Outros autores - 20 de outubro de 2015 às 11H 06M

Crônica de uma Casa Grande assassinada

Casa-Grande

Por Renato K. Silva

Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2014) é um filme muito particular na cinegrafia nacional que aborda a relação entre senhor e subalterno – empregador e empregado. Particular porque escapa dos clichês que geralmente envolvem as produções com esta temática. Por exemplo: o abuso moral, sexual e financeiro por parte dos patrões; o jogo de chantagens, a resistência utilitarista e a alienação em relação aos direitos trabalhistas, por parte dos empregados.

O longa-metragem narra a história de uma família nuclear – pai, mãe e casal de filhos adolescentes – de classe média alta do Rio de Janeiro que, paulatinamente, vê seu patrimônio ser dilapidado pelo orgulho do provedor da família, Hugo (Marcello Novaes), que não assume estar falido e, por conseguinte, não busca formas de diminuir os danos pela queda do padrão de vida, vendendo a mansão da família, por exemplo. Parece que a Casa é a pele da família e, como um caracol, se encolhe dentro do casulo para se proteger das intempéries externas.

A queda do padrão de vida é retratada com perícia pela fotografia de Pedro Sotero (fotógrafo que também trabalhou em O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho), como nos enquadramentos que retratam a chegada dos empregados à mansão, localizada em um condomínio fechado da Barra da Tijuca, para trabalhar logo pela manhã: a cozinheira e o motorista. Ambos são recepcionados pelo terceiro empregado, a arrumadeira Rita (Clarissa Pinheiro), que dorme em uma pequena casa ao fundo da mansão. No decorrer da narrativa, o número de empregados vai diminuindo na Casa e isso é evidenciado na rarefação deles por ocasião de suas chegadas para o trabalho. Pedro Sotero, através dos planos longos e abertos, nos mostra a Casa sendo “assassinada” a partir das sucessivas ausências dos seus funcionários.

A escolha dos longos planos abertos realizados por Sotero nos remete imediatamente a O som ao redor. Tais recursos estilísticos dão ênfase ao ritmo “modorrento” de Casa Grande, tal qual o descrito por Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala, que levavam os senhores e senhoras de engenho a uma completa prostração no dia a dia da Casa Grande. No filme de Felipe Barbosa, a “modorra” se dá quando vemos a patroa da casa, Sônia (Suzana Pires), dando aulas particulares de francês, acompanhadas com chá e biscoitinhos, ou quando Hugo encontra-se refestelado na jacuzzi tomando um drink, ou ainda quando os filhos são levados à escola com motorista particular.

A “modorra” vai sendo contrastada a partir do momento em que a Casa começa a ruir, isto é, a perder sua capacidade de conforto devido à própria ruína financeira da família. A preocupação com as luzes ligadas nos cômodos vazios; com a conta do telefone; a troca do ar-condicionado pelo ventilador; a falta de certos itens de consumo até há pouco presente e, por fim, as demissões do motorista (Severino) e da arrumadeira (Rita) são o canto do cisne na economia emocional das personagens, sobretudo para Jean (Thales Cavalcanti). Jean tinha na empregada a sua companheira das noites solitárias (sem sexo); e no motorista, seu companheiro de anos no translado para a escola, não só o confidente, como o iniciador nos arcanos da sexualidade – Jean tem sua primeira experiência sexual por intermédio de Severino, que o levou a um prostíbulo.

Após a demissão do motorista, Jean começa a ir à escola de ônibus, para pavor dos pais e satisfação dele que, finalmente, pôde andar pela cidade com mais “liberdade”. Jean estuda em uma escola (São Bento) segregada por gênero, onde só há homens. E isso diz (veladamente) a relação que Jean estabelece com as mulheres no filme, de certa inapetência.

Numa das idas à escola de ônibus, Jean conhece uma menina da escola pública, Luiza (Bruna Amaya), descendente de pai japonês com mãe negra, moradora da periferia de São Conrado. Em seguida, ambos começam a namorar e, no dia que Jean a leva para conhecer seus pais em um churrasco na Casa, há uma discussão sobre cotas raciais. Na discussão, Luiza é a favor das cotas raciais no ensino superior por acreditar que o Estado brasileiro precisa reparar a histórica espoliação da população negra no país. A discussão gera um mal-estar entre Luiza e os pais de Jean. No fundo, a questão de raça e classe sobressai, veladamente, no desconforto entre os pais de Jean e Luiza. No fundo, os pais de Jean não admitem que ele namore uma menina negra, da periferia e com consciência de classe.

casa grande filme

Jean, com a insegurança perpassada por uma cultura machista na qual foi criado, não consegue consumar o namoro com Luiza, em um motel, logo após a discussão no churrasco. Destaque para o banho de Jean na jacuzzi do motel como uma espécie de retorno a uma familiaridade perdida com o “assassinato” financeiro da Casa.

Existem dois personagens principais no filme: Jean e a Casa. Jean é um típico garoto da classe média alta, fruto de uma relação superprotetora e do machismo patriarcal que enfatiza as conquistas do homem em detrimento das conquistas femininas. Diríamos mais: Jean é a extensão de sua Casa, quando esta declina àquele segue o mesmo movimento.

O pai admira Jean, que compõe músicas ao violão e aparentemente vai bem nos estudos, o que gera ciúmes na filha Nathalie (Alice Melo), que sente-se preterida no interior da Casa. Pelo excesso de proteção, é negado a Jean certas informações que seriam fundamentais para o seu desenvolvimento emocional. Exemplo: quando o motorista Severino é demitido, Hugo, o pai de Jean, lhe diz que Severino está tirando férias na Paraíba. Além disso, tanto Hugo quanto Sônia, escondem dos filhos a real situação financeira da família, o que faz transbordar o desconforto entre os empregados e os empregadores.

O declínio da Casa é refletido no fracasso de Jean no dia do vestibular. Acossado pelo turbilhão de acontecimentos que estão reconfigurando sua vida, e num ímpeto de inquietação, ele abandona a prova e vai atrás do paradeiro do seu ex-motorista Severino que, dias antes, tinha-o visto através da janela do ônibus em um ponto de vans de lotação. Isto é, Severino agora era motorista de lotação. Ao chegar no endereço de Severino, após consegui-lo com um fiscal de vans, Jean se espanta ao descobrir que Severino é casado com a ex-cozinheira de sua família. Ao encontrá-lo, Jean irrompe em lágrimas. Era a Casa reencontrando quem a mantinha em pé.

Casa Grande é um filme que rompe os lugares-comuns geralmente presentes nos filmes sobre a relação de classes entre a “Casa Grande” e a “Senzala”, pois a relação entre esses dois pólos não é reificada pelo puro interesse de ambas as partes – salário x serviço –, há algo que ultrapassa este utilitarismo. E a cena final do filme é a prova que os afetos extrapolam os ditames da classe social.

Renato K. Silva é escritor e doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

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