Cristiano Ramos - 13 de abril de 2015 às 18H 23M

João, Antonio e a literatura (parte 1/4)

I

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A primeira pessoa que ouvi falar de João Cabral de Melo Neto foi uma freira, professora do colégio onde eu estudava, e de quem não recordo o nome. Lembro-me bem, no entanto, da sua frase de efeito: “ler a poesia de João Cabral é como mastigar um biscoito duro e salgado, horrível”. Então, nada mais natural que o primeiro poeta que eu tenha lido por vontade própria tenha sido o autor de O cão sem plumas e Educação pela pedra, entre outros. Poucas coisas podem ser tão convidativas para um jovem leitor do que a reprovação de sua sisuda professora.

Fui direto à biblioteca pública e pedi que a funcionária me ajudasse. Em poucos minutos, ela voltou com dois livros: Morte e vida Severina e Antologia poética. Neste último, os primeiros versos que guardei na memória:

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Ao longo desses 25 anos como leitor, poucas vezes ritmo e imagem de um poema me comoveram tanto! Anotei aquela estrofe em quase todos os cadernos e agendas que tive. E, inevitavelmente, quando comecei a sofrer com sérias crises de arritmia cardíaca, cada noite de insônia me levava de volta ao “Relógio” de João Cabral.

Mas, naquela tarde distante, a bibliotecária também me levou à mesa um livro chamado João Cabral: a poesia do menos, do poeta e crítico literário Antonio Carlos Secchin – obra que, relida umas tantas vezes, em algum momento me deixou a convicção: “É isso que desejo fazer da vida, escrever sobre literatura”!

II

Francamente emocionado, folheei o título lançado pela Cosac Naify, em 2014. Em João Cabral; uma fala só lâmina, estão reunidos textos de Secchin sobre João Cabral de Melo neto. Desta leitura, saí com nova conclusão: “Era esse tipo de crítico literário que eu desejava ser, embora não tenha conseguido”.

Crítico que não disfarça seu encantamento diante de um grande livro, que consegue tratar de questões formais sem reduzir a obra nem tornar o texto enfadonho, que não recobre sua análise com incontáveis citações, que busca acrescentar algo à fortuna do autor comentado e, sobretudo, que faz do ofício crítico um fundamental meio reflexivo, atividade privilegiada para pensar a literatura – seu lugar e possibilidades – a própria crítica literária e outros temas em redor.

Também sempre desejei diálogo (com terceiras intenções) entre os textos críticos que publiquei, com aquela mesma demanda que Secchin expôs em entrevista ao Diario do Nordeste: quando escrever uma resenha, estimar que ela tenha “um grau de reflexão que a habilite para, eventualmente, incorporar-se a uma coletânea de crítica”. Não se trata de mera questão metodológica ou de oportunidade editorial, mas sim de buscar em cada passo da jornada descobrir veredas que não se esgotem no efêmero da veiculação da resenha.

Nas próximas semanas, utilizarei esta coluna Doppio Espresso para realizar conversa sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto e os estudos de Antonio Carlos Secchin sobre a obra do poeta pernambucano – duas águas que tanto influenciaram meu destino de leitor. E novamente o próprio Secchin oferece as chaves pelas quais explicada minha decisão: “Escrevo para desaprender o que eu achava que sabia sobre aquilo que me vai sendo ensinado enquanto escrevo”.

Até a próxima!

Confira também as partes 2, 3 e 4 desta coluna Doppio Espresso!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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