Sylvio Ferreira - 01 de outubro de 2015 às 17H 32M

Memorabilia I: Bola Preta que muito encanta

Bola Preta trabalhava como gari da Prefeitura da Cidade do Recife, empurrando uma carroça, varrendo as ruas e coletando o lixo. Todas as noites, ele podia ser visto exercendo o seu ofício no Largo de Água Fria. O seu epíteto devia-se a duas razões: a cor da sua pele, escura que nem azeviche, e ao fato de ser rechonchudo; o que fazia com que as pessoas lhe comparassem com uma bola.

Nele, o que mais chamava a atenção, em termos dos seus modos de ser, era a sua afabilidade, o sorriso largo estampado no rosto e as suas boas maneiras. O que contrastava enormemente com os modos de ser dos seus colegas de ofício. Em geral, homens rudes e pouco afeitos aos bons modos. Criaturas forjadas pela vida na execução de trabalhos brutos e na dureza dos modos de ser.

Enquanto Bola Preta, ao fazer a limpeza das calçadas, se dirigia aos transeuntes, com o propósito de ter o seu ofício facilitado, utilizando a expressão “por obséquio”, os seus colegas praticamente varriam as calçadas e, juntamente com o lixo varrido, levavam de roldão quem sobre elas estivesse a transitar.

Modos de proceder esses que, não raro, acabavam em discussão ou bate-boca. Os maus modos dos outros garis acentuavam ainda mais as boas maneiras exercitadas por Bola Preta. Em especial, se levarmos em conta que estas nem eram frutos de uma educação formal nem se originavam de uma educação doméstica que primasse por tais hábitos.

Contudo, os seus modos de ser eram tão espontâneos que mais pareciam vir de um homem de grande linhagem e estirpe, entranhadas nas brumas do tempo em que o gesto se fez símbolo de lhaneza e poliu o espírito humano. Por essa razão, quando eu o avistava limpando as ruas, costumava imaginar Bola Preta portando um manto real, segurando um cetro em sua mão e tendo sobre a cabeça uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas.

O seu nome de batismo também contribuía para atiçar a minha imaginação – Bola Preta tinha o mesmo nome de um antigo rei da Espanha. De certa feita, eu me reportei a ele sobre o assunto, e dele ouvi em resposta: “Muito me encanta saber!”.  Fiquei maravilhado. Para além da minha imaginação juvenil, a elegância do fraseado por ele utilizado era autenticamente real.

At the Ball, pintura de Leopold Schmutzler

At the Ball, pintura de Leopold Schmutzler

Não obstante, o seu modo educado e elegante de ser quase sempre era mal interpretado pela população pobre e carente do bairro: o que se dizia era que Bola Preta era viado. E o diziam em tom jocoso e depreciativo. Naquela época, na primeira metade dos anos sessenta, num subúrbio pobre da periferia da cidade, a prática dos bons modos era motivo de suspeição sobre o comportamento de um homem. Em especial, no caso de ele possuir a tez escura.

À época, ser negro e pobre era sinônimo de grosseria ou rudeza, muito dificilmente de bons modos ou de cavalheirismo. Era mais fácil aceitar um negro esbravejando e de peixeira na cintura no meio da rua do que imaginar a existência de um negro versado na arte da gentileza e da fidalguia. Ser negro e ser viado se constituíam numa espécie de contradição de princípios.

De um negro, muito mais do que de um branco, exigia-se a masculinidade absoluta. O que era uma forma de colocar o negro no reino da natureza – lugar em que o gênero de uma espécie era tido, como ainda o é, sendo expressão de um desígnio biológico de caráter imutável.

Em geral, o que as pessoas queriam era que Bola Preta se comportasse como um Taras Bulba feito de piche ou que ele fosse mais um bárbaro entre os bárbaros, levemente tingido pelo verniz da civilização. Mas ele não era apenas uma pessoa polida. Era também um homem singular.

Tal fato causava espécie e deixava as pessoas atarantadas, tanto as de seu estrato social quanto as de outro qualquer, independentemente da cor da pele. Naquele tempo, como ainda hoje acontece, as pessoas revelavam dificuldades em lidar com formas de ser e de viver consideradas socialmente assimétricas e discrepantes.

Para elas, esse era o caso de Bola Preta. Estranhavam, por exemplo, que, no carnaval, ele não dançasse frevo, dança tão caracteristicamente pernambucana, já que costumava fazer do vassourão o seu par imaginário e danava-se a dançar valsa (em praça pública, no Largo de Água Fria) como se estivesse num salão de um palácio em plena Viena do século XIX.

E ele o fazia com maestria e elegância de meter inveja. Porém, os apupos não tardavam a aparecer e vinham em forma de grito: “Sai daí, viado preto!”. O “sai daí” que gritavam não remetia para o lugar específico ou concreto onde ele se encontrava a bailar. Ou seja, a praça pública. Mas, para o lugar onde, imaginariamente, ele se colocava e que lhe era socialmente interdito: o lugar da cultura européia característica dos salões vienenses. A expressão “viado preto” somente pode ser plenamente entendida quando devidamente relacionada ao termo “sai daí”.

Fazendo ouvidos de mercador, Bola Preta continuava solenemente a valsar, em frente ao palanque oficial; especialmente montado para a celebração dos festejos de Momo. Num certo domingo de carnaval, um bebum se ofereceu para ser o seu par, mas ele, polidamente, declinou da oferta. Bola Preta era um homem consciente de si e não pretendia ser transformado em objeto de diversão popular.

Seguramente, ele não se encontrava a valsar para preencher um vazio em sua vida, mas para vivê-la intensamente; ao seu modo e de uma maneira autêntica. Na contramão dos maus modos reinantes, e dos compassos dos frevos rasgados, que ele se recusava a dançar, da discriminação e dos preconceitos vividos, de toda sorte; Bola Preta deu curso à sua vida sem mágoas ou ressentimentos.

Os maus modos alheios nunca fizeram com que o seu sorriso largo e franco estampado na face – um pouco maroto, também – desaparecesse dos seus lábios, nem que as boas maneiras que lhe eram características fossem jogadas na lata do lixo. Ele sabia que a singularidade que autenticamente se afirma não se confunde com o exercício da negação de si ou do outro, por mais que alguém seja incitado a estabelecer um confronto entre as suas verdades e as verdades alheias.

Definitivamente, Bola Preta era um homem “distinto e diferente”; como na canção-título de um disco do músico e compositor cubano Compay Segundo. Mas, algo ainda parecia lhe faltar para que ele pudesse viver em plenitude os seus diversos modos de ser no mundo: dar evasão ao seu espírito considerado feminino, até então discretamente contido ou não-sabido.

Compay Segundo: distinto e diferente, como Bola Preta

Compay Segundo: distinto e diferente, como Bola Preta

Deu-se início, então, o tempo de muda na vida de Bola Preta – e ele o enfrentou com a obstinação e a paciência de um Buda, em busca daquilo que seria a sua verdade mais profunda. Verdade, essa, que ainda não havia lhe sido revelada por ele próprio, mas, talvez, já houvesse sido intuída. Bola Preta viria a ser também um ponto fora da curva noutros aspectos da sua vida.

Da prática das boas maneiras para o exercício do flerte – tímido a princípio, e sem rodeios, posteriormente – à entrega de si para figuras masculinas; Bola Preta foi avançando pouco a pouco, lentamente, até chegar a um ponto em que explodiu para si, o mundo e a vida, de um modo que nunca lhe acontecera. Sem nunca ter perdido a elegância costumeira, ele disse, de si para si, e anunciou ao mundo, ao mesmo tempo, que ele gostava de homem.

Mas, em tendo chegado a esse ponto, ele ainda não se deu por satisfeito com relação às suas descobertas e experimentações. E continuou avançando em busca da descoberta de novas dimensões de si. Em especial, no tocante à sua sexualidade, a qual se fez luz e clareira da sua vida. Foi quando Bola Preta se deu conta de que o seu ser também poderia se expandir noutras direções que não, unicamente, as das aventuras e “pegações” sexuais de caráter ocasional e de natureza efêmera.

O que ele queria era amar e ser amado, viver conjugalmente com outro homem, manter uma relação estável. Para tanto, ele precisava ser ainda mais um ponto fora da curva do que já era. E também ainda mais ousado. À época, era inconcebível que um homem coabitasse com outro homem; ocorrendo o mesmo no que dizia respeito à coabitação entre mulheres. A força de gravidade dos valores sociais era bem maior do que a plasticidade da condição humana.

Tanto quanto os bons modos, e a singularidade nos modos de ser, ousadia era o que não lhe faltava; embora ele não fosse homem de viver de afrontas. Pelo menos, de afrontas banais. Daquelas que apenas afirmam um ser diante de outro, mas que não os eleva a outros patamares de aprendizagem e crescimento moral e espiritual – acabando por distanciar as pessoas bem mais do que em aproximá-las, ao fazerem do preconceito e da discriminação moedas impositivas de troca nas relações sociais; encapsulando desejos e arruinando vidas.

Quando o amor surgiu na vida de Bola Preta, ele não hesitou em romper com as barreiras socialmente impostas do preconceito e da discriminação sexual. Todavia, ele não o fez porque o amor o tivesse levado a tal, como uma espécie de correnteza afetiva que arrasta o ser à sua revelia. Ele assim procedeu de modo consciente e em consonância com o seu espírito livre. Sem erguer qualquer espécie de bandeira pública, Bola Preta era homem de ousar desatar os nós dos costumes e desarmar as armadilhas da vida.

Em consequência, ele se tornou o primeiro homem, segundo se sabe, que passou a coabitar com outro homem, de forma aberta e declarada, em Água Fria. Juntos, ele e o seu companheiro faziam compras no mercado, frequentavam o cinema do bairro, passeavam nos eventuais parques de diversão instalados na localidade, compareciam às quermesses promovidas pela igreja, sempre causando rebuliços.

abraço negro

Bola Preta foi o primeiro homem a coabitar com outro homem, de forma aberta e declarada, em Água Fria

Nessas ocasiões, olhares maledicentes e de condenação lhes eram lançados e comentários preconceituosos eram atirados na cara de Bola Preta. “Viado preto” era o mais frequente deles. Sempre impassível a tudo e a todos, ele afirmava o seu modo de ser no mundo sem fazer da negação de outros modos de ser a afirmação de si mesmo, da sua sexualidade.

Não era apenas o sorriso de Bola Preta que era largo, o seu espírito também. Pelo o que se sabia do temperamento do seu companheiro, pode-se dizer que ele, diferentemente de Bola Preta, se via obrigado a fazer das tripas coração para engolir a seco os olhares e os insultos, pois era homem afeito a não levar desaforo para casa e partir para a briga.

Talvez porque o companheiro de Bola Preta não fizesse da sua preferência sexual uma escolha de vida ou um modo de ser no mundo. Talvez porque confundisse o que é coragem com valentia, e se tomasse por corajoso quando simplesmente era valente. Talvez porque a sua lide houvesse sido forjada na estiva. Talvez porque lhe fosse difícil admitir certas verdades íntimas. Talvez porque…

Voltemos a Bola Preta! Ainda nos anos sessenta, ele foi o primeiro homem, publicamente, a se travestir em Água Fria. Em assim procedendo, ao viver maritalmente com outro homem e ao se travestir abertamente, estava desbravando fronteiras e fazendo história. História firmada na cotidianidade dos atos praticados, nas descobertas e escolhas feitas e nos modos de ser e vir a ser alguém distinto e diferente.

Além disso, fez história ao se comportar sempre de um modo fidalgo e elegante num subúrbio povoado por homens rudes e de mentalidade estreita; de mulheres preconceituosas e pouco versadas na prática das boas maneiras, em larga medida. Homens e mulheres que se espantavam e se escandalizavam com aqueles que não seguiam a cartilha dos costumes sexuais estabelecidos e que ousavam amar outra pessoa do mesmo gênero.

Contudo, que seja dito que, por caminhos reprováveis, a sagacidade popular talvez tenha decifrado Bola Preta antes que ele próprio viesse a fazê-lo. Pena que o tenha feito ao custo de tamanho desprezo social e humano por quem nunca fez mal a ninguém. Exceto se entendermos por mal, o fato de que Bola Preta ousou descobrir-se, ousou ser ele mesmo, tendo se tornado um ser em plena comunhão de espírito com as suas verdades mais íntimas.

No início dos anos 70, Bola Preta deu mais um impulso a sua vida. Destituído de educação formal, ele trocou o seu turno de trabalho e matriculou-se numa escola do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização) no turno da noite. Foi no Mobral que ele deu continuidade a sua educação elementar. E foi a partir dessa experiência de vida que ele descobriu o que considerou a sua vocação profissional: ser educador. Tão logo concluiu o curso regular do Mobral, ele fez do seu casebre uma escola experimental e se iniciou no ofício do ensino.

Sala de aula do Mobral: Alfabetização de jovens e adultos

Sala de aula do Mobral: Alfabetização de jovens e adultos

Dava gosto a quem o visse ensinando aulas complementares às crianças. Mas, sem deixar o seu ofício de gari, ele também logo passou a ensinar educação artística. Nessas aulas, ele ensinava as crianças a desenhar e a pintar casas, pássaros, cães, gatos, figuras humanas e o que mais lhe desse na telha. As ensinava também a tocar flauta, transversal e doce. Acordeão e gaita, idem. De certa feita, dele ouvi: “A música é a mais elevada arte do espírito”.

Na década seguinte, a sua escola improvisada no casebre em que morava prosperou e ele a transferiu para outro local no mesmo arrabalde. A demanda pela educação ofertada foi o que fez com que ele mudasse de endereço. Aceito o desafio, ele próprio deu continuidade ao seu processo de aprendizagem ao matricular-se num curso de ensino médio em pedagogia numa escola pública. No curso de pedagogia, Bola Preta entrou em contato com a paidéia grega, o “processo de educação em sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana”, segundo Habermas.

O contato travado com a cultura grega, de maneira geral, mesmo sendo incipiente, proporcionou a Bola Preta o lastro cultural que lhe faltava para que pudesse sentir, pela primeira vez, o seu ser amparado em uma filosofia moral e prática de vida, as dos gregos da antiguidade clássica, concernentes a tudo o que dizia respeito ao exercício da cidadania e a prática da justiça numa área pobre da zona norte da cidade do Recife.

Os pais, as mães, e os demais familiares das crianças sob a sua orientação educacional, foram os primeiros a desvencilharem-se do preconceito que nutriam por Bola Preta. Era com satisfação e orgulho que essas pessoas se referiam à escola onde as suas crias estudavam: Educandário Kayrós – Novos Tempos. Para além da educação simplesmente formal, as crianças aprendiam bons modos e eram introduzidas a elevadas questões morais e éticas.

Ao fundar um educandário, Bola Preta acabou fazendo escola, escola de vida. Quer pelos seus modos de ser, fidalgo, corajoso, sensível e audaz; quer pela sua prática pedagógica, livre de amarras que estagnam os fluxos da vida. Não por acaso o seu educandário se chamava Kayrós: o momento oportuno, o tempo existencial, em contraposição ao tempo linear, sequencial e cronológico.

Ou ainda, a liberdade de vir-a-ser ou o devir de cada um, em suas múltiplas formas, cujo princípio se fundamentava no moral e na justiça pautadas no respeito à prática da cidadania e na diversidade dos modos de ser singular e plural, ao mesmo tempo. Moral compromissada com os fluxos da vida, não com as estases narcísicas que a violentam e a mutilam sob diferentes formas.

O Educandário Kayrós teve vida curta, mas suficiente para impactar os costumes. De lá para cá, Água Fria não é mais a mesma. Nem o Recife, o Brasil e o mundo. Os tempos mudaram e os valores idem. Na atualidade, a união conjugal entre casais do mesmo sexo é uma conquista social, política e jurídica estabelecida em vários países do mundo, embora muitas outras conquistas ainda necessitem ser alcançadas.

Contudo, se Bola Preta não teve influência nas mudanças ocorridas no planeta; em relação às questões de ordem sexuais ou homoafetivas, ele contribuiu, de modo decisivo, para que mudanças significativas ocorressem na sua aldeia, devido aos seus modos de ser e ao educandário que fundou. Educandário livre de preconceitos e vivamente inspirado na paidéia e no sentido existencial do tempo. Tempo, este, que em saltos pula as linhas sequenciais de Cronos – e ainda as atravessa, rompendo com as estreitezas de espírito que aprisionam o ser.

O que Bola Preta fez foi romper com o lacre da garrafa e libertar o tempo. Ao fazê-lo, libertou diferentes modos de ser, ao seu modo; abrindo espaço para novas possibilidades de ser no tempo. Embora as suas ações tenham sido de caráter individual, não se pode deixar de reconhecer seu impacto sobre a comunidade. Especialmente, sobre a população mais jovem e em formação. A partir das ações expressas nos seus modos de ser, ele se tornou clareira e luz para outras pessoas acometidas de desejos semelhantes aos seus.

Por ter sido um ponto fora da curva, Bola Preta fez história e marcou época, convulsionando vidas; ao atravessar em diagonal a curva do tempo da sua existência e fazendo de si um homem livre, em sentido amplo. Nos início dos anos 80, ele faleceu em decorrência de um AVC.

Ao lembrar-me de Bola Preta, e ao pensar nos tempos atuais, fica claro para mim, como afirmou Coetzee, que a morte é o soluço do tempo. De 1965 para cá, o tempo soluçou e produziu um cataclisma em termos de mudanças de comportamento ocorridas no mundo. Em Água Fria, esse cataclisma começou com o rufar da existência de Bola Preta e atravessou o seu último suspiro.

Sylvio Ferreira

Professor do Departamento de Psicologia da UFPE, Sylvio Ferreira foi fisgado pela psicanálise desde muito cedo e se fragmentou numa pluralidade de interesses que o levam do cinema, passam por candomblé e jazz, e chegam ao Santa Cruz, onde é presidente do Conselho Deliberativo.

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