Cristiano Ramos - 07 de setembro de 2015 às 18H 38M

Gilvan Lemos: a comovente imperfeição

Homenagem a Gilvan Lemos (2ª parte)

III


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Hoje, novamente deixo de veicular crítica literária – que é a missão declarada (e ainda que nem sempre bem executada) da coluna Doppio Espresso. Novamente, opto por ligeiras impressões em lembrança de Gilvan Lemos, que nos deixou em 1º de agosto.

Semana retrasada, recordei a reação de Gilvan a texto meu, à análise que eu publicara na revista Continente, apontando a árdua trajetória de um autor que, autodidata, lutou contra suas limitações, buscou aperfeiçoar sua escrita e, ainda que sem produzir as obras-primas que alguns resenhistas insistem em anunciar, expressa a vitória literária do homem comum. Gilvan brincou: “você escreveu a verdade, mas eu queria mesmo era que você dissesse que eu era o Graciliano ou o Hemingway pernambucano! Se não fosse essa lascada timidez, eu mesmo diria que sou”!

Rimos bastante! Mas suspeito que, sob a divertida tirada, ele desaprovou aquele meu artigo. E não estranho a reação. Vivemos meio literário cheio de clichês adotados como se fossem pré-requisitos para recepção positiva das obras, ambiente onde os bons livros parecem necessitar de lugares-comuns dos mais exagerados, como “divisor de águas”, “irretocável”, “genial”, “obra-prima” etc. Não basta recepção positiva e equilibrada, é preciso erguer os autores pelos cabelos e anunciar (cinicamente ou no automático) a sua perfeição. As vitórias simples de homens comuns não interessam, valem pouco mais que o mais retumbante fracasso.

Gilvan Lemos não dominava técnica alguma, tampouco produziu obras-primas irretocáveis. Nem por isso ele legou trabalhos inexpressivos. Autodidata apaixonado, leitor sensível, homem marcado pelos sonhos que a timidez e outras contingências não permitiram concretizar, ele produziu narrativas de rara força, com imagens, personagens e diálogos que ficam no leitor. Por isso seus admiradores costumam se expressar tão fácil sobre os livros, a intimidade vem da capacidade do prosador de cativar seus leitores através da verdade dos textos – que, como bem sabemos, não se confunde com qualquer outra verdade ou demanda de realidade. Esses leitores não são atraídos pelo esmero técnico ou pela sofisticação das obras, pois estes não são os traços mais fortes da literatura de Gilvan Lemos.

Pelo contrário, às vezes, essa vocação – não acompanhada de preparo mais largo – resultou em páginas das mais infelizes, parágrafos tão pretensiosos quanto constrangedoramente banais, instantes que parecem nos gritar “Faça de conta que não aconteci, faça de conta que fui queimado antes de virar literatura ou quase-literatura”. Nenhum desses deslizes, porém, foi capaz de impedir a grandeza de obras como Emissários do diabo, O anjo do quarto dia, A lenda dos cem e Morcego cego.

IV

Gilvan Lemos nasceu em São Bento do Una. Do agreste pernambucano até aquela cidade sertaneja, não sei se ainda existem, mas, entre os anos 80 e 90, eram comuns as marcenarias lotadas de móveis rústicos. A literatura de Gilvan sempre me remete aquela mobília de minha infância, peças nitidamente realizadas sem grandes técnicas ou equipamentos, com algumas falhas aparentes e outras mais disfarçadas, com farpas ou desequilíbrios que podiam incomodar bastante. Nem por isso éramos menos seduzidos pela força e pela beleza imperfeita de seus materiais e linhas.

Como aqueles móveis, a literatura de Gilvan é carregada de uma expressividade comovente, não sustentada por algum falso domínio da técnica. Daí, ainda que insistamos em clichês excessivos e furados, Gilvan Lemos vive e está sempre à espera dos novos leitores. Porque, ao não se deparar com a genialidade vendida, esses mesmos leitores tampouco ficam no vazio.

A vitória do autor, daquele sujeito tímido e comum, embora não tenha resultado em impecáveis obras-primas, adquiriu beleza rara – não de orquídea delicada e à beira do irrepreensível, mas do cacto irregular e obstinado. O acanhado escritor de São Bento foi um gigante que conseguiu ir além do que seus limites sugeriam, além do que os autores mais preparados costumam – de forma precária – realizar, e muito muito além do que este colunista da Doppio Espresso pode ou poderá algum dia especular sobre seu legado.

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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