Renato Lima - 06 de outubro de 2015 às 09H 30M

O eleitor-leitor e as candidaturas na prateleira

Pré-candidatos republicanos em debate nos Estados Unidos: campanha começa nas livrarias

Pré-candidatos republicanos em debate nos Estados Unidos: campanha começa nas livrarias

As eleições nos Estados Unidos serão apenas no próximo ano mas o clima eleitoral já começou faz tempo. Debates na TV, anúncios com ataques a outros candidatos e cobertura quase que integral na imprensa, o período eleitoral nos Estados Unidos não é tão diferente do Brasil – ressalva feita para o maior engessamento existente no Brasil por causa das regulações do TSE. Mas há um lugar da disputa ideológica e eleitoral que é fortíssimo nos EUA e inexistente no Brasil: a campanha nas livrarias. No pacote de ser um candidato presidencial nos EUA também está o item lançar um livro biografia ou uma obra que tenha um manifesto político.

O lançamento de um livro é alavanca para ser mais conhecido do público e expandir os horizontes de uma campanha. Com um livro debaixo do braço, um político tem um gancho forte para dar entrevistas em talk-shows, cruzar o país em noites de autógrafos e participar de feiras do livro. Há ainda um canal público do Congresso americano, o C-Span, que nos finais de semana tem uma cobertura exclusiva para debater livros, a Book TVe nada mais natural do que cobrir também os lançamentos de políticos.

A publicação de uma obra é ainda uma forma de transmitir uma mensagem de forma coerente, pinçando casos pessoais como inspiradores de propostas políticas, permitindo ao público conhecer mais a fundo o candidato, o que nunca é possível em rápidas entrevistas ou anúncios de 30 segundos na TV.

AudacityofHopeBarack Obama é um dos casos mais claros de sucesso dessa estratégia. A caminhada de Obama de um desconhecido senador em primeiro mandato pelo Estado de Illinois até a Casa Branca foi facilitada pelo livro Dreams of my father, com direito a publicação até no Brasil, com o título A origem dos meus sonhos, pela Editora Gente. Essa obra foi lançada ainda em 1995 – 20 anos atrás, portanto. Quando Obama decidiu concorrer à presidência, ele lançou um novo livro, já na linha de manifesto político, o The Audacity of Hope: Thoughts on Reclaiming the American Dream. No Brasil Audácia da Esperança, pela Larousse.

Neste ano o partido republicano tem quase duas dezenas de candidatos para as primárias que vão decidir o seu representante na corrida para a Casa Branca. E o número de obras recém lançadas por republicanos na corrida é igualmente grande. O jovem senador Marco Rubio, da Flórida, é filho de imigrantes cubanos e conta em sua obra American Dreams: Restoring Economic Opportunity for Everyone sobre as dificuldades enfrentadas pela sua família, explica como ele é fruto legítimo do chamado “sonho americano”, graças às oportunidades de ascensão profissional que ele conseguiu, e ainda detalha os seus planos políticos para que os Estados Unidos retomem o posto de terra de oportunidades. Assim como Obama, esse já é o seu segundo livro, pois o primeiro foi lançado em 2013, com um enfoque mais biográfico: An American Son: A Memoir.

A empresária republicana e pré-candidata Carly Fiorina conta em seu Rising to the Challenge: My Leadership Journey as lições aprendidas no mundo de negócios, tentando vender a ideia de que está preparada para chegar à presidência dos Estados Unidos mesmo sem nunca ter ocupado um cargo político antes. Também se trata de seu segundo livro, sendo o primeiro lançado em 2006, na linha de memórias biográficas, com o título Tough Choices.

Da mesma forma, o eleitor-leitor pode conferir livros de Jeb Bush, Ben Carson, Ted Cruz, Mike Huckabee, Rand Paul, Rick Santorum, Bobby Jindall e até mesmo de Scott Walker, que já deixou a corrida presidencial após cair nas pesquisas. Além, claro, do fanfarrão Donald Trump.

Na verdade, a cultura política cultivada através de livros vai muito além do período de corrida presidencial. Praticamente todos as figuras de relevância política escrevem livros de memórias. Já é esperado que ex-presidentes escrevam biografias com reflexões sobre seus desafios políticos à frente do governo. Um deles, o nonagenário Jimmy Carter, foi tão ativo nos debates políticos internacionais que já acumula cerca de 30 títulos, sendo o mais recente o A Full Life: Reflections at 90. Assessores e ex-ministros também contribuem com suas versões do que ocorreu no dia-a-dia do governo, como os livros de memórias de Karl Rove (principal assessor de George Bush) ou David Axelrod (braço-direito de Obama), além do ex-ministro da Defesa, Robert Gates.

Tais obras são pratos cheios para historiadores e o público em geral, mas, claro, refletem a visão dos seus autores. Uma vez conversei com uma ex-alta funcionária da Casa Branca sobre o livro de memórias de Donald Rumsfeld, ministro da Defesa do governo George Bush e um dos principais articuladores da Guerra do Iraque. Ela, que admira o ex-presidente, disse não ter conseguido terminar o livro de Rumsfeld pela quantidade de mentiras que havia no seu relato. Embora tais obras políticas ou obras de políticos sejam naturalmente tendenciosas, elas cumprem uma importante função pública. Afinal, mesmo mentiras são melhores para o debate político do que o simples silêncio, porque mentiras podem ser diretamente contestadas e deixam, “on the record”, uma versão dos fatos.

A_ARTE_DA_POLITICA__A_HISTORIA_QUE_VIVINo Brasil, essa cultura ainda não possui a mesma dimensão, mas há alguns exemplos célebres. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou o valioso livro A Arte da Política – A História Que Vivi, em que relata sua visão sobre as grandes decisões tomadas ao longo dos seus oito anos de governo, incluindo as polêmicas que envolveram o processo de privatizações de estatais e a acusação de compra de votos para a emenda da reeleição. Recentemente, a ex-primeira dama Rosane Malta publicou detalhes pitorescos do período presidencial de Fernando Collor na obra Tudo o que vi e vivi, com direito até a descrição de rituais de magia negra realizados no Palácio do Planalto e na Casa da Dinda com o objetivo de influenciar os acontecimentos do mundo político. Também já resenhamos aqui no site o livro de memórias Cinquenta anos esta noite, do senador José Serra.

Sem dúvidas seria uma grande contribuição ao debate político nacional a publicação de livros de memórias de Lula e Dilma contando, por exemplo, como viveram os períodos de crise do mensalão e do petrolão, bem como as negociações para formar ministérios.

Renato Lima

Fundador do Café Colombo, é jornalista pela UFPE, mestre pela UIUC, doutor pelo MIT. Mora em Kuala Lumpur, Malásia.

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