Renato Lima - 08 de novembro de 2014 às 01H 48M

Conversa sobre carros – e a história do rádio jornalismo americano

Conversa sobre carros – e a história do rádio jornalismo americano
Por Renato Lima

CAMBRIDGE (MA) – Um dos programas mais populares da rádio americana chama-se “Car talk”, que vai ao ar todas as semanas em centenas de rádios espalhadas pelo país. Nele, Thomas e o seu irmão Ray Magliozzi respondem as perguntas de ouvintes sobre todos os assuntos relacionados a carros e lançam quebra-cabeças para serem resolvidos na semana seguinte. Nada mais trivial e até mesmo chato, descrevendo assim. Mas “Car talk” sempre foi muito mais do que um programa sobre carros. Automóveis foram apenas o gancho para os irmãos falarem sobre vida, relacionamentos, a geografia americana e brincar muito um com outro e com os ouvintes. O que mais se ouve durante um programa são as risadas dos seus apresentadores. Infelizmente a risada de Thomas, ou Tom Magliozzi, se silenciou esta semana ao morrer aos 77 anos. E com ele uma interessante história do rádio jornalismo nos Estados Unidos.

“Car Talk” teve início em 1977, quando alguém da rádio da Universidade de Boston ligou para vários mecânicos de carro na cidade para fazer um segmento tirando dúvidas de ouvintes. O único que topou a ir ao estúdio foi Tom Magliozzi, proprietário de uma pequena oficina mecânica com o seu irmão na cidade de Cambridge (onde ficam as universidades do MIT e Harvard), do outro lado do rio Charles. Ele foi, respondeu a perguntas e foi convidado a voltar na semana seguinte, dessa vez trazendo o seu irmão mais jovem.

Rapidamente, eles ganharam um programa próprio na rádio. Isso sem ter nenhuma experiência nesse veículo. Os irmãos ficavam olhando o que os apresentadores da estação faziam e tentavam seguir. Mesmo sem nenhum treino – ou talvez justamente por isso – o programa começou a ganhar fama e de uma atração local de Boston passou a ser transmitido para 660 estações nos EUA. A forma descontraída e alegre com que eles abordavam assuntos na rádio permitiu que outros programas de humor também ganhassem espaço na rádio pública americana, a NPR. É como imaginar que a produção da Hora do Brasil (ou Voz do Brasil, no nome atual), aquele modelo paradigmático da rádio burocrática, abrisse um segmento de informação com muito humor. A NPR sisuda e chata podia ser também divertida, sem abdicar da informação e serviço público que um programa de rádio falando sobre carburadores e pastilhas de freios também oferece. Peter Sagal, do programa de quizz informativo “Wait wait… don’t tell me” credita a “Car talk” a fama de ter revolucionado a rádio pública e aberto espaço para quem veio depois e queria fazer coisas diferentes.

Para se ter uma ideia do fenômeno “Car Talk”, seus dois fundadores foram escolhidos em 1999 para serem os oradores da turma de formatura do MIT. Trata-se de uma honraria elevada, no ano anterior o orador foi ninguém menos que o presidente Bill Clinton e, em 1997, Kofi Annan. O MIT é conhecido como uma das melhores universidades do mundo, especialmente pelos seus cursos de engenharia. Acontece que tanto Tom quanto Ray se formaram pelo MIT – uma escola pouco associada a mecânicos de carro… Tom ainda fez doutorado pela Boston University com uma tese sobre análise de regressão e marketing. Em seu discurso no MIT, os irmãos falaram que o que mais importa na vida é perseguir a realização própria e a felicidade interior. E isso foi a razão de terem escolhido trabalhar com carros – tanto numa oficina quanto na rádio. Tom se formou com o melhor diploma que um engenheiro pode ter e rapidamente conseguiu um bom emprego numa grande empresa. Mas, um dia, quase morreu ao dirigir indo ao trabalho. Foi o suficiente para refletir sobre a vida e que queria mais do que ser um funcionário bem pago mas sem realização pessoal. Com o irmão mais novo montou uma oficina de carro e depois iniciou uma carreira que transformou a rádio pública.

A primeira vez que escutei “Car talk”, já morando em Cambridge e estudando no MIT, fui bastante surpreendido pelo programa. “Mas esse programa é sobre carro mesmo? Eles parecem que só estão rindo e tirando onda dos ouvintes”, comentei. Não sabia sobre a origem do programa, o seu lado revolucionário para a rádio, nem mesmo que era feito por ex-alunos do MIT. Mais ainda – nunca tive nenhum interesse por carros! Mesmo assim, escutava sempre o programa aos sábados pela manhã. Foi com muita tristeza que esta semana fiquei sabendo da morte de Tom Magliozzi, aos 77 anos, de complicações do Alzenheimer. Desde o final de 2012 que os irmãos haviam parado de gravar novos episódios – e a razão nunca havia sido explicada. Nem muito divulgado… Aliás, o programa ia ao ar sem nenhuma informação de que era repetido. Mas neste sábado 8 de novembro, a rádio de Boston trará um novo episódio de “Car talk”, uma homenagem a Tom. Uma pena que tenha que ser assim, mas uma homenagem muito merecida a quem por 37 anos comandou um dos mais destacados e engraçados programas de rádio, em que carros eram apenas um pretexto para rir da vida.

Renato Lima

Fundador do Café Colombo, é jornalista pela UFPE, mestre pela UIUC, doutor pelo MIT. Mora em Kuala Lumpur, Malásia.

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