Cristiano Ramos - 08 de setembro de 2014 às 19H 13M

Samarone, o rigor e a poesia (parte 1/2)

I

sama_cafe3Os espaços e prazos estreitos da resenha literária – seja ela impressa ou não – aumentam o risco de recair no excesso de lugares-comuns. Pior ainda: é preciso estar sempre vigilante às falácias argumentativas típicas da informalidade, de conversas de bar. Todo resenhista comete tais equívocos, é inevitável, mas a consciência do problema pode reduzi-los.

Semana passada, Samarone Lima foi anunciado vencedor do prêmio literário Alphonsus Guimarães, da Fundação Biblioteca Nacional, com o livro O aquário desenterrado. Ele faz parte da linhagem de poetas que – com mais ou menos idiossincrasias e êxito – descende da segunda fase de Carlos Drummond de Andrade, que José Guilherme Merquior sintetizou com a poesia do eu, a poesia-sobre-a-poesia e a poesia existencial ou metafísica – realizadas pelo autor com instrumentos formais que dialogam com seu tempo, com as demandas de sua época.

Nas décadas seguintes, sustentando dicotomia redutora que resta até hoje, boa parte dos críticos e escritores colocou de um lado os devedores (talentosos ou não) dessa poesia drummondiana, e, no outro prato da balança, os herdeiros (talentosos ou não) de João Cabral de Melo Neto e dos concretistas. Das comparações resultantes, frequentemente assomam aquelas falácias argumentativas que lembram papo de boteco. Uma das mais comuns é a petição de princípio, uma conclusão firmada a partir de premissa que é dada como fato comprovado, sem sê-lo.

A petição de princípio traz sempre uma tese, afirmação que se baseia em uma premissa. Acontece que, de forma mais ou menos direta, conclusão e premissa se confundem, são circulares, e não são necessariamente verdadeiras. Aliás, quem recorre a esse tipo de falácia não costuma ter argumentos legítimos, por isso faz uso de algum juízo que já caiu no gosto dos comentadores, que se tornou clichê, mesmo sem comprovação.

No caso dos herdeiros de Drummond, qual a petição? Seus críticos costumam afirmar que, como lhes falta rigor poético, esses poetas fazem versos frouxos, descuidados. A conclusão e a premissa dizem a mesma coisa, e partem de um fato que geralmente não é comprovado: a falta de rigor.

II

Ora, como reconhecer tal falta de rigor? Ela diz respeito ao quê? Poesia sem rigor é aquela feita sem métrica, sem basear o ritmo em sílabas poéticas? O rigor diz respeito às figuras de linguagem, ou seria questão temática? O rigor está no ethos sugerido pelo texto? O que é, afinal, uma poesia rigorosa, de acordo com os parâmetros de um resenhista, crítico ou escritor contemporâneo?

Na petição de princípio citada, a conclusão entrega parte da explicação: falta rigor e, por isso, os textos são frouxos e descuidados. O rigor está ligado, portanto, à falta de zelo, a um modo menos reflexivo e laborioso, ao poeta que não se dedica tanto à feitura do verso. Mas como se pode concluir que esses textos foram realizados assim, de maneira frouxa e descuidada? As provas são apresentadas? Raramente.

Quer deixar um crítico ou resenhista confuso ou constrangido? Quando ele disser que algum poeta ou prosador faz literatura pouco rigorosa, pergunte qual o conceito utilizado, quais os instrumentos de verificação e quais os trechos das obras que denunciam essa falta de rigor.

Ressaltemos: a petição de princípio não é baseada numa premissa obrigatoriamente falsa. Alguns desses herdeiros de Drummond, por exemplo, podem mesmo não fazer justiça à fonte que lhes inspira, sucumbindo às tentações do descuido. É preciso, no entanto, estabelecer o conceito de rigor e provar que ele não cabe ao poeta em questão.

Uma visão mais prudente de rigor talvez seja aquela que indaga se o escritor conseguiu cumprir a proposta poética que ele mesmo lançou ao leitor, através dos seus textos. Samarone, por exemplo, quais temas e opções formais ele nos apresenta com seu livro O aquário desenterrado, publicado pela editora Confraria do Vento e vencedor do prêmio da Fundação Biblioteca Nacional? As peças e movimentos realizados nos satisfazem, ou deixam impressão (ainda que não comprovada) de que o poeta desejava um projeto literário que não se realizou?

Na continuação desta coluna Doppio Espresso, trataremos rigorosamente do livro de poesias de Samarone Lima.

Confira também a segunda parte desta coluna Doppio Espresso!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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