Mano Ferreira - 28 de janeiro de 2015 às 17H 42M

Com fim do embargo próximo, vale perguntar: por que Cuba é pobre?

Após cinco décadas de relacionamento cortado, Estados Unidos e Cuba reataram recentemente sua diplomacia. Esta semana, dois novos acontecimentos se juntaram à trama. Primeiro, o antigo ditador Fidel Castro declarou desconfiança dos americanos e apoio às negociações. Depois, em discurso na Cúpula de Estados Latino-Americanos e do Caribe, o seu irmão e sucessor, Raúl, defendeu a reaproximação e apontou as demandas que precisam ser sanadas para a normalização das relações bilaterais: o fim da “ocupação ilegal” do território de Guantánamo e o término do embargo econômico.

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O fechamento da prisão de Guantánamo, bem conhecida pelas violações de direitos humanos cometidas pelo governo dos EUA, é um compromisso já antigo do atual presidente Barack Obama. O embargo econômico é um anacronismo datado da Guerra Fria. Nesse contexto, é importante voltemos a refletir sobre os motivos da pobreza em Cuba. É o que fez Diogo Costa, cientista político já entrevistado pelo Café, em artigo publicado no site Mercado Popular e que compartilhamos abaixo.

Por que Cuba é pobre?

cuba

Por Diogo Costa

Eis o que escreve João Pereira Coutinho:

O embargo americano existe, sem dúvida, e deve ser condenado pelo seu óbvio anacronismo […]. Mas é preciso acrescentar a segunda parte da frase: só existe o embargo americano. Que o mesmo é dizer: todo mundo que é mundo mantém relações com Cuba e nem assim a ilha se converteu numa espécie de Suécia do Caribe.

Antes de 1959, o problema de Cuba era a presença de relações econômicas com os Estados Unidos.  Depois o problema se tornou a ausência de relações econômicas com os Estados Unidos.

O embargo americano é obsceno, mas não é a raiz da pobreza cubana.  De fato, como indica Coutinho, os cubanos podem comprar produtos americanos pelo México.  Podem comprar carros do Japão, eletrodomésticos da Alemanha, brinquedos da China ou até cosméticos do Brasil.

Por que não compram?  Porque não têm com o que comprar.  Não é um problema contábil ou monetário — o governo cubano emite moeda sem lastro nem vergonha.  O que falta é oferta.  Cuba oferece poucas coisas de valor para o resto do mundo.  Cuba é pobre porque o trabalho dos cubanos não é produtivo.

>> Escute a entrevista de Diogo Costa ao Café Colombo

A má notícia para os comunistas é que produtividade é coisa de empresário capitalista.  Literalmente.  É o capital que deixa o trabalho mais produtivo.  E é pelo empreendedorismo que uma sociedade descobre e realiza o melhor emprego para o capital e o trabalho.

Mesmo quando o governo cubano permite um pouco de empreendedorismo, ele restringe a entrada de capital. Desde que assumiu o poder em 2007, Raúl Castro já fez a concessão de quase 170.000 lotes de terra não cultivada para agricultores privados.  Só que faltam ferramentas e máquinas para trabalhar a terra.  A importação de bens de capital é restrita pelo governo.  Faltam caminhões para transportar alimentos.  Os poucos que existem estão velhos e passam grande parte do tempo sendo consertados.  Em 2009, centenas de toneladas de tomate apodreceram por falta de transporte.

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Campanhas internacionais contra a pobreza global se esquecem dos cubanos. Parece que o uniforme dos irmãos Castro tem o poder de camuflar a pobreza em meio a discursos de conquista social.  Dizem que Cuba temmedicina e educação de ponta.  Ainda que fosse verdade, isso seria bom apenas para o pesquisador de ponta.  E triste para o resto da população que vive longe da ponta, sem acesso a informação aberta ou aos medicamentos mais básicos, como analgésicos e antitérmicos.  É como na saudosa União Soviética.  A engenharia era de ponta. Colocava gente no espaço e tanques na avenida.  Só não era capaz de colocar carro nas garagens nem máquina de lavar nas casas.

Cuba vai enriquecer quando a sua população se tornar mais produtiva para trabalhar e mais livre para empreender.  Ou seja, quando houver capitalismo para os cubanos.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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