Outros autores - 27 de agosto de 2015 às 11H 55M

Redações de Enem, liberdade de Salazar

Cena do filme Trem noturno para Lisboa, de Bille August

Cena do filme Trem noturno para Lisboa, de Bille August

Conta a lenda que alguém, em algum momento recente, orientou o adolescente pernambucano a começar a redação do Enem com citação alheia e de reconhecimento público, seja do autor ou da opinião. É bom iniciar com citação, sugere o método – digo, a lenda –, e favorece a quem toma a iniciativa de incluir e de anunciar o tema, passa credibilidade.

É outra situação quando o adolescente conclui ser mais simples inventar frases para pensadores notáveis e iluminadores de como se deve agir, pensar, viver e julgar. Há mais outra, extrema, se acredita que os corretores de redação não têm mérito e conhecimento para verificar autenticidade. Duvido que parta de um professor o incentivo à invenção como justificativa moral de passar a perna nos corretores. Duvido porque seria um desserviço à educação e não cabe, assim, a educadores.

Escrever tem seus métodos, mas exige cultura. Cada autor sabe por onde deve começar ficção ou artigo. Escrever exige cultura. Do tamanho que seja possível ao autor. O Enem, a cada ano, pede mais cultura aos candidatos. Os professores de ciências da natureza e de matemática não devem gostar desse rumo, mas as ciências fazem parte da cultura, das necessidades práticas, reais e cotidianas.

Faz parte saber a história das teorias. A ONU estabeleceu 2015 como Ano Internacional da Luz e, também, do Solo e da Sustentabilidade. Todas as Nações vão levar estes temas à educação. O Brasil é fundador e membro atuante da ONU. O Enem é o programa nacional de avaliação do conhecimento dos alunos de ensino médio do Brasil. Talvez seja importante saber como os temas internacionais se inserem na cultura.

Os quatro eixos trazem questões em que ciências distintas se comunicam a partir de situações encontradas na vida cotidiana e aplicáveis à realidade. Então, se se diz ao adolescente que uma citação alheia anuncia o tema e é bom começo, e se o adolescente não tem cultura e não sabe em que mundo está, pode citar maravilhas que, destacadas do contexto, hum, sei não, sei não.

Dessas, houve uma incrível. Se vem, agora, aqui, vem para dizer qualquer coisa sobre citar quem quer que seja, simplesmente, porque citar é bom e parece dar a quem escreve uma aura de possuidor de cultura. O tema era liberdade. Há tantos textos que nos levariam a refletir sobre liberdade. Tantos filósofos de todos os tempos. Políticos, escritores… Mas o autor da redação começou com citação de Salazar sobre a liberdade.

Salazar

Antonio de Oliveira Salazar, ditador por 35 anos em Portugal

Salazar? Quem é Salazar, esse pensador? Uma visita ao Google-mestre sob o título Liberdade deve ter levado o autor à máxima «A garantia das liberdades essenciais permite ‘a tranquilidade da ordem’, que significa a paz pública». Mas quem é Salazar, esse pensador, em poucos termos, da liberdade, da ordem, da paz e da coisa pública, arrancado das páginas virtuais para guiar tema de redação-treino para o ENEM?

O autor da redação, provavelmente, foi orientado a conhecer personagens históricas e investigar contextos, livros e discursos, de onde se arrancam citações para pôr em novos ambientes iluminadores da realidade vivida. O professor, com certeza, fez um pedido: primeiro leia e, depois, cite autores que conheça e tenha orgulho de citá-los. Por alguma pressa, o autor da redação não levou em conta o pensador ou, talvez, independente de quem disse, se identificou com a promessa.

Salazar desta frase é Antônio de Oliveira Salazar, por trinta e cinco anos ditador português. A liberdade, liberdade, para ele, não valia absolutamente nada, sobretudo, a liberdade de expressão, o pensamento político – Portugal tinha um partido, apenas: o dele. Pessoas foram perseguidas, torturadas. Jornais, revistas, livros e discos sofriam censura prévia. A educação, sob controle estatal, voltava-se para exaltar valores tradicionais e resistia a outras culturas, outros povos.

A polícia secreta e o serviço de informação de Salazar foram dos mais truculentos e devastadores do Ocidente. Quem viveu aqueles tantos anos conta que Portugal tornou-se um país triste e sombrio, pobre e sem esperança, fechado para o mundo e para as transformações que ocorriam em todos os continentes.

afirmapereira-antoniotabucchiPara garotos e garotas que se interessem pelo período de Salazar à frente de Portugal há uma boa dezena de livros – e até filmes. Mais próximos, fáceis de encontrar nas livraras, sugiro o romance Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi e o filme Trem noturno para Lisboa, de Bille August.

As opções não se esgotam nestas duas indicações, mas as considero um passo interessante para entender que tranquilidade da ordem e paz pública, pelo menos no caso de Salazar, significaram não ter ninguém a pensar diferente dele, ninguém a expressar-se livremente com outra maneira de ver e de viver o mundo.

É claro que as citações ajudam a ilustrar e orientar a percepção de realidades e de ideias. Ajudam a dar norte às opiniões, especial, àquelas de quem ainda está ganhando conhecimento e precisa de tempo de vida para adquirir a sabedoria muitas vezes estampadas nas citações. Como se diz, quando há oportunidade, na História: Barba non facit philosophum – a barba não faz o filosofo –, mas Boni principii bonus finis – bons começos têm bons fins.

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