Cristiano Ramos - 27 de abril de 2015 às 13H 36M

João, Antonio e a literatura (parte 2/4)

III

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No começo da década de 50, o diplomata e intelectual Antônio Houaiss escreveu positivamente sobre a obra inicial de poeta quase desconhecido e ainda observado com desconfiança pela crítica literária: um tal João Cabral de Melo Neto. Do homem João, ele admitiu saber quase nada, além de que se tratava de pernambucano emigrado para o Rio de Janeiro e cujo sotaque entregava as origens e a “saudade provinciana”.  Dois anos depois, o mesmo Houaiss anunciava João Cabral como um dos mais conhecidos poetas brasileiros contemporâneos. Com mais quatro anos, sentiu-se à vontade para trata-lo como autor “da maior magnitude dentro do panorama da nossa poesia”.

Nas duas décadas seguintes (e muito especialmente nos anos 70), a recepção crítica, mesmo quando não tão entusiasta, confirmou lugar destacado de João Cabral. Além da presença garantida em quase todos os novos ou revisados tratados sobre literatura brasileira, o poeta recebeu atenção distinta e mais detida de estudiosos, como João Alexandre Barbosa, Benedito Nunes, Luiz Costa Lima e Modesto Carone, entre outros.

De lá para cá, seguiu a produção de ensaios, teses e resenhas sobre João Cabral, embora sejam textos frequentemente considerados como incrementais, que somam bibliografia e ampliam vocabulário teórico para ratificar o muito já dito. O magistrado e poeta Régis Bonvicino vai ainda mais longe (como lhe é de costume), acusa constantemente o meio literário de falta de ousadia e, partindo do caso específico de João Cabral, conclui que este ilustra bem a tese de Nelson Rodrigues, para quem – lá nos idos de 1972 – a crítica literária já se tornara “gênero morto e enterrado”. Bonvicino também está entre aqueles que consideram que as abordagens estruturalistas, “pomposas e rebarbativas”, afastaram João Cabral de Melo Neto dos leitores, ao ratificar imagem de poeta hermético, quase ilegível.

IV

Ao especular sobre razões de tais análises soarem repetitivas e desestimulantes, eu cometeria uma petição de princípio, pois tomaria como motivo da reflexão algo que não posso provar. Não sou especialista em João Cabral. E, na coluna anterior, confessei que, quando dos meus contatos iniciais com sua obra, só li um livro de teoria. Este livro, de Antonio Carlos Secchin, chamado Poesia do menos, além de não ser recente (estando estre aqueles publicados nos anos 70), passou longe de me deixar desestimulado. Pelo contrário, tornou-me dos poucos que admitem que, ainda na infância, ao invés de sonhar tornarem-se poetas ou romancistas, imaginaram-se escrevendo crítica literária.

Em 1999, Secchin publicou aquele trabalho (revisto e ampliado) em João Cabral: A poesia do menos e outros ensaios cabralinos. Desde então, esperava-se que tais estudos voltassem às prateleiras. Mas o poeta, crítico e ocupante da cadeira nº 19 da Academia Brasileira de Letras repetiu procedimento de oferecer edição onde reunido material já publicado e também trabalhos posteriores: ano passado, pela Cosac Naify, Secchin lançou João Cabral: uma fala só lâmina – indispensável àqueles interessados em pesquisar – ousadamente ou não – a obra do poeta pernambucano.

Na próxima Doppio Espresso, arriscarei paralelo entre a crítica literária produzida por Antonio Carlos Secchin e suas convicções sobre o papel da poesia e do ensino da literatura, a partir da leitura dos seus livros Memórias de um leitor de poesia e Escritos sobre poesia & ficção. Mas termino a coluna de hoje adiantando trecho dos mais sugestivos, de uma entrevista originalmente veiculada no jornal Poesia Viva. Nele, ao tratar da sua relação com a poesia, Secchin afirma que

“É necessário registrar o susto desse encontro, que nos deixa desarmados e atônitos diante da força das palavras e paradoxalmente mais armados para, através delas, enfrentarmos o áspero atrito com o mundo. O poema sabe o que o poeta ignora”.

Confira também as partes 1, 3 e 4 desta coluna Doppio Espresso!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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