Outros autores - 11 de maio de 2017 às 16H 55M

Boicote ao Cine PE revela cineastas que não se importam com cinema

Josias Teófilo com o filósofo Olavo de Carvalho e sua esposa, Roxane

Josias Teófilo com o filósofo Olavo de Carvalho e sua esposa, Roxane

Por Guilherme Assis

Alguns cineastas brasileiros removeram seus filmes da 21ª edição do Cine PE, no Recife. Depois desse bafafá, em função da necessidade de repôr o espaço na programação, a Curadoria anunciou que o festival será adiado para data ainda não decidida.

Muita gente falou sobre o assunto, mas parece que o consenso é que os filmes foram removidos “em protesto”, porque o festival ousou programar também filmes “de direita”, algo que seria “partidário” e “ideológico”, consonante com o “golpe de estado” no Brasil, etc. O filme “criminoso” aí é, principalmente, O Jardim das Aflições, documentário do Josias Teófilo sobre Olavo de Carvalho.

Antes de tudo, um comentário pragmático: se essas pessoas odeiam o Josias, o Olavo e o filme, e acham a obra perigosa, danosa, malvada, etc, e acreditam que não deveria ser exibida, que ninguém devia assistir, elas são muito burras. A atitude que elas tomaram serve obviamente para despertar mais interesse sobre o filme. Na tentativa de silenciar e censurar, o filme adquire (mais ainda) uma aura de “perigoso”, de “rebelde”, além de ganhar bastante mídia em reportagens sobre o assunto. Gente que nunca iria ao Cine PE e nem assiste documentários ficou sabendo sobre o filme por causa da ação desse pessoal.

Fora isso, me deprime intensamente essa situação. Os citados cineastas nem mesmo assistiram o filme, então não sabem se ele é um elogio de Olavo de Carvalho, se o filme discute política, se tem algo a ver com “o golpe”. Tudo que eles sabem é que 1. Josias é um inimigo, pois de direita e 2. Olavo é inimigo também, pois de direita. A partir disso, eles decidiram que é inaceitável participar de um festival no qual esse filme seja exibido.

Me deprime principalmente a falta de imaginação, de sensibilidade dessas pessoas. Elas parecem acreditar que um filme sobre alguém é por definição uma defesa e elogio dessa pessoa. A possibilidade de que um documentário analise, explore, pense, reflita sobre uma figura complexa escapa totalmente aos cineastas, que acreditam que representação é igual a endosso, que um objeto na tela é idêntico à sua existência “real”. Só isso já me deixa triste quanto ao tipo de filme que essas pessoas podem produzir – se é assim que enxergam as obras dos outros, como serão aquelas que vão realizar? Imagino que seguirão a imagem projetada: propaganda, maniqueísmo, politicagem.

Mais: o discurso desencontrado sobre o boicote deu alguns sussurros dizendo que, na verdade, o problema é o dono do festival, que trabalhou no governo golpista e seria uma pessoa suspeita. Curioso, porém, que esse mesmo cara, Alfredo Bertini, é o responsável pelo festival há anos, e as pessoas se inscreveram mesmo assim. Em outras palavras, me parece haver uma covardia grotesca: as pessoas se submetem numa boa a um “golpista” quando romper significa perder contatos importantes; mas é tranquilo e confortável ostracizar a obra de outro cineasta, iniciante, com muito menos poder. Repito: isso é covardia, não tem outro nome. Coisa de gente pequena.

Por fim, o mais triste é a conclusão que tiramos sobre essas pessoas: são cineastas que se importam mais em silenciar o filme dos outros do que em exibir os seus próprios. Qual o apreço pela arte de um artista que resolve que calar um “rival” (cuja obra você nem conhece, mas odeia por política!) é mais importante do que fazer com que a sua obra chegue ao público? Qual vai ser a proporção entre politicagem x preocupação estética nos filmes de pessoas assim?

Eu nem vou entrar na discussão político-pragmática, não vou refletir sobre o quão perdida está a nossa esquerda se a reação de cineastas “contra o golpe” à presença de um intruso “direitista” em seu meio é fugir do debate e esconder suas obras em vez de discutir e disputar. Convenhamos: a própria presença de tantos cineastas “contra o golpe” dispostos a tal boicote no festival já demonstra que se tratava de um espaço de política ampla, não só direitista nem só progressista – um espaço plural. Mas não vou focar em nada disso. A minha tristeza é só uma: os nossos cineastas não gostam de arte, não se preocupam com arte, não querem fazer arte. E eu, que gosto de filme, fico bem deprimido com isso.

Guilherme Assis é formado em audiovisual pela USP, professor, escritor e eternamente alegre no seu pessimismo.

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