Renato Lima - 18 de novembro de 2015 às 00H 20M

Rompendo o silêncio

lima barreto

Esse Café Colombo bem que poderia ter se chamado “Café Papagaio – O seu programa de livros e ideias”. Nosso “Colombo” é uma inspiração na famosa confeitaria que reunia escritores e intelectuais na então capital do país, debatendo tanto temas quentes da política quanto estética literária. Mas havia outro ponto de reunião, sem a mesma pompa e circunstância (e elitismo), o Café Papagaio, preferido do escritor Lima Barreto.

Lima Barreto é um escritor que sempre vale a pena relembrar – e é o que fará a Bienal do Livro de Pernambuco, que ao encerrar a sua edição deste ano anunciou que em 2017 terá como um dos homenageados o escritor pré-modernista, como assim entrou no cânone literário brasileiro.

A crítica literária tende a destacar o seu Triste Fim de Policarpo Quaresma como melhor livro. Sem dúvida grande obra, como muito do que saiu da sua pena. Mas o que considero mais fidedignamente Lima Barreto, o que mais reflete o seu espírito, é o Recordações do Escrivão Isaías Caminha, seu primeiro romance. É extremamente pessoal, irônico, reflexivo, beirando, por vezes, o panfletário. Sua crítica ao jornalismo da época acabou lhe custando caro, dando-lhe como retorno o revide por meio do silêncio das principais publicações de então. Ali está Lima quase que por inteiro: a discussão do racismo, do jornalismo, da sociedade de “doutores” (bacharéis), das desigualdades sociais e de poder político, mas também a crença no poder da literatura. O começo do livro reflete a ambiguidade que norteou toda a vida de Lima: a convivência com uma elite cultural (pelo acesso aos livros e pela prática do jornalismo) com uma vida material de escassez. Vale a pena transcrever:

recordacoes-do-escrivo-isaias-caminha“A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de inteligência. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado, em começo, na minha primeira infância, estimulou-me pela obscuridade de suas exortações. Eu não tinha ainda entrado para o colégio, quando uma vez me disse: Você sabe que nasceu quando Napoleão ganhou a Batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: Quem era Napoleão? Um grande homem, um grande general… E não disse mais nada. Encostou-se à cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me sem entrar na significação de suas palavras; contudo, a entonação de voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!…

O espetáculo de saber do meu pai, realçado pela ignorância de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de criança, como um deslumbramento.

Pareceu-me então que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele seu desembaraço de linguagem, a sua capacidade de ler línguas diversas e compreendê-las, constituíam, não só uma razão de ser de felicidade, de abundância e riqueza, mas também um título para o superior respeito dos homens e para a superior consideração de toda a gente.”

Como é evidenciado na obra, conhecimento verdadeiro vale pouco em uma sociedade que valoriza títulos. De certa forma, quase todas as sociedades valorizam títulos, o que na literatura especializada de economia é considerado como o problema da sinalização: os retornos no mercado ao valor inferido a partir de determinados diplomas e certificações, mais fácil de conferir do que medir mérito diretamente. Só que no Brasil isso era levado ao extremo e adquiriu altos contornos culturais: ser doutor (na verdade, bacharel) era privilégio de alguns, e havia pouca correlação entre capacidades intelectuais (e mérito) e formação. Mas sobravam privilégios. Uso aqui o verbo no passado por achar que o Brasil mudou muito nos quase 100 anos que nos separam dos escritos de Lima Barreto. Entretanto, ler as suas obras continua sendo um espetáculo de comparação entre o passado e o presente no Brasil (particularmente na sátira Os Bruzundangas). Não precisa ir mais longe do que os anos 80 e começo dos 90 para se lembrar dos escândalos de funcionários fantasmas e múltiplos vínculos para funcionários públicos. Escrevia Lima nos Bruzundangas:

bruzundangas“Há médicos que são ao mesmo tempo clínicos do Hospital dos Indigentes, lentes da Faculdade de Medicina e inspetores dos telégrafos; há na Bruzundanga, engenheiros que são a um só tempo professores de grego no Ginásio Secundário do Estado, professores de Oboé, no Conservatório de Música, e peritos louvados e vitalícios dos escombros de incêndios.

Quando lá estive, conheci um bacharel em direito que era consultor jurídico da principal estrada de ferro pertencente ao governo, inspetor dos serviços metalúrgicos do Estado e examinador das candidatas a irmãs de caridade.

Como veem, eles exercem conjuntamente cargos bem técnicos e atinentes aos seus diplomas.”

Sua análise irônica do país pode ser sucinta e mordaz: “Na Bruzundanga não existe absolutamente força armada. Há, porém, cento e setenta e cinco generais e oitenta e sete almirantes”.

Lima é um escritor irregular e com alguns pontos menos clarividentes. Tinha horror ao futebol, criticava a música brasileira e pouco valorizava do gênero feminino. A sua leitura exige uma boa dose de contextualização – de sua vida e tragédias pessoais e do Brasil de então. Para muitos, isso é uma amostra de suas limitações. Para mim, de sua escrita tão brasileira. Ler Lima Barreto é compreender a formação do Brasil, seus problemas históricos, e de forma mais geral, os dilemas humanos. Recordar dos seus escritos e repensá-los criticamente é a maior homenagem que o escritor pode receber – e o que pediu ainda em vida. “A única crítica que me aborrece é a do silêncio”, escreveu Lima Barreto, como bem recorda Francisco de Assis Barbosa na biografia que escreveu sobre o autor.

Renato Lima

Fundador do Café Colombo, é jornalista pela UFPE, mestre pela UIUC, doutor pelo MIT. Mora em Kuala Lumpur, Malásia.

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