Outros autores - 22 de março de 2017 às 12H 40M

A crítica literária nos jornais do Recife hoje

Uma época de crise ou de pluralismo crítico?

Por Thiago Corrêa

Não raro o processo da passagem do tempo tende a dourar o passado, lançando um olhar nostálgico para épocas que não chegamos a conhecer, tornando o presente uma prova da nossa evolução às avessas. Ao ler sobre a história da crítica literária no Brasil — com os antigos espaços de rodapé nos jornais, a grande repercussão dos ensaios e artigos críticos, as polêmicas e os nomes de figuras como Otto Maria Carpeaux e Álvaro Lins — a impressão que dá é a de que chegamos no fim da festa (ou pelo menos parece que a música que está tocando é outra…). Para falar desse cenário, convidamos quatro jornalistas, que trabalham na cobertura de temas literários em seus respectivos veículos, para falar sobre como anda a prática da crítica nos principais jornais do Recife. O ponto de partida para os depoimentos publicados adiante foram as seguintes perguntas: 1. O jornal ainda é um lugar propício para o exercício da crítica literária? 2. Quais as vantagens e dificuldades que você encontra em exercer a crítica literária no veículo em que você trabalha?

 

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HUGO VIANA,
Folha de Pernambuco

“Costumam dizer que a crítica literária nos jornais está em crise, decadente. Não sei. É verdade que num passado recente tínhamos críticos cujo veredito era não apenas respeitado, mas também influente na trajetória de um livro no mercado. Hoje a crítica nos jornais tem uma natureza mais indicativa, avisando lançamentos e noticiando novos autores, do que propriamente analítica. O mercado editorial meio que desenvolveu seu próprio sistema de difusão, reduzindo o impacto de críticas negativas no número de vendas. Talvez esse tipo de crítica seja reflexo de problemas graves do Brasil: a educação frágil, o número gradualmente menor leitores; a própria formação bastante fraca desses leitores. Ainda assim, é possível aproveitar bem o pouco espaço que há nas páginas de cultura de periódicos com entrevistas, resenhas, pesquisa e investigação de técnicas, estilos e políticas de leitura. O grande número de exemplares de jornais, que podem chegar a leitores de perfis muito diferentes, oferece uma ótima oportunidade para afetar essa realidade.”

 

3

FELLIPE TORRES,
Diario de Pernambuco

“O conceito de crítica literária é elástico. Varia de acordo com a época, com o ambiente (ver universo acadêmico), com as convicções teóricas. No jornal impresso, textos críticos perdem espaço há décadas. Hoje, a presença deles difere de um veículo para outro: há críticas minúsculas, volumosos suplementos literários, resenhas apenas informativas… A meu ver, com o avançar dos processos comunicativos, jornais se tornaram propícios para tratar a literatura de maneira abrangente, contextualizada, ou até sintonizada com o cotidiano. Não cabem juízos de valor e análises teóricas (para isso, há outros espaços). Cada repórter (não necessariamente um crítico) tem filtro próprio e age a partir da observação do mercado e da relação afetiva/intelectual com os livros. No Diario de Pernambuco, a literatura é quase sempre ponto de partida para pautas amplas. De um lado, é gratificante entregar ao leitor reportagens capazes de despertar curiosidade e ensejar reflexões, sem exibir erudição ou entrar muito no mérito das obras. Do outro, quase diariamente há uma ânsia para criticar/resenhar/recomendar leituras excepcionais. Mas é o desejo do bibliófilo, não do jornalista.”

 

2

DIOGO GUEDES,
Jornal do Commercio

“O jornal ainda é um lugar propício para a crítica para quem está disposto a se misturar, de alguma forma. O pensamento jornalístico médio — falo especificamente do jornalismo diário — tende a afastar cada vez mais esses exercícios do cotidiano, transformando o que poderiam ser críticas em resenhas curtas, entrevistas, ideias para reportagens. O que se imagina é que o leitor médio (essa invenção tão irreal e perigosa) não tem interesse e nem tempo para o formato. De todo modo, acho que o desafio é forçar a tentativa de expor reflexões sobre os livros e a literatura, no que a velocidade e a brevidade do espaço permitem – não só nas resenhas, mas nas entrevistas e reportagens. Refletir sem se distanciar de um diálogo com o leitor é um problema não só para o jornalismo (que peca, em geral, na reflexão), como também para a crítica acadêmica (que peca, em geral, na dificuldade de acesso, seja na linguagem, seja na circulação). Acho que o caminho é tirar dos livros aquilo que os torna importantes – o que eles falam sobre a vida, a arte, a sociedade e o humano – e tentar levá-los para as pessoas que possam se interessar por eles.”

 

1

SCHNEIDER CARPEGGIANI,
Suplemento Pernambuco

“A questão não é o lugar, mas a crítica. Ou melhor: a falta dela. Há décadas que o tema ‘decadência da crítica’ é colocado em discussão, e é invariavelmente repetido com os mesmos argumentos, ano após ano. Quando a bolha do jornalismo impresso estourou, na virada do milênio, com a competição da internet, em todas as redações só se falava uma coisa: ‘o leitor não tem mais tempo, precisamos informar, essa é a nossa função’. Desde Olavo Bilac que se fala que o leitor não tem mais tempo. Esse pensamento tacanho não entendia que informação não é só ‘o que, quando, onde’ (a pirâmide básica do jornalismo), mas ideia. Ideia é informação. Como esse pensamento ganhou força e continua forte, o que restava de crítica foi varrido. Se você entrar numa redação de jornal, novos ou velhos profissionais, não importa: todos são reticentes na hora de opinar. Já ouvi a expressão: ‘Vou fazer uma crítica sem juízo de valor…’. Onde nós estamos: escrever até um ‘oi’ inclui juízo de valor. Há quem diga: a crítica mudou o seu lugar, ela está hoje em blogs, nas redes sociais… Sim, está e não está. Mas estou falando de crítica especializada, daquela que entra numa luta de braço com a obra. Não dessa crítica que acha que um like é uma opinião. Gostar e não gostar são ações de manada. Crítica é problema, é desconstrução, é informação. Talvez antes de resolvermos a questão do lugar da crítica, tenhamos de resolver nossa relação e nossa decisão de exercer a crítica.”

Originalmente publicado na primeira edição da Revista Café Colombo.

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