Cristiano Ramos - 17 de agosto de 2015 às 23H 02M

João, Antonio e a literatura (parte 4/4)

VII


joaocabral_cafe9 Em João Cabral: uma fala só lâmina, Antonio Carlos Secchin analisa a obra do escritor pernambucano, livro por livro, etapa por etapa daquele longo e diverso trajeto poético. Com o título de estreia, Pedra do Sono (publicado em 1941), por exemplo, chegam versos bem distantes daqueles que marcariam o legado cabralino, peças mais próximas do surrealismo e do onírico. Ainda assim, Secchin ressalva que, neste livro, encontram-se já algumas embrionárias reflexões sobre o processo de criação: “o poeta não se contenta em ver como o fenômeno se dá, mas intenta saber como ele se organiza”.

Em O engenheiro (de 1945), Secchin constata a persistência de um clima surreal, onírico, mas também aponta que estão mais evidentemente germinados elementos que sustentarão os futuros e mais conhecidos trabalhos do poeta. Com clareza, simplicidade e demonstrações, o crítico apresenta a jornada cabralina de desmonte dos conceitos de “sublime”, “transcendental” e “bom gosto”, a busca por uma poética sem ornamentos, sem pudores, mineralizando os espaços líricos antes tomados pelo onírico.

Realizando o brutal salto que o espaço desta coluna impõe, registramos ainda que, ao comentar sobre o livro Sevilla andando – a ponta final de uma vasta produção poética –, Secchin afirma que o pernambucano “conseguiu ‘cabralizar a poesia’, infundindo-lhe um timbre próprio, e reelaborando parâmetros com os quais a tradição nos acostumara a pensar a produção lírica brasileira”.

Mesmo que o leitor não concorde com todas as conclusões que o crítico apresenta, ele decerto sai da leitura de João Cabral: uma fala só lâmina com muito mais possibilidades de desenvolver e expressar suas próprias verdades a respeito da poesia do pernambucano.

VIII

Em um dos ensaios da segunda parte do livro, Antonio Carlos Secchin reafirma o caráter de aprendizado de sua relação com a obra de João Cabral de Melo Neto:

“Descobri nesse poeta crítico que força criadora e rigor analítico podem partilhar o mesmo solo de linguagem. Convivi com poemas que não propõem um estoque de saberes, mas o exercício de sucessivas desaprendizagens para aprender melhor aquilo de que o olhar domesticado não consegue dar conta, na travessia tormentosa para o novo”.

Para nós, testemunhas desse diálogo entre dois poetas críticos, fica também a certeza que, além de oferecer oportunas reflexões sobre as linhas de força e o desenvolvimento da obra de João Cabral, Secchin nos leva a desaprender e aprender muito sobre nossas próprias travessias (menos ou mais tormentosas) pelas marés da literatura.

Na primeira parte desses comentários sobre os ensaios que o Secchin dedicou à obra poética de João Cabral, confessei que eles foram essenciais para que, ainda menino, eu pensasse um futuro como crítico literário. Em conversa com amigo, ponderei que provavelmente falhei naquele projeto, que talvez eu tenha me tornado apenas um leitor apaixonado, e mais dedicado, e mais atento. Ao que meu amigo retrucou: e o que de mais importante se pode cobrar da crítica literária, além da paixão, da atenção e do compromisso?

Confira também as partes 1, 2 e 3 desta coluna Doppio Espresso!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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