Outros autores - 25 de julho de 2016 às 11H 25M

Culpa, destino e repetição em Julieta, de Almodóvar

JULIETA-ALMODOVAR

Por Filipe Campello

(Atenção: contém spoilers)

Em sua aula de literatura, a jovem professora Julieta recorre entusiasticamente ao exemplo de Ulisses, que, na narrativa de Homero, resiste a talvez a maior das tentações: a da imortalidade, assumindo o seu próprio destino e aventurando-se em um mar revolto. Em uma constante tensão com a imagem de Ulisses, é justamente a dificuldade de aceitação do destino que conduz a trama do mais recente filme de Almodóvar. O não reconhecimento da força de um destino que impõe seu ritmo à vida provoca o que parece ser um dos sentimentos mais constitutivos do sujeito: a culpa. É este sentimento fundante que assistimos já no início do longa em uma cena emblemática, em que um senhor que se sentara junto a Julieta no trem se suicida. Julieta é assolada por um sentimento de culpa por ter se recusado a conversar com ele, ainda que a sua mala vazia indicasse que o suicídio era premeditado.

E é neste mesmo trem que Julieta conhece Xoan. Há, ali, uma tensão entre aceitação do destino, de superação da culpa, quando, nessa mesma noite, Julieta rende-se ao seu desejo por Xoan. Mas este desejo recai no mesmo dilema quando Julieta descobre que o seu parceiro tem um outro envolvimento sexual. As ambivalências do desejo levarão, ainda que por contingência do destino, à perda de Xoan em um mar agitado que nos lembra a imagem de Ulisses. Novamente, Julieta sente-se culpada, provocando uma dor avassaladora que leva a um período intenso de depressão.

Mas a narrativa do filme mostra que esse sentimento de culpa, em negar o próprio destino, não permanece como algo isolado, mas como marca que se repete. É a culpa que também está por trás da escolha da filha em partir inicialmente para um retiro espiritual, passando a ficar por anos longe da mãe. O motivo revela-se diante do sentimento de responsabilização de Antía pela morte do pai, quando confessa, em uma transcrição livre, que “não somos somente dois culpados, mas três”. Em uma força irrefreável da repetição, Antía encontra refúgio na religião com traços fanáticos, querendo ainda libertar-se do pecado de sua relação homoafetiva com Beatriz, sendo emblemático como a trama não deixa de fazer referência à obsessão cristã pela culpa, assumida como pecado original.

A culpa, sempre ela, vai esvaindo todas relações: desde Julieta pelo suicídio do passageiro no trem, a de Xoan pela traição por seu relacionamento com Ava, chegando à Antía que passa a responsabilizar-se pela morte do pai e, enfim, pela morte do seu filho. O longa encontra uma linha de repetição da oposição entre culpa e destino, em que se mostra que, na verdade, ninguém é culpado pelo destino.

Tal marca persistente do sujeito e de suas relações demonstra uma atemporalidade que liga as tragédias de Sófocles aos dramas de Shakespeare ou romances de Dostoiveski, em que vemos o conflito entre culpa e destino. Como em Édipo ou Macbeth, a tentativa de resistência ao destino conduz a nada mais do que a sua própria realização. Assemelha-se ao que Hegel, influenciado pelo amigo Hölderlin, entendia como destino sendo não somente uma trajetória inevitavelmente pré-determinada, senão uma resposta que a vida dá às nossas próprias escolhas. Também a punição, como a entende Hegel no contexto de seus escritos de juventude, não é heterônoma, como se fosse algo estranho ao sujeito, mas é dada pela própria vida. Dentro desse traço autônomo do destino, não somos culpados pelo que acontece com o outro, cujo destino se irrompe a partir de sua própria vida.

É essa tensão atemporal que Almodóvar filma em um enredo com traços contemporâneos. Baseados nos contos Destino, Logo e Silêncio, de Alice Munro, Prêmio Nobel de Literatura de 2013, vemos um Almodóvar mais sóbrio, exprimindo-se através de cores menos expressivas e de imagens mais contidas, ainda que sem recusar a diálogos retocados por uma dose de histeria e previsibilidade a la novela mexicana que se tornaram marcas do cineasta espanhol.

Mas a culpa traz consigo a possibilidade não só da resignação, mas também do arrependimento. Diante da morte do seu filho, a carta enviada por Antía à sua mãe finalmente traz o seu endereço, juntamente com a confissão de que agora sente a dor que é para uma mãe ficar longe do filho – em uma ressignificação daquilo que é repetido. O que poderíamos esperar desse reencontro parece intencionalmente permanecer em aberto: se como cura e reconciliação, em que a culpa é superada, ou como insistência da repetição.

Desde a cena do trem, sabemos que não é Julieta a culpada pelo suicídio daquele senhor, mas o seu sentimento de culpa por não ter alterado o destino pode se mostrar paranoico e tomar proporções devastadoras. Em particular no caso da morte, a necessidade de nos sentirmos culpados parece querer esconder a sua inevitabilidade, e – o que se revela ainda mais difícil – a sua contingência. A culpa é resultado da negação do destino e do que nele paradoxalmente há de contingente. É sintoma da pretensão de controle de toda a situação, como se pudéssemos ter domínio completo do destino, não somente nosso, mas também do outro. Como vemos no longa de Almodóvar, o esvair-se da culpa é, antes de tudo, uma entrega à impossibilidade de domínio absoluto sobre a vida.

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