Sylvio Ferreira - 17 de setembro de 2015 às 12H 31M

Henry Miller e o devir-louco

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Henry Miller fumou cigarros baratos, daqueles que arrebentam os pulmões em poucos dias e deixam os dentes logo encardidos; tomou sopa fumegando, feita de ossos, ao preço de um níquel; bebeu uísque vagabundo de origem clandestina, pago pelos amigos ou por qualquer um que se prestasse a tanto; apalpou seios e xoxotas e fodeu bocetas, a torto e a direita, com um vigor de um estivador das docas; mas, principalmente, o que ele fez foi cuspir fogo feito um dragão enquanto escrevia.

Todavia, não o fez com o propósito de nos ameaçar ou de nos destruir como se agisse como uma fera assassina movida por um instinto letal, mas com o objetivo de levar até os nossos corpos e mentes o ar quente do seu bafo seco, na esperança de derreter as nossas vidas congeladas desde sempre – pela falta de ousadia em romper com o mundo das atitudes estereotipadas e dos comportamentos estéreis que nos aprisionam em jaulas feitas de latão ou de fios de ouro, mas que enjaulam e embotam a nossa consciência, de uma maneira ou de outra.

Esse misto de dragão da bondade e santo maldito, tendo assumido, como assumiu, escrever em plenitude o que vivia intensamente a cada dia da sua vida, jamais poderia tê-lo feito se não tivesse se permitido viver a sua estação no inferno, ao seu próprio modo. E assim o fez se movimentando entre o caos e a lama, para se purificar, como assim o fizeram ou fazem quase todos os santos malditos ou não.

Entretanto, ser uma espécie de dragão da bondade, neste caso, nunca implicou, para ele, numa tentativa de excluir-se da vida ou dela afastar-se, ainda em vida; levando-o a sentir-se acima e para-além dos outros homens – mesmo que esta superioridade, no mais das vezes, encontre-se camuflada em nome da pregação ou prática da humildade; por parte daqueles que se propuseram ou se propõem a lavar pés, beijá-los, ou lamber feridas, em nome da expiação de culpas e em busca da salvação eterna.

Henry Miller nunca fez da sua espécie de santidade maldita uma moeda de troca; nem no mundo da vida, ela própria, nem no mundo literário, ou em qualquer um outro. Em termos literários, a sua santidade maldita é de outra natureza: não daquela do tipo que condena para redimir, mas que redime para condenar. Cabe uma pergunta, nesse momento – condenar a quê? Condenar a assumirmos em plenitude as múltiplas possibilidades de viver a vida, de experimentarmos a vida, de nos tornarmos maleáveis em relação a nós mesmos, vindo a supra-assumir em inteireza a plasticidade do nosso ser, a sua condição e dimensão criativas – exatamente aquela que nos fez e nos faz ser-dos-possíveis.

Outra pergunta se faz necessária, antes de prosseguirmos. Qual seria o caráter de redenção presente em sua obra? Afogar-nos, até perdermos o fôlego, em nossa própria humanidade, para virmos a conhecê-la por dentro e pelo avesso, mas não apenas isso; essa é a resposta. Para podermos conhecê-la, também, a partir do jogo de forças que a constitui provindo do mundo concreto em que nossas vidas se situam – um mundo feito de horror e de beleza, de gestos largos e de gestos vis, de paus famintos e bocetas entediadas, de bocetas gulosas e paus murchos, de estômagos fartos e protuberantes e de bocas famintas escancaradas, de mármore raro e delicado e de fuligem banal a asfixiar os pulmões, de carícias e de maus-tratos trocados debaixo dos lençóis ou em praças públicas, de acolhimento pleno e de irrestrito repúdio, onde quer que sejam praticados esses comportamentos, de soberba e abnegação; de crença, fé e luxúria desenfreadas; de atos de misericórdia desprovidos de perdão, do perdão engomado pelos bons modos, mas sem a devida convicção do ato praticado.

Mas esse santo maldito que também se fez dragão da bondade, e que desceu aos infernos por um número de anos maior do que a quantidade de pregas que rodilham o ânus, tinha um lema, como ele próprio escreveu: “Eu tenho um lema: sempre alegre e vivo!”. Qual a fonte dessa alegria? A vida, pura e simplesmente! Mesmo tendo descido aos infernos, da sua obra jorra abundante alegria. Em realidade, não passa de um mero artifício tentar situar Henry Miller toponimicamente, uma vez que o real lugar onde ele se situa é na vida como um todo: e não em nenhuma camada ou estrato dela em particular.

Porém nela, na vida ela própria, em toda a sua inteireza, é que ele se situa e podemos encontrá-lo. É da própria vida, exatamente, que ele escreve. E daí é que provem o timbre da autenticidade da sua obra. O seu canto de beleza e esplendor literários emergem do meio da rua, como se os lírios do campo, de repente, tivessem brotado em meio às calçadas e aos arranha-céus das grandes cidades – Paris ou Nova York, por exemplo. Do mesmo modo que acontece com o seu grito de dor e de agonia; como se as flores do pântano, com os seus genuínos encantos, tivessem migrado, de uma hora para outra, para as grandes metrópoles.

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Num dos seus textos, O décimo quarto distrito – que compõe a obra Primavera Negra – Henry Miller utiliza uma epígrafe que nos remete ao cerne da sua preocupação literária: “O que não se passa em plena rua é falso, derivado, isto é, literatura”. Tal epígrafe bem revela o termo de compromisso assinado por ele com a vida. O que me leva a dizer que Henry Miller é um escritor que escreveu a céu aberto, como assim Freud afirmou que, em priscas eras, um dia nós sonhamos.

O que significa dizer que ele escreveu sem peias, sem pejo, com dignidade e destemor, movido pelas vísceras; como se ele fosse constituído por uma espécie de “órgãos sem corpo”, mais do que por um “corpo sem órgãos”. O que não o exime de ter sido possuído, e de ter se deixado possuir, por aquilo que Deleuze chamou de “devir-louco”.

Eis a referida epígrafe, agora também citada no devido contexto do texto em apreço: “ter nascido na rua significa vaguear toda a vida, ser livre. Significa acidente e incidente, drama, movimento. Significa acima de tudo sonho. Uma harmonia de fatos irrelevantes que dá à perambulação da gente uma certeza metafísica. Na rua a gente aprende o que são realmente os seres humanos; em outras circunstâncias ou posteriormente a gente os inventa. O que não se passa em plena rua aberta é falso, derivado, isto é, literatura. Não importa que se voe para o Pólo, que se sente no leito do oceano com um bloco de papel na mão, que se desenterrem nove cidades uma depois da outra ou que, como Kurtz, se navegue rio acima e fique louco. Por mais excitante que seja, por mais intolerável que seja a situação, sempre há saídas, sempre há melhorias, confortos, compensações, jornais, religiões. Antigamente, porém, nada disso existia. Antigamente era-se livre, selvagem sanguinário….”

Henry Miller viveu esse devir, ele foi esse devir, na ampla descontinuidade do seu ser nômade. Tendo chegado mesmo a estabelecer para si esse devir como marco de referência em sua vida. Contudo, um devir louco que nunca lhe roubou a doçura, presente em toda a sua obra. E mediante a qual nos presenteou. Tampouco o arrastou para o nihilismo. Não obstante, esse dragão da bondade que também se fez santo maldito, nunca tergiversou ao falar sobre o ódio e a fúria que o possuíam, emergindo das entranhas. Para ilustrar o que digo, eis um trecho extraído de um dos seus escritos, A alfaiataria, o qual, igualmente, compõe o livro Primavera Negra:

“Caminho sobre a ponte do Brooklyn… É isto o mundo, este caminhar para cima e para baixo, estes edifícios que estão iluminados, os homens e mulheres que passam por mim? Observo seus lábios movendo-se, os lábios dos homens e mulheres que passam por mim. Sobre o que estão falando – alguns deles tão seriamente? Odeio ver gente tão mortalmente séria quando eu próprio estou sofrendo mais que qualquer deles. Uma vida só! E há milhões e milhões de vidas para serem vividas. Até agora eu não tive uma única coisa a dizer a respeito de minha própria vida. Nenhuma coisa. É possível que eu não tenha tido a coragem. Devia voltar ao metrô, agarrar uma Jane e violentá-la na rua. Devia voltar a visitar o sr. Thorndike de manhã e cuspir-lhe na cara. Devia ficar parado na Times Square com o pau na mão e mijar na sarjeta. Devia agarrar um revólver e disparar à queima-roupa na multidão”.

Um pouco antes, ainda no referido texto, ele havia escrito o seguinte: “A tensão de esperar que alguma coisa aconteça é delirante”. Mas o devir, em forma de delírio ou não, pelo menos o devir enquanto expressão de uma ansiedade expectante, é algo para ser tomado como sendo sempre bem-vindo. E não como uma ameaça, a si mesmo ou a um outro, algo que devêssemos rejeitar ou virar as costas. O devir não é uma espécie de vale-tudo. O devir possui uma ética. E a ética do devir implica no reconhecimento das diferenças e no respeito às mesmas – o que, a princípio, pode parecer pouco, mas não é. Aos trancos e barrancos, Henry Miller, ao se permitir viver o seu devir, e ao deixar-se por ele ser possuído, estabeleceu para si, a ética do devir como filosofia e prática de vida – embora, talvez, mais no sentido spinosiano do que deleuziano.

Ou, talvez, mais apropriadamente, ainda, no entremeio onde a ética de Spinosa e a de Deleuze se encontram formando rizomas. Henry Miller, por natureza, foi um escritor errante a transitar entre a imanência e a transcendência, estando sempre situado entre uma ou outra das duas construções, de si e do mundo; em apenas uma única delas, ou em nenhuma delas em particular; exatamente por se situar no entremeio. Não é de estranhar que o seu ser fosse nômade por natureza e a sua vida tenha se construído de modo inteiramente cambiante – com relação a si próprio, e ao mundo, no entrejogo de forças estabelecido com o meio circundante; humano ou natural. Ou as duas coisas de uma única e só vez e num único e só tempo, não de forma linear, mas atravessado por uma linha em diagonal cruzando-a de ponta a ponta.

E, assim, ele promoveu verdadeiras descargas elétricas em seu ser e no seu pensamento, como se raios endemoniados tivessem a se abater sobre os mesmos, ocasionando curtos-circuitos constantes, em forma de jorros e mais jorros de criatividade e de lucidez. Ejetando um e outro, o seu ser e o seu pensamento, para além das formas e das fronteiras pré-estabelecidas como modos de ser e de pensar dominantes. Lançando-o e arrancando-o das trevas, mastigando os seus ossos, moendo a sua carne e rasgando o seu couro, salgando a sua carne sob sol a pino, para que ele assim pudesse, mediante a sua arte, nos ofertar o sal da vida, em forma de partículas ou moléculas, de letras e de signos, de versos sagrados e profanos; numa espécie de epifania literária dos sentidos: subversiva, sagrada e blasfema, ao mesmo tempo.

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A seguinte passagem extraída do Décimo-quarto distrito, ocasião em que Henry Miller evoca diversas das suas memórias de vida, é bastante expressiva do seu espírito nômade e do caráter louco do seu devir:

“De repente, mas sempre com terrível insistência e sempre com terrível precisão, essas lembranças intrometem-se, erguem-se como fantasmas e impregnam toda a fibra do ser da gente. Daqui por diante tudo se move em níveis cambiantes – nossos pensamentos, nossos sonhos, nossas ações, nossa vida inteira. Um paralelogramo no qual caímos de uma plataforma de nosso patíbulo para outra”.

Continuando:

Henry-Miller-Primavera-negra“Daqui por diante caminhamos divididos em miríades de fragmentos, como um inseto com uma centena de pés, uma centopéia de pés macios e ágeis que bebe na atmosfera; caminhando com filamentos sensíveis que bebem avidamente passado e futuro, e todas as coisas fundem-se em música e tristeza; caminhamos contra um mundo unido, afirmando a nossa desunião. Todas as coisas, enquanto caminhamos, dividem-se conosco em miríades de fragmentos iridescentes. A grande fragmentação da maturidade. A grande mudança. Na mocidade éramos inteiros, e o terror e a dor do mundo penetravam através de nós repetidas vezes. Não há separação nítida entre a alegria e a tristeza; elas se fundem como uma coisa só, como a nossa vida desperta se funde com sonho e sono. Levantamo-nos como um ser de manhã e à noite descemos para dentro de um oceano, afogados completamente, agarrando as estrelas e a febre do dia”.

Para muitos peritos no pensamento de Deleuze, o conteúdo de tal citação talvez exclua a obra de Henry Miller do universo do pensamento deleuziano. Por ser a referida citação, do mesmo modo que algumas outras anteriormente feitas, considerada, talvez, uma blasfêmia. Mas, mesmo para esses exegetas, acredito, não é preciso promover uma violenta torção no pensamento de Deleuze para observar que a obra de Henry Miller bem se presta a uma leitura deleuziana. Senão na integralidade daquilo que a consiste, mas, pelo menos, no que concerne a dois aspectos em particular da mesma: refiro-me a questão do devir e a questão da imanência.

Sendo a segunda das duas questões talvez mais difícil de ser aceita do que a primeira – por conta de certa preocupação por parte do autor com a questão da transcendência. O que faz com que haja quem o considere um místico. Porém, nada mais enganoso. Exceto se quisermos entender a obra de Henry Miller mediante a atribuição de um estereótipo: o qual, dentre outros, tanto poderá colocá-lo na dimensão de um místico quanto na de um sacrílego, na de um perverso (no sentido freudiano do termo) ou na de um lírico. É preciso muito mais do que isso para entender a obra de Henry Miller. Antes de tudo faz-se necessário estabelecer os termos corretos sobre os quais ela se alicerça, para além das categorizações corriqueiras frutos de preconceitos e estereótipos fáceis e banais. Caso contrário, correremos o risco de ser inautênticos diante de uma obra assombrosamente verdadeira.

Sylvio Ferreira

Professor do Departamento de Psicologia da UFPE, Sylvio Ferreira foi fisgado pela psicanálise desde muito cedo e se fragmentou numa pluralidade de interesses que o levam do cinema, passam por candomblé e jazz, e chegam ao Santa Cruz, onde é presidente do Conselho Deliberativo.

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