Thiago Corrêa - 31 de agosto de 2015 às 11H 22M

Literatura eletrônica: inicializar

Giogio Moscati

Professor Giorgio Moscati foi nome fundamental para surgimento das artes eletrônicas no Brasil nos anos 1970

Vamos começar do início. Como este espaço será voltado para a discussão de conceitos e obras da literatura eletrônica, nada melhor do que iniciar a conversa com o começo dessa história. O que já nos leva ao primeiro impasse: a partir de quando se pode falar em literatura eletrônica? Uma tendência natural seria remeter a sua origem ao surgimento da internet, dada a projeção que a rede proporcionou às obras digitais e a abertura de novas possibilidades criativas.

Afinal, pelo menos aqui no Brasil, foi graças a ela que essa discussão apareceu com mais força. Na época, mais ou menos nos primeiros momentos dos anos 2000, os cadernos culturais reproduziam em uníssono a mesma pergunta: “blog é literatura?”. Para quem não lembra, a questão se referia ao movimento de oxigenação das editoras em recrutar autores já populares na internet e trazê-los para o meio impresso.

Dessa leva, vieram nomes como Daniel Galera, Clarah Averbuck, Daniel Pellizzari (via o Cardosonline, ou simplesmente COL); Tatiana Salem Levy, Ana Paula Maia, Carol Bensimon, Vanessa Bárbara, João Paulo Cuenca, Verônica Stigger e Paulo Scott (através do site Paralelos.org); Carola Saavedra, Andréa Del Fuego e Bruna Beber (do Escritoras Suicidas) e mais uma penca de autores publicados em coletâneas de sites coletivos como a Wunderblogs.com (Barracuda, 2004), Paralelos: 17 contos da nova literatura brasileira (Agir, 2004), Dedo de moça: uma antologia das escritoras suicidas (Terracota, 2009).

No entanto, ainda que o surgimento da internet seja um marco para o desenvolvimento da literatura eletrônica, é preciso lembrar que antes da implementação da rede já havia experimentações literárias no ambiente digital. Para se ter ideia, lá em 1959 (portanto, uma década antes do Departamento de Defesa dos Estados Unidos pensar no projeto militar que resultaria na internet), o matemático alemão Theo Lutz já realizava experiências no campo da literatura ao programar o computador Zuse Z22 para que ele recombinasse títulos de 16 capítulos de O castelo de Kafka, com base nas regras gramaticais.

Algo que o pesquisador e poeta português Pedro Barbosa retomaria em 1977, publicando em livro suas experiências de poesia generativa, ou seja, poesias criadas por combinações feitas pelo computador. Mesmo no Brasil, onde a internet só foi liberada comercialmente em 1995, também nos anos 1970 autores ligados à poesia concreta já faziam experimentações com os meios digitais através do incentivo do professor Giorgio Moscati, que dirigia o Centro de Arteônica da Unicamp na época. Experiências que se seguiram com os holopoemas na década de 1980.

No campo da prosa, as narrativas em hiperlink ganharam certa popularidade nos Estados Unidos, nos anos 1980. Como o ambiente on-line ainda não era uma realidade, o gênero foi disseminado através de disquetes e CD-ROMs. Nessa fase, as narrativas eram construídas a partir de programas desenvolvidos especificamente para isso, como o Hypercard da Macintosh e o Storyspace, que se tornaram os softwares preferidos dos principais autores da literatura eletrônica entre o fim da década de 1980 e início do anos 1990. O Storyspace, por exemplo, deu origem a narrativas como Victory garden (1991) de Stuart Moulthrop, Patchwork girl (1993) de Shelley Jackson e a pioneira afternoon, a story de 1987, escrita por Michael Joyce, também responsável pela criação do software em parceria com Jay Davi Bolter e John B. Smith.

Isso sem falar nos predecessores, que mesmo no meio impresso já vinham trabalhando conceitos que se tornariam pilares da literatura eletrônica. Mas isso já é assunto para uma próxima coluna.

Thiago Corrêa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, Thiago Corrêa é um dos fundadores do grupo Vacatussa e já foi setorista de literatura nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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