Renato Lima - 30 de dezembro de 2015 às 19H 04M

Leituras e não leituras de 2015

Todo bibliófilo tem às suas mãos uma coleção de livros dos quais ainda não leu e que, intimamente, sabe que muitas dessas obras nunca serão lidas. Mas isso não o impede de continuar acumulando mais livros e mentindo para si mesmo de que um dia há de chegar onde terá tempo suficiente para ler tudo o que sempre quis.

Esse futuro mítico de abundância de tempo não existirá, mas nem por isso devemos deixar de colecionar livros e aumentar o estoque na estante (ou no leitor digital) de obras para serem lidas no futuro. Apegar-se a essa chata racionalidade de não adquirir obras porque já há outras na lista seria negar um dos valores de colecionar livros: escolher as obras que gostaríamos de ler e assim continuamente renovar tais escolhas. Somos também o que não fizemos, mas o que gostaríamos de ter feito. Os livros não lidos também revelam as razões pelas quais, em determinado momento da vida, nos interessamos por aquele título ali na estante ou nos confrontamos com ele. Tal qual o poema The Road Not Taken, de Robert Frost.

Digo isso porque nos meses de dezembro somos confrontados com listas de “livros do ano”. Tem a da The Economist,  a do Clube de Prensa, a do Tom Ashbrook e seu On Point da rádio pública de Boston, a do colega Luciano Sobral, o Drunkeynesian, entre outros. Ao ver tão interessantes seleções, sinto uma leve dor de conferir vários títulos dos quais eu nem soube ou folheei as páginas, mas logo vem o prazer de selecionar algumas das obras para leituras futuras. Sabe-se lá quando…

Mas li e não li algumas obras dignas de menção nesse 2015.

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Li o Brochadas, de Jacques Fux, livro desse matemático por graduação e doutor em literatura que ganhou em 2013 o Prêmio São Paulo de Literatura como autor revelação. Obra estranha a mim – deixo claro – mas divertidíssima, que brinca com a auto ficção e tem ecos no seu premiado Antiterapias. Não li, mas gostaria muito de ter lido o Muito Antes da Meia-Noite, de Cristiano Ramos, sua estreia no mundo da poesia. Cristiano é jornalista e crítico literário e nos conhecemos desde os bancos universitários da nossa graduação. É livro que vai pular a lista das leituras futuras para virar de consumo imediato – assim que o tiver em mãos.

Li o Tudo ou Nada, de Malu Gaspar. Belíssima reportagem sobre a ascensão e queda de Eike Batista e sobre o nosso capitalismo de compadrio. Não li, mas sei que vou gostar muito quando começar o Diários da Presidência, de FHC.

Li o Effects of IT on Enterprise Architecture, Governance, and Growth, do professor de economia da UFPE José Carlos Cavalcanti, obra que traz um apanhado da literatura mais recente sobre o tema e uma perspicaz reinterpretação de temas como governança e crescimento à luz das mudanças tecnológicas. Não li o Our Kids: The American Dream in Crisis, do simpático e eloquente professor Robert Putnam, da Harvard Kennedy School, que analisa as raízes da crescente desigualdade de oportunidades nos EUA.

Li o Amor das Sombras, nova obra de contos de Ronaldo Correia de Brito, com vários trechos impactantes. Não li – ainda! – O Senhor agora vai mudar de corpo, de Raimundo Carrero – obra tão pessoal e que tantos já exaltaram sua qualidade.

Li o RDC: Comentários ao Regime Diferenciado de Contratações – Lei 12.462/11 – uma perspectiva gerencial, de Marcelo Correia e José Antonio Pessoa Neto. Obra que parece árida pelo título, mas que traz um importante debate sobre gestão pública e de fácil entendimento. Não li o Economic Rules – The Rights and Wrongs of the Dismal Science, de Dani Rodrik, um dos economistas mais interessantes da atualidade nem (também ainda!) o Mastering metrics, de Angrist e Pirschke, quase que obrigatório para cientistas sociais que trabalham com econometria e causalidade (mas que parece não ter feito tanto sucesso quanto o Mostly Harmless Econometrics, da mesma dupla, esse sim leitura obrigatória).

Em 2015, vivi três meses no México a trabalho e descobri um país riquíssimo, de uma gente extremamente simpática. Voltei com quase uma mala de obras sobre história e política do México. Estou lendo o La Herencia, de Jorge Castañeda, que conta, através de entrevistas com ex-presidentes, o processo de escolha dos futuros mandatários mexicanos durante a ditadura do PRI. Também em leituras ativas, porém em ritmo lento, o Com Dinero y Sin Dinero, de Carlos Elizondo Mayer-Serra e o Pemex em la encrucijada, de Raul Muñoz Leos.

Há muitos outros livros que li e alguns poucos que ajudei a fazer. Um deles é o Conversas no Café – Volume II, segundo livro deste Café Colombo que tenho o prazer de ser um de seus fundadores. Também tem a obra Brazil da série Latin America in Focus, da ABC-CLIO, editada pelos professores Luciano Tosta e Eduardo Coutinho, em que eu contribuí com o capítulo sobre governo e política no Brasil – do Império ao governo Dilma. Outro par de artigos escritos em 2015 foram aceitos e devem ser publicados no ano que entra. Do meu lado escritor, só torço para estar na sua lista de leituras – serve a efetiva ou a desejada.

Renato Lima

Fundador do Café Colombo, é jornalista pela UFPE com MBA em Gestão Empresarial pelo Cedepe, Master in Latin American Studies pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e doutorando no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Trabalhou no caderno de economia do Jornal do Commercio (PE) e na BBC Brasil, em Londres.

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