Thiago Corrêa - 16 de setembro de 2014 às 23H 34M

Contra o senso comum, H. L. Mencken exercia seu ceticismo militante

mencken
Por Eduardo Cesar Maia

Antes de que pudéssemos contar com os hoje já comuns “sebos virtuais”, alguns livros, apesar de não tão velhos e nem tão raros, viravam objeto de verdadeiras caçadas pelo simples fato de estarem esgotados na editora. É o caso de O livro dos insultos, uma compilação de textos do polêmico jornalista norte-americano Henry Louis Mencken (1880-1956), organizada por Ruy Castro e fora de catálogo há mais de 20 anos. Agora, para os admiradores do “sábio de Baltimore”, uma boa nova: a Companhia das Letras reeditou a obra numa edição bem cuidada e que, de quebra, além do prefácio do próprio Ruy Castro, traz um texto de Paulo Francis sobre “o mais poderoso cidadão privado na América” daqueles tempos, como o definiu Walter Lippmann, do New York Times.

Neto de imigrantes alemães e filho do dono de uma fábrica de charutos, Mencken se interessa pela literatura a partir da leitura de Mark Twain, escritor e também jornalista, de quem herda o humor irônico e o espírito libertário — Huckleberry Finn foi seu livro preferido durante toda a vida. Iniciou a carreira como foca no jornal Baltimore Morning Herald, em 1899, e posteriormente foi contratado pelo Baltimore Sun, em 1906. Sua verve de crítico cultural começou a ser destilada na revista The Smart Set, em 1908.

Em 1924, já consagrado e com algum dinheiro, Mencken pode fundar uma publicação própria, o magazine The American Mercury, que teve sua primeira edição circulando no mesmo ano, e, em pouco tempo, começou a ser distribuída com sucesso em todos os Estados Unidos. Entre seus amigos íntimos — os quais nem sempre escapavam de seu sarcasmo —, estavam importantes artistas e escritores da época, como George Jean Nathan, Theodore Dreiser, F. Scott Fitzgerald e Alfred Knopf.

Mencken entendia o jornalismo como uma atividade essencialmente de combate e de oposição ao poder constituído. Suas únicas crenças inamovíveis eram a defesa da liberdade de consciência e a preservação dos direitos civis dos indivíduos contra a força do estado e contra a “tirania da maioria”. Ficou célebre uma anotação em seu diário no dia da morte de um presidente americano: “Foi o primeiro americano a penetrar nas profundezas da estupidez do vulgo. Nunca cometeu o erro de superestimar a inteligência da multidão”. Referia-se assim a Franklin Delano Roosevelt, único presidente eleito por quatro vezes na história americana.

Sua capacidade de falar mal dos outros não tinha limites: desmoralizou políticos e acadêmicos, humilhou seus pares jornalistas inúmeras vezes; vilipendiou judeus, puritanos, católicos, filósofos; menosprezou os negros e ao mesmo tempo combateu a Ku Klux Klan e o fundamentalismo cristão. Afirmava que sempre odiara os pastores protestantes, mas começava a compadecer-se deles tão logo conhecia suas mulheres… Enfim, não poupava ninguém. Um de seus alvos preferidos era o que ele chamava de boobsie, o homem médio americano, deslumbrado, cheio de superstições, ignorâncias e medos — o Homer Simpson da época.

Polemista
A fama de polemista e “elitista preconceituoso” é rigorosamente merecida, mas o destaque unilateral dessa faceta acaba distorcendo seu perfil e diminuindo a amplitude de seu pensamento. De fato, Mencken foi o jornalista mais mordaz e influente de seu tempo, mas também foi crítico literário, tradutor, editor e lexicógrafo — autor do monumental The american language, obra filológica em que mostrava que o inglês falado na América se diferenciava cada vez mais do britânico e adquiria identidade e dinâmica próprias.

O homem foi ao mesmo tempo retrato e antítese do espírito americano: livre-pensador, mas que nutria um profundo desprezo pelas massas e pelo sistema democrático, pois desconfiava do bom-senso e da inteligência das maiorias. Disse certa vez que a democracia era “a arte e a ciência de administrar o circo a partir da jaula dos macacos”. Detestava os militantes e sua única mandeira era o ceticismo, ou melhor, a capacidade que o indivíduo tem de não acreditar, de não seguir a manada, de pensar por si mesmo. Era um adepto do princípio “Hay gobierno? Soy contra!”, e acreditava que todo homem decente deveria se envergonhar do governo sob o qual vive.

Como Nietzsche, na Alemanha, e Ortega y Gasset, na Espanha, Mencken combateu ferozmente o democratismo, a crença de que a maioria — por ser maioria — estava necessariamente certa. O jornalista conhecia muito bem a obra de Nietzsche e foi um dos seus primeiros tradutores para o inglês. Pode-se dizer que Mencken reconhece no pensador alemão uma personalidade de intelecto e temperamento semelhantes aos seus: alguém que não se rebaixava a ídolos — fossem religiosos, ideológicos ou românticos.

O que dá unidade à visão crítica desse intelectual sui generis é a sempre presente desconfiança em relação ao homem e suas supostas grandes capacidades e dotes. Para Mencken, as principais características da espécie humana são a preguiça, a vaidade sem propósito, o espírito de rebanho e, a mais destacada entre todas, a covardia. Sem exceções, do gari ao mais pomposo acadêmico de Harvard, a cretinice uniria em comunhão sagrada esse animal que se coloca na hierarquia natural como o ápice da criação.

Durante os anos 1920, ele se destacou como crítico cultural e literário implacável. Jogava com valores: construía e destruía méritos e reputações, e não perdoava os renomados e famosos. Os jovens literatos ansiavam por sua apreciação, que podia ser o começo — ou o fim precoce — de suas pretensões artísticas. Edmund Wilson o chamou de “crítico impressionista”, por seu personalismo, e acusou-o de não ter consistência por não obedecer a normas maiores, exteriores a seu próprio juízo e sentimento. Mas reconheceu que Mencken, por um lado, e T. S. Eliot, por outro, fizeram a cabeça dos jovens literatos americanos de sua época. O filósofo espanhol Fernando Fernando Savater enfatizou que a condição de autodidata deixou várias brechas na formação intelectual de Mencken, mas isso era perfeitamente compensado pelo seu virtuosismo retórico e pelo estilo contundente de seus escritos.

Em 1948, H. L. Mencken foi vítima de uma trombose cerebral, da qual nunca se recuperou completamente. Manteve-se ainda consciente, mas era incapaz de ler e de escrever e caiu numa inevitável depressão. Um dos mais brilhantes — e, com certeza, o mais polêmico — jornalistas americanos faleceu em 1956, convicto de que seu corpo apodreceria na terra e nada restaria dele, neste ou em outro mundo. Mesmo em seus dias finais, ao contrário de muitos arrependidos de última hora, Mencken continuou afirmando a falta de sentido que cerca a existência do homem — e zombando disso.

Mencken produziu — e continua produzindo — inumeráveis seguidores no jornalismo, inclusive no Brasil, mas certamente nenhum deles ainda conseguiu igualá-lo em brilho, ousadia e no poder de sacudir as pessoas, retirando-as da tranquilidade e do conforto do senso comum por meio de textos tão desconcertantes. A reedição de O livro dos insultos é uma oportunidade para que velhos admiradores e novos leitores brasileiros entrem em contato com alguns dos melhores textos e reconheçam seu legado: a lição de que ninguém merece ser tão reverenciado a ponto de não podermos rir dele.

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O julgamento do macaco
Um personagem assumidamente inspirado em H. L. Mencken foi levado ao cinema pelo diretor Stanley Kramer, no filme Herdarás o vento (Inherit the Wind), de 1960. A obra, baseada num episódio real, ocorrido em 1925, que ficou conhecido como Caso Scopes ou O julgamento do macaco, relata o processo jurídico contra um professor de segundo grau, interpretado por Fredric March, que cometeu o “pecado” de ensinar darwinismo a seus alunos, numa cidade (Dayton, no Tennessee) onde as leis estaduais, influenciadas pelo fundamentalismo cristão, não admitiam teorias científicas que concorressem com a explicação bíblica — o criacionismo.

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O estilo sarcástico e libertário de Mencken é homenageado na figura de E. K. Hornbeck, interpretado por Gene Kelly, um jornalista do Baltimore evening sun que se empenha em defender os direitos do réu — bancando inclusive os honorários do advogado de defesa —, com o intuito maior de provocar os religiosos do que propriamente para salvar a pele do professor. Não obstante as semelhanças entre a ficção e a realidade, a obra foi adaptada livremente e não teve a intenção de documentar a história. Alguns críticos enxergaram no teor crítico do filme um alerta contra o mal que o macarthismo estava causando na liberdade de expressão e de pensamento.

Outro destaque da adaptação cinematográfica é o elenco, que contou com atores como Spencer Tracy, Fredric March e o próprio  Gene Kelly. O filme concorreu a quatro Oscars e permanece atual e instigante, mesmo porque os fervorosos debates entre criacionistas e darwinistas ainda ocorrem em tribunais, na imprensa e nas escolas americanas.

* Texto originalmente publicado no suplemento Pernambuco, em agosto de 2009

Thiago Corrêa

Jornalista, produtor cultural e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, Thiago Corrêa é um dos fundadores do grupo Vacatussa e já foi setorista de literatura nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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