Outros autores - 22 de dezembro de 2015 às 22H 38M

A noite do tambor silenciado

nação zumbi

Por Rosano Freire

Foi veiculada esta semana na imprensa a noticia de que Gilmar Bola Oito, antigo membro da Nação Zumbi, foi tirado da banda. A informação, é claro, repercutiu no cenário cultural pernambucano e foi recebida com espanto por parte significativa do público. Bola Oito foi um dos fundadores do “Chico Science & Nação Zumbi”, no nem tão remoto fim dos anos 1980. Isso parecia lhe conceder um lugar cativo no grupo.

Outras informações trazidas por Gilmar contribuíram para o espanto geral. O músico estaria recebendo tratamento desigual perante os outros integrantes. Inclusive financeiramente. Tanto que o seu afastamento teria sido decretado por meio de uma reunião da qual ele não participou. E o próprio resultado da reunião não lhe teria sido comunicado por nenhum de seus ex-companheiros, mas pela empresária da banda, Ana Almeida.

Se é inegável que houve surpresa, não se pode dizer que ela foi absoluta. No máximo, relativa. Isso porque Bola Oito já manifestava seu descontentamento com a perda de protagonismo e de prestígio dentro do grupo, como é o caso desta entrevista ao Jornal do Commercio concedida em agosto, o que dá indícios de um desgaste que se acumulava há tempos. De qualquer forma, no momento em que seu desligamento é divulgado, e nas circunstâncias particulares em que isso ocorreu, a pergunta que emerge é: o que ocasionou a saída de Gilmar Bola Oito?

Bem se sabe que as questões internas e o relacionamento interpessoal têm uma força enorme na desunião de um grupo musical, o que pode culminar em saída de integrantes ou até mesmo no fim do próprio grupo. Mas o caminho que quero delinear aqui é um pouco distinto. Mais do que saber um motivo imediato que teria catalisado o afastamento de Bola Oito, o que interessa é entender o que teria possibilitado a sua saída.

Não é mistério para ninguém o processo de formação da banda Chico Science & Nação Zumbi. Chico Science, vocalista do grupo Loustal, conhece o conjunto percussivo Lamento Negro, que lhe foi apresentado por Gilmar Bola Oito. Ao entrar em contato com o Lamento Negro, parece ficar claro para Chico Science o seu projeto musical: a mistura entre elementos regionais tradicionais e a cultura pop urbana lhe soava uma combinação perfeita. Advém daí o epíteto de “alquimista dos ritmos” que Chico carrega até hoje.

Chico Science: liderança musical unia as duas vertentes da banda

Chico Science: sua liderança unia as duas vertentes estéticas da Nação Zumbi

O ponto importante é que a denominação que o diferencia no cenário da música brasileira também serve para definir o papel que ele desempenhava dentro da banda: era Chico quem punha em amálgama perfeito as aspirações dos meninos mais afinados com o rock de garagem (Dengue e Lúcio Maia) e o pessoal mais ligado à música regional (Bola Oito e Gira). Com a morte de Chico e o advento da liderança interna de Jorge Du Peixe, o primeiro projeto é que parece ganhar mais espaço em detrimento do segundo.

É claro que a morte de Chico, o líder nato, afetaria os rumos sonoros da banda de maneira definitiva. O próprio Dengue reconhece isto em entrevista. Mas sem o alquimista já não seria possível equalizar de maneira satisfatória os dois projetos sonoros que estão na gênese da banda. O centro gravitacional do grupo então passa a ser o quarteto Du Peixe, Pupilo, Lúcio e Dengue.

O projeto destes quatro parece querer conferir à banda uma identidade mais de rock, com forte influência do dub e largo uso de feitos sonoros de música eletrônica. A pecha de “banda de maracatu” que o conjunto conseguiu dos críticos menos sofisticados parecia incomodar os referidos membros, e era disto que eles queriam se distanciar, além de haver a clara necessidade de sair da sombra de Chico Science e se acomodar ao estilo mais cadenciado do vocal de Du Peixe. Este desejo foi manifestado pelo grupo em muitos momentos, como nesta entrevista.

Vocais de Jorge Du Peixe diminuíram o protagonismo das alfaias de Bola Oito

Vocais de Jorge Du Peixe diminuíram o protagonismo das alfaias de Bola Oito

Não que as alfaias – instrumento de Gilmar Bola Oito – estivessem fora da sonoridade da banda, mas elas tiveram seu papel subsumido ao projeto rock do grupo. Isto é, as alfaias deixaram de ter autonomia para reivindicar uma sonoridade regional, salvo em raríssimas exceções, como em Quando a Maré Encher e em Meu Maracatu Pesa uma Tonelada. Sendo assim, foi sendo paulatinamente construído o programa de uma sonoridade mais “seca”, onde os instrumentos e elementos regionais estavam, de certo modo, “esterilizados”.

O Rádio Samba, de 2000, é marcado pela forte sonoridade eletrônica, mas a versão da música de Fábio Trummer saciou o desejo dos fãs por algo mais frenético. O primeiro álbum homônimo da banda Nação Zumbi, de 2002, consegue agradar por conter músicas mais simples, leves e ao mesmo tempo mais rápidas – é o disco dos hinos da fase pós-Chico, como Propaganda e Blunt Of Judah. O projeto rock, no entanto, parece alcançar forma, de fato, no monocromático Futura, álbum de 2005. Neste, é possível perceber músicas lineares, sem muitas alterações de ritmo, ao mesmo tempo em que as alfaias estão bem tímidas, acompanhando tenazmente a bateria de Pupilo. O disco não caiu nas graças nem do público e nem da crítica, apesar de um modesto reconhecimento tardio ter ocorrido.

O efeito Futura fez com que a banda se concentrasse no Fome de Tudo (2007). O grupo sai do preto e branco ao multicor, visual e sonoramente. Fome de Tudo não é, nem de longe, pop e acessível, como definiu Jorge Du Peixe na ânsia de dar um novo contorno à banda. Mas ele é, sem dúvida, um disco mais trabalhado, com muitas variações de ritmo e plasticamente melódico. Talvez o ponto alto da fase pós-Chico.

Depois disso o grupo entra num hiato de produções que só se encerraria ano passado, 2014, com o lançamento do segundo álbum homônimo. Talvez o título da primeira música, Cicatriz, defina bem o que é esse trabalho: algo vitorioso, a cesura que costurou o despertar da banda depois de anos de ausência dos palcos; e algo ressacado, como se a força e o vigor ainda não estivessem plenamente re-estabelecidos. Este também parece ser um disco em que a banda quer se imiscuir no grosso das produções locais dos últimos anos, trazendo uma sonoridade muito semelhante a dos trabalhos solos de Otto (Certas Manhã Acordei de Sonhos Intraquilos, 2009) e Lirinha (Lira, 2012), ambos produzidos por Pupilo. As alfaias, mais uma vez, retraídas em sua pujança.

Portanto, o protesto público de Gilmar Bola Oito, há quatro meses, pela perda de força nas decisões da banda (o que dá notícias de um crescente escanteamento) e, agora, a denúncia de que teria sido expulso (além do claro descontentamento com o modo como isso se deu), podem ser entendidos à luz do caminho estético que a Nação Zumbi trilhou após a inesperada morte de Chico. Assim, o Bola Oito descolado ou anacrônico é fruto do enfraquecimento de um projeto musical, outrora vigoroso, que conferia espaço singular à sonoridade regional. Uma vez que o projeto perde protagonismo sonoro, o músico que o representa já não é mais tão necessário. Seria esta a lógica por trás da saída de Gilmar Bola Oito?

Rosano Freire é doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

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