Cristiano Ramos - 02 de fevereiro de 2015 às 00H 43M

Sobre Everardo, uma crônica e dois convites tardios (parte 1/3)

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Prêmios literários podem ter diversas funções para o candidato: desapegar-se daqueles originais que continuavam protegidos na gaveta, conseguir acesso ao mercado editorial, alimentar vaidade, ganhar algum dinheiro… Existem também casos como o de Everardo Norões, que conquistou o Prêmio Portugal Telecom de 2014, na categoria contos, com o livro Entre moscas (Confraria do Vento, 2013). Casos que podem ser quase tão significativos para quem os comenta como para quem os protagoniza. Um escritor maduro, com diversos títulos publicados, vence concurso, e o resultado se torna constrangedor para maioria dos críticos e resenhistas – porque desconheciam a obra do mesmo, ou pior: porque tinham conhecimento, mas a negligenciavam.

Apesar de considerá-lo bem escrito, não gosto do premiado livro de contos de Everardo. Talvez, a culpa seja do poeta Everardo Norões, que está entre os meus contemporâneos prediletos. Ao sabê-lo vencedor do Portugal Telecom, a primeira coisa que me veio à mente foi: “O melhor de tudo é que, agora, seus trabalhos poéticos – publicados ou futuros – receberão a atenção devida”. Mas, imediatamente, pensei constrangido: “Ora, por que eu mesmo não me esforçara mais para divulgar essa poesia que digo apreciar tanto?”.

Eu poderia acusar a timidez de Everardo, algo que provavelmente atrapalha a visibilidade de sua obra. Como amigo próximo e possuidor dos seus livros, essa desculpa decerto sairia esfarrapada. Talvez soasse bem argumentar que a erudição e o rigor crítico do leitor Everardo me intimidam, mas seria uma mentira terrível, porque nossas conversas (repletas de autores e livros que ele cita e dos quais tenho nenhum conhecimento) são sempre agradáveis e instigantes. Everardo é desses sujeitos cujo conhecimento e perspicácia nos chegam naturais, convidativos, traços de um autor acostumado às diferenças, a lidar com opiniões divergentes, sabedor de que as considerações que o escritor recebe costumam ser legítimas e potencialmente enriquecedoras – ainda que carreguem pouca ou nenhuma semelhança com os juízos que ele próprio tem sobre seus textos.

II

Fui colega de pós-graduação de Everardo Norões. Provavelmente, todas as leituras realizadas pelos demais alunos sequer se aproximavam da bagagem daquele intelectual cearense, nascido no Crato e radicado no Recife, mas que vivera no exílio durante o período ditatorial, conhecera diversas culturas, dominava vários idiomas e se mostrava um leitor incansável e sempre disposto a se surpreender. Foi só então, há uns seis anos, que conheci sua obra poética. Uma poesia que, junto com a do saudoso Daniel Lima, deixou-me imediata sensação de responsabilidade, de que precisava utilizar os meios ao meu alcance para reverberá-la. E, assim como no caso de Daniel, não o fiz.

Enquanto planejava este texto, lembrei-me de outro saudoso, o crítico literário Luiz Carlos Monteiro. Certa vez, ele me disse que lamentava não ter comentado o trabalho de alguns autores que sempre admirou. Perguntei o que impedia de fazê-lo, até porque ele ainda mantinha um blog de resenhas literárias. E Luiz Carlos respondeu: “Seria negócio despropositado; quando adiamos demais uma crítica literária, ela vai estragando no galho. Melhor definhar ali do que causar indigestão nos leitores”.

Nas próximas duas semanas, mesmo sob risco de veicular colunas indigestas, comprometidas porque tardias, dedicarei o espaço Doppio Espresso a comentar a poesia de Everardo Norões – sobretudo os títulos publicados pela 7 letras: A rua do padre inglês (2006), Retábulo de Jerônimo Bosch (2008) e Poeiras na réstia (2010). Livros onde Everardo encontrou dicção e propostas poéticas dignas da erudição e do indiscutível talento que já carregava.

Esta crônica inicial, porém, encerrarei com os versos de Sertão, publicados em Poemas, livro de 1999:

As nuvens são baixas,
mas alto é o céu.
O que parece passar,
permanece.

O verde, no cinza
se descobre.
A luz,
da escuridão se tece.

O verbo afia,
a faca desafia:
no oculto de mim,
tudo é Sertão.

Confira também as partes 2 e 3 desta coluna Doppio Espresso!

Cristiano Ramos

Cristiano Ramos é professor, escritor, crítico literário e jornalista, doutorando em Teoria e História Literária (Unicamp). Publicou o livro de poesias Muito Antes da Meia-Noite (Confraria do Vento, 2015). A coluna Doppio Espresso é veiculada originalmente no Café Colombo, programa de rádio que vai ao ar aos domingos, na Rádio Universitária (Recife, 99,9 FM).

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