Cristiano Ramos - 01 de junho de 2015 às 19H 35M

João, Antonio e a literatura (parte 3/4)

V

joaocabral_cafe10Ressalvas já foram feitas ao fato de Antonio Carlos Secchin, estudioso de João Cabral de Melo Neto, não registrar ou não citar ostensivamente outros pesquisadores da obra do poeta pernambucano. O próprio Secchin assume que seus ensaios fogem ao excesso de referências teóricas, notas de rodapé e outros procedimentos comuns aos textos acadêmicos. Isso não significa, contudo, que menospreze ou esconda as marcas que certos diálogos deixaram em seu trabalho. Logo na introdução de João Cabral: uma fala só lâmina (publicado em 2014, pela Cosac Naify), ele explica: “a bibliografia crítica não é citada dentro do livro, mas a ele comparece obliquamente: ‘de lado’”.

De qualquer modo, lá estão citados alguns dos principais comentadores de João Cabral, se considerarmos aqueles que produziram análises em período anterior ou ao mesmo tempo em que Secchin realizava suas investigações: Luiz Costa Lima, com Lira e antilira, Haroldo de Campos, com Metalinguagem, Benedito Nunes, com João Cabral de Melo Neto, José Guilherme Merquior, com A astúcia da mimese, e João Alexandre Barbosa, com A imitação da forma.

Secchin não se demora a desdobrar leituras de outros críticos, até porque, após explicitar quais horizontes teóricos desses pensadores ele tem em mente, o que lhe interessa é preencher as possíveis lacunas. Ele também já admitiu que apenas se propõe a escrever sobre um tema quando pode acrescentar algo de novo. Ou, em suas próprias palavras, “um texto crítico sobrevive nas margens do silêncio e da omissão legadas pelos discursos que o precederam”.

Bem verdade que existem pelo menos três dezenas de livros sobre João Cabral e sua obra, publicados após aqueles anos 70 e 80. Alguns deles com propostas interessantes, como no recente Imaginando João Cabral Imaginando (publicado pela Unicamp, ano passado). Nele, Cristina Henrique da Costa defende que as teorizações sobre a poesia do pernambucano têm, paradoxalmente, nublado outras análises. Fundamentalmente, ela questiona a ênfase dada à racionalidade e a pouca atenção dedicada à imaginação do poeta, e procura

“desfazer o mito do poeta objetivo e realista (que ele felizmente não foi), mostrando que houve um mal-entendido: a linguagem metapoética, que ‘define’ conceitualmente a poesia que se lê em João Cabral, é exatamente nele o processo que é preciso ultrapassar. E aliás, é para essa ultrapassagem interna e corruptora de teoria que o poeta vive apontando”.

VI

Na maioria dos casos, porém, os estudos são incrementais, terminam por ratificar ou adensar trilhas já abertas por exegetas tidos como de referência. Destes, destaca-se Antonio Carlos Secchin pela abrangência de seu estudo, pelo modo como se debruçou sobre a obra de João Cabral, bastante semelhante à ambição de José Guilherme Merquior, em seu estudo sobre Carlos Drummond de Andrade – ambos resolveram analisar todos os livros dos autores em questão, e ambos elencaram linhas de força, perceberam tendências e empregaram técnicas objetivas de análise, mas com declarada preocupação em não recair em excessivo formalismo.

Uma das diferenças é que Antonio Carlos Secchin dedica a cada livro de João Cabral um ensaio específico, partindo da análise do Primeiros Poemas (que ele trata como estágio de aprendizado, e que só foi publicado em 1990  – meio século após a estreia editorial com Pedra do sono). Secchin fecha a seção com ensaio sobre o livro Sevilha Andando. Boa parte desses textos foi veiculada já em João Cabral: a poesia do menos, de 1987. Na segunda parte do livro, seis textos que trazem sínteses e algumas novas observações sobre o legado do autor de Morte e vida Severina, A educação pela pedra e Museu de tudo.

Ao longo desses ensaios, é possível registrar diversas impressões de Secchin sobre a natureza da literatura, o fenômeno poético e o papel da crítica. Dedicar-se à obra cabralina foi também uma jornada de aprendizado e autoconhecimento. O próprio Antonio Carlos Secchin confessou, “estudei os seus textos para aprender como ele faz, magistralmente, a literatura que eu não quero fazer. Um grande poeta não costuma deixar herdeiros, e sim imitadores. Abre mil portas, mas deixa todas trancadas quando vai embora…”.

Na próxima coluna, a quarta e última parte dessas impressões sobre o diálogo entre a poesia de João Cabral e a crítica de Secchin. Até lá.

Confira também as partes 1, 2 e 4 desta coluna Doppio Espresso!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

Comentários

desenvolvido por Shamá