Mano Ferreira - 11 de junho de 2015 às 14H 52M

Como fazer bom jornalismo sobre ciência?

alfredo-marcos

Catedrático da Universidade de Valladolid, Alfredo Marcos respondeu a pergunta para o Café Colombo

Dizer que vivemos a era da informação já é um clichê, mas a ênfase da repetição dessa expressão nos serve muito. Em tempos de crise do jornalismo enquanto um modelo de negócios sustentável, por vezes perdemos a dimensão do necessário senso de urgência e importância no trato dessa grande matéria-prima que é a informação. Em outras palavras, a qualidade do jornalismo entra em cheque – e curiosamente vemos questionada a qualidade da informação no meio de sua própria era.

Ao mesmo tempo, assistimos emergir uma centralidade da ciência, por vezes assumindo um status social de autoridade comparado ao poder que já foi exercido em outras épocas pela religião. Daí ganha especial relevância a pergunta-título deste artigo.

Já conversamos a esse respeito com o filósofo espanhol Alfredo Marcos, professor catedrático de Filosofia da Ciência da Universidade de Valladolid. A entrevista faz parte da seleção do Café Colombo compilada em nosso livro Conversas no Café – Volume 2, disponível para compra através do email contato@cafecolombo.com.br e também nas livrarias Cultura, Jaqueira e Imperatriz. Confira um trecho da conversa.

CAFÉ COLOMBO: Que tipo de preparo filosófico e científico o aluno de jornalismo deve receber na universidade para enfrentar-se a temas como esses e divulgá-los da melhor maneira possível?

Creio que o jornalista científico deve receber uma formação em duas frentes. Em primeiro lugar, deve ser capaz de entender a ciência. Quer dizer, deve entender os textos científicos e as atividades executadas pelos agentes da ciência. Isso inclui um nível intermediário de formação científica e certos conhecimentos de filosofia, história e sociologia da ciência.

Por outro lado, ele tem que receber a formação de comunicador. Quer dizer, deve assumir a deontologia e as técnicas retóricas próprias do jornalista. Isso inclui a visão crítica e a necessidade de averiguar as fontes.

Também na ciência existe a necessidade de contrastar as informações e comparar fontes. Por isso, o jornalista deve trabalhar em frentes: na fidelidade aos conteúdos científicos e na eficácia de sua comunicação ao público. É uma questão de equilíbrios, nenhum dos dois valores pode ser postergado.

A filosofia da ciência, num nível elementar, deve ser parte da formação do jornalista científico. Os filósofos da ciência nos ensinaram que a ciência é atividade humana e social. O jornalista que aprende isso sabe que tem que informar não somente sobre os resultados e conquistas da ciência, mas também sobre os processos e, inclusive, sobre os fracassos (há investigações fracassadas em que foi investido muito dinheiro de todos).

Nenhum jornalista esportivo se conformaria em comunicar só os resultados dos eventos. É preciso informar também sobre o processo, sobre os eventos mesmos. No jornalismo científico é a mesma coisa.
Por outro lado, a filosofia da ciência atual ensina que a ciência não fornece certezas absolutas e definitivas. O jornalista que aprende isso tratará a informação científica da mesma forma crítica com que trata a informação política, contrastará as informações, comparará as fontes.

Além disso, o jornalista científico com certa formação filosófica saberá que é necessário e legítimo fazer jornalismo científico de opinião. A filosofia da ciência, portanto, pode fazer valiosas contribuições ao jornalismo científico.

Apresentação presente no Conversas no Café – Volume 2

selo-conversasnocaféNas páginas seguintes, o filósofo espanhol Alfredo Marcos, nascido em León, em 1961, apresenta os fundamentos históricos e filosóficos dessa concepção ampliada de ciência e nos mostra como funciona na prática sua aplicação concreta em diferentes âmbitos: comunicação da ciência, investigação clínica, política ambiental, poética da ciência etc.. Alfredo Marcos, que é doutor em filosofia pela Universidade de Barcelona e catedrático de Filosofia da Ciência da Universidade de Valladolid, publicou, além de diversos artigos científicos em revistas especializadas e de divulgação científica em todo mundo, mais de uma dezena de livros, entre os quais Pierre Duhem. La filosofía de la ciencia en sus orígenes (Barcelona, 1988), Aristóteles y otros animales (Barcelona, 1996), Hacia una filosofía de la ciencia amplia (Madrid, 2000), El Testamento de Aristóteles (León, 2000), Filosofía de la Ciencia. Nuevas dimensiones (México, 2010).

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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