Sylvio Ferreira - 29 de outubro de 2015 às 12H 47M

Memorabilia III: As desventuras de Bita Pão-Doce

O impulso sexual que o dominava era mais poderoso do que a sua dificuldade em se locomover – ele manquitolava de uma perna em função de um derrame que sofrera, mal havia passado de meados da casa dos trinta. O derrame também limitara os movimentos do seu membro superior esquerdo, do mesmo modo que comprometera a sua fala. Em sentido estrito, mas não amplo. Embora ele quase não interagisse verbalmente com as pessoas, era de domínio público que ele se comunicava muito bem com os bichos. Com as cabras, especialmente: estas eram objeto da sua predileção sexual.

Em meados dos anos sessenta, todas as tardes, logo após a costumeira sesta, ele se dirigia para o Campo do Dezoito (situado no final da rua da Regeneração, em Água Fria), lugar onde as cabras pastavam, alheias aos desejos revoltos da carne que atiçam a gula e a tara de uma legião de homens, tanto por bichos de duas patas quanto de quatro patas, de acordo com as circunstâncias e as preferências. No mundo da zoofilia, há quem prefira bichos de pelo, outros, bichos de pena. Mas há também quem não se importe com o número de patas do bicho ou se ele é mamífero ou ovíparo.

No seu caso, que seja dito, as cabras eram bem mais do que meros objetos sexuais, frutos de um impulso de caráter urgente, a demandar satisfação imediata. Em realidade, a satisfação sexual por ele obtida se revelava bem menor em intensidade comparada ao sentimento que por elas nutria. As cabras também se constituíam em objetos da sua paixão e dos seus sonhos. Prova é que, antes de submetê-las ao domínio do seu desejo, ele flertava com elas, dando início a um jogo de sedução que podia se estender por dias a fio. Era exatamente isso o que mais parecia excitar-lhe no cortejo sexual mantido: flertar, enamorar-se e seduzir.

No intuito de atraí-las a participar do jogo da sedução, ele tinha uma estratégia infalível. Primeiramente, antes de se tornar íntimo das cabras, ele se fazia próximo das mesmas. Era quando se recostava num pé-de-pau e as ficava observando, à meia distância, enquanto inocentemente pastavam. O seu propósito era firmar uma relação de confiança. Segundo, ele nunca saía de casa para pôr em prática a sua estratégia de sedução sem antes colocar no bolso da camisa um espelho. Em seguida, passava numa pequena mercearia, vizinha ao campo, e adquiria alguns pães doces. Numa loja de miudezas, ele comprava fitas de cetim coloridas que usava para adornar as cabras, amarrando as fitas e dando um laço rebuscado em volta das suas cabeças, como assim exigia o seu ritual erótico e pagão.

Em tendo se tornado próximo e adquirido a confiança das cabras, ele então retirava do bolso o espelho, e o colocava diante daquela que havia escolhido para o colóquio sexual e amoroso – ocasião em que costumava dizer: “Veja como você é linda!”. Tal frase, repetida vezes seguidas, funcionava como uma espécie de mantra que possuía o poder mágico de hipnotizar as cabras, induzindo-as a um estado assemelhado ao da narcolepsia.

Mas o citado mantra era precedido por outro, como parte da estratégia de sedução empregada. Antes de pôr em ação a estratégia do espelho, ele recorria à outra tática – a do pão doce. Era quando os retirava dos bolsos da calça, partia-os em pedaços, e oferecia-os para as cabras, aproximando-se lentamente e a elas se dirigindo desta maneira: “Bita (palavra usada como diminutivo de cabrita), pão doce, bita!” Era raro uma cabra que não viesse comer em suas mãos, quase se desmanchando de contente a provar e a lamber o pão antes de comê-lo.

Por conta do primeiro mantra, “Bita Pão Doce” logo se tornou o seu epíteto. Quando ele passava em frente a uma roda de conversa, até as crianças de colo assim a ele se referiam. Mas ele nunca deu tratos à bola quanto ao fato. Na verdade, ele se lixava para aqueles que dele desdenhavam, considerando-o um pervertido. As cabras eram a sua paixão, a razão de ser da sua vida, o seu paraíso de quatro patas na terra, o seu oásis particular localizado num pedaço de matagal existente por detrás do areal escaldante do Campo do Dezoito.

Para ele, a passividade das cabras era tomada como expressão de consentimento da sua tara, de aceitação plena do seu jogo de sedução, a despeito do fato de que elas não dispunham do poder de escolha. Nesse contexto, de intenso calor e solidão, de lassidão e tédio, no final de uma rua onde o diabo perdeu as botas, ele se sentia um sultão e as cabras constituíam seu harém. O berro das cabras era pura música para os seus ouvidos – e era ao som do berro que ele costumava dormir e sonhar com o seu harém de quatro patas. Um harém que possuía a peculiaridade, segundo diziam, de decifrar o significado dos seus sonhos e fazê-lo ganhar no jogo do bicho. Especialmente quando acontecia de dar cabra na cabeça.

Em seus devaneios, as cabras apareciam-lhe vestidas de odaliscas – a dançar exclusivamente para ele, como se não existisse nenhum outro homem mais na face da terra. Nas proximidades das brenhas da areia escaldante do Campo do Dezoito, ele armava a sua tenda onírica, lugar onde não existia linha divisória entre os seus sonhos, devaneios, e a realidade: sendo esta tão volátil como uma miragem em meio ao deserto e tão real quanto o osso do espírito.

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Mas dentre o seu harém de quatro patas havia uma cabra que era a sua predileta: o seu andar era malemolente; o olhar insinuante; o berro mais parecia o som produzido por um bendir (uma espécie de pandeiro árabe, muito usado no Marrocos e na Argélia, não por acaso feito de couro de cabra, cuja sonoridade provoca vertigem em quem a escuta); e a sua pelagem era macia e delicada, de cores vivas e intensas, entre o preto, o marrom e o ocre.

A essa odalisca de quatro patas, ele deu o nome de Sherazade – e carnalmente com ela copulou por mais de mil e uma tardes, sob a tenda imaginária que lhe servia de linha de fuga e de abrigo. O seu desejo e paixão por essa cabra eram tamanhos que ele acabou juntando uns caraminguás e adquiriu a propriedade de Sherazade. Mas nem por isso ele perdeu o hábito de levá-la para pastar no lugar de sempre, o oásis onde dava evasão às suas fantasias sexuais e afetivas.

Entrementes, cada um dos movimentos de Sherazade passou a ser controlado com rédeas curtas. Bita Pão Doce havia se tornado um homem possessivo e ciumento, embora, aparentemente, não houvesse razão para tal, já que não se sabia da existência de alguém mais nas redondezas que tivesse preferência por cabras. Falava-se sobre alguém nas redondezas que tinha predileção por bicho de dois pés, mas não por bicho de quatro patas.

Mas, em sendo verdade que o desejo opera de maneira especular (o que leva alguns autores a afirmar que o que se deseja é sempre o desejo do outro, sendo o outro tomado como um espelho), não tardou a aparecer quem quisesse experimentar dos encantos e dos prazeres de Sherazade e de se submeter aos seus feitiços. Feitiços de cabra pidona, angulosa, e lasciva: feitiços de Circe, aquela que dispunha do poder de transformar homens em fera, segundo a mitologia grega.

Num certo dia em que Bita Pão Doce prolongou a sua sesta mais do que o de costume, os frequentadores do Campo do Dezoito flagraram um indivíduo copulando com Sherazade no meio do mato. Logo surgiu um alarido e partiram para cima dele, em defesa da honra de Bita Pão Doce. Apavorado, o intruso fugiu pelo mato adentro com receio de ser linchado, enquanto a turba gritava a plenos pulmões: “Pega o tarado, pega o tarado!”.

A partir do ocorrido, e a despeito da surpreendente solidariedade manifestada, Bita Pão Doce nunca mais foi o mesmo homem. Acometido de uma dúvida atroz, ele passou a se indagar dia e noite: Sherazade teria ou não consentido? A sua paixão havia se tornado maior do que o seu tesão costumeiro e o seu tormento interior maior do que a sua paixão pela odalisca de quatro patas. Por conta do golpe que a vida lhe reservou, ele passava o tempo todo fitando Sherazade à procura de desvendar algum possível segredo que ela escondesse por detrás do seu olhar bisonhamente dissimulado.

Em decorrência, e sem mais suportar a angústia e a decepção que o corroíam por dentro, Bita Pão Doce (num final de tarde qualquer, em que o sol começava a se transformar em espaçonaves e guerrilhas) sacrificou a sua paixão de quatro patas e, em seguida, tentou se matar. Os seus vizinhos o encontraram agonizando estirado no chão da sua casa com um rasgão no peito, feito à faca peixeira de lâmina amolada. Posteriormente, se depararam com a cabra estendida e morta na campina contígua ao Campo do Dezoito. Tudo por conta da dúvida que fustiga o espírito e molesta o juízo.

Mas, depois de prolongada depressão, em que se manteve recluso em sua casa de dois vãos, uma certeza logo acometeu Bita Pão Doce: Sherazade era coisa do passado e era hora de retomar sua vida. E, para ele, retomar a vida significava dizer “voltar a se enamorar, flertar e seduzir”. Ter uma vida sexualmente ativa, igualmente. Desta feita, porém, nada de animais de chifres, menos ainda, cabras. A libido errante de Bita Pão Doce acabou levando-o a se relacionar com várias outras espécies animais: de cães a gatos, passando por patos, perus e galinhas. Experimentou também suínos e jumentas. Por uma jumenta, de andar anguloso, ele quase se apaixonou, mais uma vez.

Contudo, a sua perdição derradeira foi por uma égua nova. Tão logo avistou a potranca pastando, ele quis cobri-la. A égua era castanha, de pelo curto e crina longa, e apresentava o que lhe pareceu ser um tique nervoso numa das patas; o que o deixou visivelmente excitado. Naquele dia, no entanto, o animal se recusou a ir para o barranco escolhido para servir de plataforma para as estripulias sexuais do seu cavalariço que manquitolava. Ele até que insistiu, mas ela relinchou firme, em protesto. Ele logo atribuiu à recusa à falta dos apetrechos habituais que usava nos rituais de sedução.

Sem abrir mão do pão doce, ele também passou a comprar farelo e melaço. A fita e o espelho foram substituídos por uma guirlanda feita de flores do campo colocada em volta do pescoço da potranca. O mantra continuou sendo o de sempre: “Veja como você é linda!”. E assim ele copulou com a égua e a ela se apegou de forma dramática. O ciúme voltou a perturbar o seu espírito e a azucrinar o seu juízo. Dia e noite, espreitava a égua cismado de que alguém pudesse molestá-la. Até dos garanhões soltos no pasto ele passou a sentir ciúme, espantando-os de qualquer aproximação com o objeto da sua paixão, com um pedaço de pau em punho.

O drama chegou ao seu ápice quando ele tentou colocar pra correr o cuidador da potranca. Nesse dia, ele foi severamente rechaçado. Fora de si, ele gritava: “Deixe a minha égua em paz! Deixe a minha égua em paz!”. E, fazendo lembrar o acontecido com Nietzsche, em Turim, agarrou-se ao pescoço da égua na tentativa de impedir quem dela quisesse se aproximar. E assim esperneou e deu coices no cuidador da sua potranca, e numa diminuta plateia que se formou em volta.

Era o triste fim de Bita Pão Doce, aquele que reinou glorioso sobre os bichos de duas e quatro patas em Água Fria. A criatura que mais amou e desejou os animais. Aquele que, talvez, mais do que ninguém, soube o que era a solidão e compreendeu a precariedade da condição humana, ou o abismo em que fomos lançados. Aquele que, ao ser conduzido para o Hospício, foi ouvido dizendo baixinho, quase sussurrando, para o reduzido grupo de pessoas que assistia ao desfecho de uma vida inusitada: “Ninguém nunca me amou!”.

Sylvio Ferreira

Professor do Departamento de Psicologia da UFPE, Sylvio Ferreira foi fisgado pela psicanálise desde muito cedo e se fragmentou numa pluralidade de interesses que o levam do cinema, passam por candomblé e jazz, e chegam ao Santa Cruz, onde é presidente do Conselho Deliberativo.

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