algo parecido com o que aconteceu com Graciliano Ramos, um editor descobrindo e divulgando meu trabalho”.

E as conversas mantidas depois da publicação ratificaram o dado: Gilvan sonhara com o prestígio literário, com o reconhecimento, com o assédio do mercado editorial etc. Mas a danada da timidez era, realmente, um traço incapacitante. Fosse em outra área de atuação, talvez as pessoas em redor tivessem insistido para que ele fizesse terapia, buscasse meio de amenizar aquela inibição. No entanto, o rapaz vindo do sertão pernambucano trabalhou como funcionário público, ofício que – curiosamente e durante muito tempo – foi considerado refúgio ideal para pessoas introvertidas. E o mesmo rapaz se tornou escritor, lida onde, até hoje, a reclusão é largamente considerada uma virtude, um traço enobrecedor, digno de ser testemunhado e copiado.

Na próxima crônica, abordarei outro enganoso lugar-comum: de que, mesmo autodidata, Gilvan Lemos conquistou “o domínio da linguagem literária”. A assertiva é uma tremenda bobagem, independente de qual o autor citado, pois nenhuma linguagem pode ser domada, controlada. Por isso mesmo, por serem partes de fenômenos sociais e dinâmicos, jamais plenamente subjugados pelas técnicas e intenções dos autores, é que as obras literárias sobrevivem à prova do tempo, às contingências que surgem geração após geração de novos leitores ou de renovado silêncio. No caso de Gilvan, então, a afirmação é ainda mais absurda. Em crítica para a revista Continente (que acabou acidentalmente saindo sem a minha assinatura), tratei deste tópico. E, a resposta de Gilvan ao texto, serve para fechar o tema de hoje, de sua timidez e de seus frustrados desejos. À porta de uma livraria, Gilvan brincou:

“Você escreveu a verdade, mas eu queria mesmo era que você dissesse que eu era o Graciliano ou o Hemingway pernambucano! Se não fosse essa timidez lascada, eu mesmo diria que sou”!

Depois das risadas, Gilvan retornou ao seu apartamento, no qual enviezadamente alimentava as lendas que, somadas à falta de memória que chegava com a idade, submergiam o pequeno gigante de São Bento, que tanto sonhou com maré a favor e velas bem amplas e vistosas.

Até a próxima semana!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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