Outros autores - 15 de agosto de 2015 às 20H 33M

Cinema: Crise da crítica ou do público?

Cinema

Arte: Daaniel Araújo

Profissionais da cadeia produtiva do cinema discutem a atual situação da análise cinematográfica, que, paralelamente aos problemas que enfrenta na mídia tradicional, ascende na internet, principalmente de forma amadora, superficial e fugaz

Por Débora Nascimento

Em meio ao burburinho sobre o lançamento de um tal de cinematógrafo, algumas dezenas de curiosos resolveram comparecer ao salão do Grand Café, no centro de Paris, para ver de perto como funcionava a engenhoca e assistir a dez curtíssimos registros imagéticos feitos pelos inventores, os irmãos Auguste e Louis Lumière. Diz a lenda que, ao ser exibido A chegada do trem na estação, a plateia saiu do lugar às pressas, não por conta da qualidade artística da obra, mas devido ao medo de que a locomotiva da película invadisse o ambiente. Não é difícil crer que isso realmente tenha acontecido ou que, pelo menos, a imagem em movimento do veículo na “direção” do público tenha assustado alguns dos presentes. Afinal, apenas dois meses antes, em outubro de 1895, havia ocorrido o legendário acidente da estação de Montparnasse, cujo trem descontrolado despencou do primeiro andar e tombou na rua. Sem saber, aqueles franceses, fascinados ou amedrontados, formaram a primeira leva de espectadores do que seria conhecido como cinema, e, certamente, se dispusessem de smartphones, postariam suas opiniões sobre as imagens projetadas. A curto prazo, o sucesso da empreitada dos Lumière fatalmente teria sido, então, medido pelo teor desse boca-a-boca virtual.

Hoje, exatos cento e vinte anos depois daquele que seria o marco para o surgimento de uma nova forma de arte, os rumores das plateias de cinema na internet, principalmente nas redes sociais, integram um terreno bastante instável para uma função primordial que despontou na reverberação do invento dos Lumière: a crítica cinematográfica. A crise em torno da profissão, que não é recente, diga-se, já virou assunto de debates, palestras, matérias jornalísticas, posts em blogs, artigos, dissertações, teses e, claro, de discussões nas redes sociais.

Contrariado com as críticas apressadas que pululam na web, o cineasta David Cronenberg afirmou, no começo deste ano: “As redes sociais estão matando o papel do crítico”. O diretor fez um resumo apocalíptico da situação à agência The Canadian Press: “Se você vai para o Rotten Tomatoes, tem os críticos e então os ‘Top Critics’, e o que isso realmente significa é que há críticos legítimos que efetivamente conquistaram sua posição através de trabalho duro e estão em um site legítimo, conectado talvez a um jornal ou não. Depois, há todas estas outras pessoas que se dizem críticos e você lê o que escrevem e não sabem escrever, ou escrevem bem e sua escrita revela que são muito estúpidas e ignorantes. Emergem algumas vozes que são realmente boas, que nunca teriam surgido antes, e este é o lado positivo da coisa. Mas acho que isso diluiu os críticos de fato”.

Na mesma matéria, o crítico canadense Richard Crouse considerou que as “reações imediatas” postadas no Twitter e Facebook estão ofuscando as dos profissionais: “Há tanto barulho lá fora, agora, em termos de quantidade de palavras que são escritas sobre filmes, ao contrário de 30, 40 anos atrás, quando havia um punhado de pessoas com as quais você poderia construir um relacionamento de confiança. Mesmo se discordou deles, você os lia e aceitava os seus conselhos. Agora é muito diferente. As pessoas percorrem os blogs, Twitter e tudo mais para tirar suas conclusões, em geral, vendo as classificações de estrelas”.

Neste mundo globalizado, a crise não deixaria de atingir os profissionais brasileiros. O ex-crítico Celso Marconi, que trabalhou na função por mais de 30 anos, não quis discutir o assunto e foi taxativo: “O mundo não quer saber de crítica, quer é ver arte como diversão”. Já o crítico de cinema Rodrigo Salem, que faz cobertura cinematográfica a partir de Los Angeles, para a Folha de S. Paulo e seu próprio site, considera que a crítica tradicional está perdendo a influência porque vem seguindo a mesma decadência do jornalismo impresso. “Hoje em dia, qualquer um acha que pode (e pode) ser crítico de cinema. Como o aspecto textual está cada vez menos exigente, os pseudo-críticos tendem a se proliferar com abundância – e tudo que existe em exagero desvaloriza sua importância de mercado”.

Para Salem, que, desde 2000, cobre de festivais internacionais a lançamentos de blockbusters, os críticos, com relação ao mercado cinematográfico, ainda são necessários para os filmes que não tenham uma verba de marketing de milhões de dólares. “O problema é que essa palavra, ‘crítico’, foi desvirtuada. Hoje, há blogueiros que recebem para tuitar sobre tal filme, usando hashtags. Outros que integram comunidades online que recebem para fazer vídeos sobre tal filme/música/cantor. E o leitor/audiência não tem a mínima ideia de que está sendo jogado em uma máquina. A importância do crítico sério ainda é grande”.

“A crítica, seja de cinema, artes plásticas, literatura, música ou qualquer outra expressão artística é uma espécie em extinção e, acredito, não apenas no Brasil, como no mundo inteiro”, aponta a jornalista Carol Almeida, que mantém o site Fora de Quadro, sobre filmes. “O jornalismo cultural, de maneira geral, é aquele que primeiro sofre com a crise do jornalismo mantido por grandes empresas. Nesse contexto, a crítica é vista como o elemento mais prescindível de todos. Em contrapartida, alguns grupos de jornalistas, coletiva ou individualmente, fortalecem, já há alguns anos, o espaço para a crítica – séria e comprometida – no ambiente online. E embora esses textos não sejam legitimados pela chamada ‘grande mídia’, aos poucos eles se tornam a referência mais importante para a construção de uma fortuna crítica do cinema. O que, por sua vez, diz bastante sobre esse modelo de jornalismo que cai cada vez mais em descrédito.”

O advento da internet, popularizada a partir do final dos anos 1990, foi determinante para mudar os antigos modos de produção de conteúdo, incluindo a crítica cinematográfica – lembra o professor do curso de Jornalismo e da Especialização em Cinema, da Universidade Católica de Pernambuco, Alexandre Figueirôa. “Há um lado negativo, claro, com a multiplicação de blogs e sites feitos por cinéfilos e curiosos, os quais, apesar da boa vontade de seus produtores, nem sempre desenvolvem bons textos críticos. Alguns deles (inclusive isto pode ser observado mesmo em publicações da grande mídia) limitam-se a copiar e reproduzir o que os sites oficiais dos estúdios difundem, sem nenhuma análise dos filmes; são apenas informações sobre a produção, o enredo e curiosidades sempre favoráveis às obras, principalmente se o dono da página é um fã. Outros reproduzem o que o crítico A ou B disse sobre um filme e com isso ocorre uma certa pasteurização e uma quase unanimidade em torno de certas obras. E essa padronização é ruim. Por outro lado, há os críticos e mesmo cinéfilos que realmente produzem material analítico de boa qualidade e isto é interessante porque há uma diversidade de opiniões e olhares singulares. Há, portanto, uma nova geração de cinéfilos muito bem informada e com boa formação participando de fóruns de discussão e publicando textos de altíssimo nível”, analisa, sentenciando: “Hoje, a crítica de cinema na internet é muito mais relevante que a dos meios impressos.”

Alexandre Figueirôa é professor do curso de Jornalismo e da especialização em Cinema da Unicap

Alexandre Figueirôa é professor do curso de Jornalismo e da especialização em Cinema da Unicap

Mas com essa pasteurização e crise no jornalismo cultural, a crítica veio perdendo leitores ao longo dos anos ou mantém o mesmo perfil de público desde o seu surgimento? “No Brasil, acho que quando as salas de cinema de rua começaram a fechar e os cadernos culturais foram reduzindo espaço para a crítica de filmes, houve uma redução de leitores, mas eles nunca desapareceram. Fui crítico no Recife nos anos 1990, um período terrível para o cinema brasileiro antes da Retomada, e também de muito poucas salas na cidade e sempre tive muitos leitores porque, paralelamente, o mercado de home video estava crescendo e com muitos títulos sendo lançados. Hoje, a diversidade de meios de difusão de filmes permite muito mais acesso às obras cinematográficas. Então, tem muito mais gente vendo filmes e lendo e escrevendo sobre eles na internet. E acho que os leitores hoje podem até ser mais exigentes com relação ao que se escreve sobre os filmes comerciais. No caso dos ‘de arte’, ‘fora do eixo’, ‘independentes’ há uma grande movimentação envolvendo cineastas, críticos e leitores, inclusive, fortalecendo projetos estéticos e um certo tipo de cinema fora dos padrões convencionais, basta ver o interesse e o debate em torno dos filmes dos jovens cineastas brasileiros apresentados em festivais e mostras que têm apostado nesse cinema como a Mostra de Tiradentes, em Minas, e o Janela Internacional de Cinema, em Pernambuco”, observa Figueirôa.

Para o crítico de cinema do Jornal do Commercio, Ernesto Barros, o perfil da plateia não é mais o mesmo: “Acho que quem mudou mais foram os espectadores. Hoje, quem paga um ingresso quer ver um filme e ter a certeza da satisfação, como se estivesse comprando um produto com garantia de qualidade. Agora, quando o espectador começa a ter uma relação mais estreita com o cinema, isso muda e o crítico é visto como um interlocutor. Não acredito que a crítica vem perdendo leitores. Muito pelo contrário, estamos num momento excelente. Quando comecei, há 30 anos, poucos estudantes de jornalismo se interessavam pela crítica. Com a chegada da internet, o perfil mudou completamente. Há quase 20 anos vivemos uma era excepcional para a crítica de cinema no Brasil e no mundo”.

O cineasta Daniel Aragão é um dos realizadores que questionam as opiniões cada vez mais apressadas sobre os filmes. “Quando realizei o meu primeiro longa, Boa sorte, meu amor, de 2012, ainda via muitas críticas de textos pensados para serem textos de verdade sobre o filme. No último, Prometo um dia deixar essa cidade, de 2014, percebi uma crescente de críticas reduzidas a uma ou duas linhas, nas redes sociais e em blogs pequenos. Isso, independente se positivas ou negativas, não me interessa muito, mas em particular, me causam uma certa irritação pois não gosto de ver o mundo se encaminhar para esse tipo de relação ‘rasa’ com as artes em geral.”

Daniel atribui esse comportamento ao perfil dessa geração: “Hoje em dia, percebo uma juventude incapaz de escutar um disco por completo ou assistir a um filme dentro de um cinema sem dar uma olhadinha no celular pra olhar o Facebook. Está cada vez pior. No entanto, a opinião é contundente, independente se o ‘critico’ assistiu ou não ao filme da forma que devia. Nossos filmes são minúsculos e existem milhares de problemas para resolvermos, como a própria distribuição neste Brasil dominado por um ridículo monopólio da mídia (Globo). O filme precisa ser visto para existir. E, sinceramente, nossos filmes pouco existem para nos preocuparmos com a crítica, seja positiva ou negativa. O fator importância é muito baixo, hoje em dia, e, na minha opinião, os críticos brasileiros estão mais preocupados com a própria sobrevivência e não com os filmes. É um exercício de auto-importância.”

Sobre a superficialidade das ‘críticas’ em 140 caracteres, podemos retomar a matéria do The Canadian Press, na qual o ex-crítico Jesse Wente destacou: “Quando eu era um crítico, pelo menos tinha a bênção de algum tempo para consideração, antes de realmente expor a minha opinião ou minhas ideias para o resto do mundo”. Ele lembrou que várias vezes via duas vezes um mesmo filme, antes de escrever seu texto. “O Twitter, Facebook e a era digital mostram que há essa demanda real de reagir instantaneamente a algo sem o tempo para a consideração profunda.”

Essa urgência das redes sociais só fez agravar a situação já vivida há muito tempo pelos críticos, a falta de um prazo maior para reflexão. As críticas costumam ser publicadas no dia do lançamento do filme, algo que não acontece com tanta rigidez com outros produtos, como livros e discos, e que pode refletir, de alguma forma, o mergulho do jornalismo no jogo do marketing dos estúdios (seja intencional ou não). “Acredito que publicar as críticas nessas datas responde, sim, a isso e diz respeito também ao fato de que o jornalismo cultural, de uma maneira mais ampla, vem cada vez mais se tornando um agendão cultural, refém das grandes indústrias e assessorias de imprensa, em lugar de ser um espaço para discutir os caminhos culturais. Existem filmes que você precisa assistir duas ou três vezes para, de fato, construir um texto completo sobre ele. Naturalmente, com a urgência dessa agenda, isso não é possível e, claro, interfere em vários momentos na reflexão sobre os filmes”, argumenta a crítica Carol Almeida.

Ernesto Barros tem um argumento diferente sobre essa questão. “Muitas vezes, os filmes não aguentam nem uma semana em cartaz. No caso dos lançamentos das distribuidoras pequenas, é importante que o texto seja publicado no primeiro dia. Como não tem verbas publicitárias, só resta ao filme a palavra do crítico”, pondera.

Embora concorde que o espaço da crítica cinematográfica vem diminuindo significativamente nos veículos tradicionais (jornais, revistas, etc), a professora do curso de cinema da UFPE Ângela Prysthon não tem uma visão pessimista do impacto da internet na área: “Ela abriu novos espaços, deu fôlego à cinefilia, construiu novos modos de exercer a cinefilia. Talvez a mudança mais significativa seja realmente a ampliação desse horizonte (onde um número cada vez maior de cinéfilos começa a refletir e escrever sobre cinema), mais do que propriamente uma mudança nos modos de fazer crítica”.

Professora do curso de Cinema da UFPE, Ângela Prysthon não tem uma visão pessimista a respeito do impacto da internet sobre a crítica cinematográfica

Professora do curso de Cinema da UFPE, Ângela Prysthon não tem uma visão pessimista a respeito do impacto da internet sobre a crítica cinematográfica

Qual seria o papel da crítica hoje, em meio a tantas opiniões vindas de todos os lados (blogs, redes sociais, YouTube…), à diminuição do tradicional espaço nos jornais e revistas e num cenário em que cada vez mais a maior parte do público não se interessa em ler e prefere ver filmes em casa? “Não sei se o público se interessa menos em ler crítica. Vejo nessa proliferação de blogs e comentários de rede social um interesse muito grande na crítica. Mesmo que seja mais ligeira, mais superficial. De qualquer modo, observo a formação de subgrupos, de subculturas. Há muitos tipos de filmes, assim como há muitos tipos de críticos e críticas, tipos de festivais, etc. Nesse sentido, a crítica acabou se reorganizando, funcionando como uma espécie de mapa para entender o que é o cinema hoje (ou as várias definições de cinema…).”, avalia Ângela, complementando que o que faz um crítico se diferenciar é justamente uma certa imprevisibilidade. “Ou seja, a sua capacidade de fazer conexões inusitadas, de despertar no espectador algo que possivelmente está no filme, mas que não teria sido notado tão facilmente, não fosse a sua crítica”.

O crítico da Folha de Pernambuco e programador do cinema da Fundação Joaquim Nabuco Luiz Joaquim complementa que a perda de espaço nas mídias tradicionais é um processo progressivo, gradativo e possui um movimento inverso ao da proliferação crescente de sites, blogs e derivados com profissionais ou leigos. “Mas não diria que a crítica perdeu sua importância. Passou por mutações. Digo isso porque ainda hoje a indústria cultural presta atenção ao que o crítico diz – o público, por sua vez, é historicamente desconfiado com ela. A diferença está mais na posição de onde este crítico fala. Muitas vezes, percebo que a ‘voz’ do veículo pode falar mais alto que a do que crítico. Se uma crítica horrível (ou pior, equivocada) foi publicada no The New York Times, ela influenciará muito mais que um texto impecável publicado no Delaware State News (só para ficarmos na comparação entre jornais de um mesmo país).”

E qual seria hoje o papel da crítica? Para Alexandre Figueirôa, sempre foi o de estabelecer um diálogo entre as obras, os realizadores e o público. “Ela é um indicador e ajuda a formar opinião principalmente para os filmes que não tem a máquina publicitária dos grandes estúdios e distribuidores para apoiá-los. Os blockbusters ou, no caso do cinema brasileiro, os filmes da Globo Filmes, por exemplo, não sofrem influência da crítica. Eles têm público garantido, a julgar pelo número de salas que ocupam quando são lançados. O que a crítica falar sobre esses filmes não é um parâmetro para esse público. Se eles não dão certo é porque são tão fracos que a própria audiência os rejeita. Mas para o caso dos filmes de pequeno orçamento, as obras que chamamos de ‘filmes de arte’, os filmes não americanos, a crítica continua tendo um grande valor, pois o espectador desses filmes quer saber a opinião de especialistas, faz suas escolhas a partir da opinião dos críticos e gosta de ver e debater o que assistiu, etc., independente se vai ver ou viu o filme no cinema, em DVD, blu-ray ou na TV. Há outro dado essencial também, a crítica de certa forma sistematiza tendências, discute movimentos, aponta renovações estéticas e isto é um papel importante nas artes. Uma crítica forte e atuante reflete de alguma maneira a força de uma expressão”.

Sobre a polêmica relação entre crítica e jornalismo, ou melhor, se ela é mesmo jornalismo, a professora Ângela Prysthon observa: “Uma parte da crítica cinematográfica é constituinte de uma ideia de jornalismo que prezo bastante, a do jornalismo cultural, que precisa muito ter uma crítica atuante para continuar existindo. Vejo que, em alguns veículos, isso ainda é vital (penso no The Guardian, Página 12 e The New York Times como exemplos de uma crítica viva, sagaz e ainda relevante). Mas claro que não existe apenas a crítica jornalística. Há também a acadêmica, exercida como uma subárea de pesquisa em cinema, e aquela especializada, das revistas ou blogs, exercida por críticos no sentido mais ‘cinéfilo’ e apaixonado do termo. Uma tradição que se consolidou na França especialmente, mas que tem cada vez mais representantes no mundo inteiro.”

Rodrigo Salem defende que “crítica não é jornalismo”: “São coisas diferentes. Mas acho que ambos vão voltar a ganhar importância, porque os jornais/revistas precisam de vozes únicas, agora que a maioria das notícias do setor é um grande copy-paste. Originalidade é o tom do futuro e da sobrevivência. Visão e voz únicas”.

Cartoon: Arnaldo Branco

Cartoon: Arnaldo Branco

Artigo publicado originalmente na Revista Café Colombo #2. Adquira o seu exemplar.

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