Peron Rios - 28 de agosto de 2015 às 12H 38M

Os mares estão abertos: Fielding, autor do Quixote

Breve nota prévia

MITOLOGIA GREGA Filha da deusa da memória, Mnemosyne, Clio é musa da história e criatividade

MITOLOGIA GREGA Filha da deusa da memória, Mnemosyne, Clio é musa da história e criatividade

Antes de tudo, gostaria de convidar os leitores a seguir a coluna Grandes Navegações, esclarecendo-os sobre o que devem esperar dos textos que a irão compor. Imaginando todos nós viajantes de uma aventura de Colombo – arriscada e gratificante –, nomeio a seção com uma qualificação de teor superlativo. O que, aliás, parece entrar em rota de colisão com boa parte da crítica atual, mais afeita aos adjetivos anódinos, que não comprometem a reputação do autor. Para essa tendência contemporânea já alertava Leyla Perrone-Moisés – defensora da valoração estética – em seu Altas Literaturas.

De fato, se ler é eleger (lire, élire, no trocadilho de Valéry), a crítica no sentido de julgamento não é uma questão de preferência: ela é incontornável, “porque somos mortais, e também porque chegamos razoavelmente tarde”, lembrava o scholar e polemista Harold Bloom (O Cânone Ocidental). O que se pode ocultar ou revelar são os critérios e procedimentos que orientam nossa eleição.

Enfim, é necessário escolher. Mas por que os clássicos, aqui? E de quais clássicos estamos falando, realmente? Primeiro, é preciso que se diga o que entendo por textos clássicos: vozes sedimentadas na memória coletiva, por mais que eventualmente não reconheçamos as traqueias que as reverberaram. São “as vozes verdadeiramente marcantes [que], uma vez ouvidas, jamais deveriam ser esquecidas” (Michael Dirda, O Prazer de ler os clássicos). Em tempo: Dirda, aí, já responde à pergunta sobre a finalidade ou a pertinência do debate.

Retomando o fio definidor, poderia dizer que os clássicos, a meu ver, são aquelas obras que funcionam como pão diário, nutrindo nossa capacidade imaginativa com uma ideia corporificada, habitada por fulgurações: figurações e música verbal; alimento que, sendo circulação coletiva, pode nos devolver à completa solidão de nossas perplexidades. Ainda, e em outra chave analógica: são rios volumosos que banham de vida a geografia mental. Desafiando Clio apoiados em Mnemosyne, os clássicos negam ou negociam o assédio do tempo, “são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual”. Era o credo credibilíssimo de Italo Calvino (Por que ler os clássicos).

Palavra imperativa e preliminar, contudo: a literatura não virá aqui espartilhada por nenhum epíteto. Obras de qualquer latitude serão contempladas, se a isso nos convencer o seu quilate. Mas sem querer recair numa redundância, sublinho que darei preferência aos clássicos fora do circuito, àquelas criações mais citadas que efetivamente lidas. A ideia é convocar os espíritos entusiasmados para a troca de efervescências. E, usando a metáfora de André Malraux (L’homme précaire et la littérature), contagiar as sensibilidades ainda mornas com a febre que emanar desse convívio. O primeiro vírus vem da Inglaterra setecentista: Henry Fielding, um dos fundadores do romance moderno, estilista de seu idioma e humorista que, dentre tantas coisas mais, soube transmitir seu veneno ferino e hilariante. E espero que ele nos ameace a todos.

Fielding, autor do Quixote

Henry Fielding

Publicada em 2011 pela editora Ateliê em parceria com a Unicamp, A História das Aventuras de Joseph Andrews e seu Amigo, o Senhor Abraham Adams, de 1742, composta pelo romancista e dramaturgo britânico Henry Fielding, ganha sua primeira versão integral para as estantes brasileiras.

A obra se pauta na ideia clássica da arte enquanto instrumento de diversão e instrução, devolvendo à literatura a função aparentemente ingênua do deleite. No trivium da sensibilidade, Horácio conferia um enorme valor ao entretenimento: ut delectat. Antes de mais, sublinhamos que, se boa parte dos regalos experimentados na leitura deve-se à linguagem sempre elegante, com sintaxe refinada em vocabulário seleto, é que o talento da tradução de Roger Maioli dos Santos conseguiu verter magistralmente o vigor do original inglês. Como se não bastasse a mestria técnica da transposição para a língua vernácula, Santos ainda oferece ao público notas e uma introdução que permitem compreender a inserção da obra em seus contextos histórico e literário. O que, obviamente, possibilita à recepção contemporânea calcular o impacto da obra em sua conjuntura original.

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Em retrato por Joseph Highmore, Samuel Richardson, autor de Pamela, obra que provocou Fielding

Subdividida em quatro livros, a composição, provida de um humor cáustico e de uma ironia dissolvente, surgiu como resposta ao romance Pamela, de Samuel Richardson, que Fielding considerava moralmente artificial. Ali, a personagem homônima incorpora a figura do exemplo, que ganhará a recompensa de um matrimônio pródigo. Numa revisão de tal disposição ética, Pamela reaparece agora ao lado de seu irmão — Joseph Andrews, lacaio da apaixonada Lady Booby —, dando a ver o real interesse subjacente a sua pureza imaginada.

Entretanto, apesar de ter como nascedouro uma contenda que poderia transformar a obra em escrito de mera circunstância, o romance — fonte e pilar do gênero no século XVIII inglês — tem força estética para amparar-se com plena autonomia formal. Certo: algum crítico mais severo poderia argumentar que a obra reduz o seu valor na medida em que se observam uma relativa vulgaridade e alguns traços do gênero chanchada, em determinadas  situações romanescas. Também poderia acrescentar outras lacunas, quais a descontinuidade, a contradição entre várias sequências narrativas, ou mesmo a presença efetiva de lugares-comuns: o bem que sobressai, o amor que trilha sua vereda de sucessos em meio à penúria material.  Se tudo isso não deixa de ser verdade, inúmeras qualidades, porém, vêm servir de contraponto suficiente para que o texto siga, no transcorrer dos séculos, merecendo admiração.

Procedimento característico da época, as personagens são frequentemente avaliadas por um viés fisiognomônico, ou seja, têm seu caráter julgado a partir de seus traços físicos.  Elas apresentam enorme vivacidade e findam por conquistar, em seus sonhos mais ingênuos, em sua vilania mais chã, a simpatia do leitor. O mesmo, aliás, pode-se dizer de suas pretensões grotescas (como no vocabulário equivocado, ao modo fabiano, da Sra. Slipslop; no desespero de Lady Booby em manter as aparências; na falsa erudição do oficioso Sr. Barnabas). Além de tudo, não há como não se divertir com o inconveniente Sr. Abraham Adams, um pároco de bons sentimentos, falastrão e atrapalhado que, dotado de erudição, serve de guru ao valente e sagaz Joseph Andrews.

A sátira deletéria às divergências de classe e às práticas eclesiásticas, executada em clave irônica, dá o tom que servirá de molde aos vernáculos Machado de Assis e Eça de Queiroz. Contemporâneo de Voltaire, Fielding estabelece, nesta obra-prima, paralelos vívidos com o Candide, de 1759, criado pelo filósofo francês. Impossível não estabelecer comparações fecundas, por exemplo, entre o mentor Adams e o idealista professor Pangloss, guia intelectual na novela voltairiana (que, diga-se de passagem, também foi um recado literário: ao filósofo Leibniz e sua monadologia). A sequência de eventos — bem ao modo de suspense — e a descredibilização do leitor, verificados em Joseph Andrews, são romanescos elementos que, associados aos títulos extensos e à presença de personagens lunáticas, guardam uma herança mais antiga e evidente: o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.

Tendo, assim, por evidente matriz a escrita cervantina, o autor inglês vale-se de expedientes metalinguísticos frequentes, nos quais a construção de sua própria obra é submetida a análise. O primeiro capítulo do livro II [Das Divisões nos Autores] nos dá uma visão cristalina da técnica metanarrativa, do artifício autorreflexivo e da digressão produtiva, de que se valerá Machado, um século depois. Será igualmente de grande valia à sociologia literária considerar com atenção as observações relativas aos hábitos de leitura do século XVIII (não tão diversos, em certos aspectos, dos atuais):

“Há [no livro], além desses benefícios mais óbvios, vários outros que nossos leitores auferem desta arte de dividir, embora a maioria seja talvez misteriosa demais para ser prontamente entendida pelos não-iniciados na ciência da Autoria. Para mencionar, portanto, apenas um, que é o mais óbvio, ela impede que se arruíne a beleza de um livro pelo destacamento das folhas, método de outro modo necessário àqueles leitores que (embora leiam com grande provento e vantagem) tendem, ao regressarem ao estudo após meia hora de ausência, a esquecer onde pararam” [p. 138].

A máxima ridendo castigat mores (rindo, se castigam os costumes) é obviamente aplicada à literatura de Fielding, que não hesita, portanto, em diminuir as competências do leitor para que seus vezos possam ser retificados. Outro modo interessantíssimo de fazer valer sua pedagogia são os títulos dos capítulos, escritos bem ao modo do Quixote. Eis como figura, deliciosamente, o rótulo do capítulo nono do livro I: “O que se passou entre a dama e a Sra. Slipslop, em que haverá, profetizamos, certas pinceladas que nem todos compreenderão de fato na primeira leitura. Difícil conter um riso diante de uma pena tão mordaz, principalmente quando suas críticas não são apenas de ordem literária, mas sobretudo de extração  moral. É o que atestamos, ainda, na inscrição do capítulo doze, do livro IV:  “Em que o leitor de boa natureza verá algo que não lhe dará grande prazer”. São nossos os grifos em negrito, para ressaltar como Fielding faz, sempre, uma segregação qualitativa dos leitores.  Ao mesmo tempo, a narrativa oferece a possibilidade — como encontramos em Italo Calvino ou na escritura machadiana — de privilegiar ironicamente a ação. É o que flagramos no princípio do cap. VI,  livro IV, em que se lê:  “De que os senhores não precisam ler mais do que quiserem”.

Don-Quixote-Windmill

As relações entre Fielding e o criador de Sancho Pança, contudo, não estacam por aí. Modelo da versatilidade de registros e estilos que o gênero romanesco apresentaria — tão largamente realçada por Mikhail Bakhtin —,  Joseph Andrews guarda, em seu extenso painel, além de trechos de poemas, cartas e sermões, laivos de crítica literária, como no subjacente e irônico “Uma cena de trotes, bem de acordo com o gosto e os tempos atuais” (cap. VII) ou num dos discursos em favor do poeta Ésquilo:

“— E, com efeito — prosseguiu [Adams] —, o que Cícero diz do orador completo pode bem aplicar-se a um grande poeta: ele deve conter todas as perfeições. Homero fez isso no mais excelente grau; não é sem razão, portanto, que o filósofo, no 22o capítulo de sua Poética, o mencione por não outro cognome que o Poeta. Ele foi o pai do drama, como também da épica; não apenas da tragédia, mas também da comédia; pois seu Margites, que foi deploravelmente perdido, mantinha, diz Aristóteles, a mesma analogia com a comédia que a Odisseia e a Ilíada com a tragédia. A ele, portanto, devemos Aristófanes, como Eurípedes, Sófocles e o meu pobre Ésquilo.” (Cap. II, livro III)

Capaz de suscitar incansáveis debates após sua leitura,  a obra expõe uma redação que pode alterar o tom, desde que a situação o solicite (como se verifica na impostação homérica, em certo trecho da narrativa). Sem abrir mão de sua modernidade, Henry Fielding, ao contrário de Richardson, escreve o que poderíamos chamar de uma literatura événementielle, divergindo da linhagem romanesca mais psicológica, que terá seu máximo exemplo em Marcel Proust, no século XX. Seus perfis não são singulares, mas tipificados: “Não descrevo homens, mas modos; não um indivíduo, mas uma espécie” (p. 232).

Não se confunda, entretanto, tal postura com inanição reflexiva, uma vez que, recursivamente, o autor diminui a marcha envolvente dos eventos para tecer considerações de ordem filosófica ou moral, a seu respeito.  O capítulo XV, do livro I, nos dará disso ideia considerável: ali, o escritor discorre sobre a vaidade humana, com um domínio verbal e um rigor analítico que em nada ficam devendo a Montaigne ou à nossa prata da casa, Matias Aires.

joseph andrews - henry fieldingElaborando um narrador que não conhece completamente os fatos e os  sabe apenas por terceiros, Henry Fielding engendra um caleidoscópio de acontecimentos que se sobrepõem e se contradizem – despertando um desejo de se vislumbrar o efetivo desfecho, o que é próprio das melhores composições folhetinescas. Ocorrendo as revelações de todos os suspenses pela via da anagnórisis, de um reconhecimento por meio de sinais corporais, de cicatrizes (como na homérica Odisseia), Fielding ratifica sua dívida estrutural e qualitativa com a tradição literária, em seus mais recorrentes artifícios.

Contrariando a passividade que toda ideia de influência traz, Fielding esquiva-se a um eventual parasitismo literário e alarga seus mananciais. Joseph Andrews, sem dúvida alguma — pela inventividade, pela vitalidade criada numa forma requintada —, faz jus às pedras de toque que o precederam:  é daquelas obras que podem ser chamadas de autorais, que acrescem às terras existentes novos latifúndios e que seguirão, em largo tempo, iluminadas na memória.

Peron Rios

Doutorando em teoria literária pela Universidade de Sorbonne e professor de lingua portuguesa no Colégio de Aplicação/UFPE, Peron Rios assina a coluna mensal Grandes Navegações, onde comenta clássicos da literatura, sempre às sextas-feiras.

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