Mano Ferreira - 09 de abril de 2015 às 12H 52M

Um sonho eterno: Borges comenta Kafka

jorge borges

Borges: A comparação entre Kafka e Joyce é uma blasfêmia

O jornal El País, da Espanha, publicou a transcrição de comentários gravados pelo poeta argentino Jorge Luis Borges sobre a obra do escritor tcheco Franz Kafka, autor de obras excepecionais como Metamorfose e O Processo. As considerações de Borges possuem um forte valor documental, tanto por evidenciarem sua admiração por Kafka, como por jogarem luz a determinados elementos da obra do tcheco.

A transcrição original está disponível em espanhol neste link. A seguir, uma tradução para o português elaborada pela equipe do Café Colombo:

Minha primeira recordação de Kafka remonta a 1916, quando decidi aprender o idioma alemão. Antes eu havia tentado com russo, mas fracassei. O alemão me pareceu muito mais fácil e a tarefa foi grata. Eu tinha um dicionário Alemão-Inglês e depois de alguns meses não sei se conseguia entender o que lia, mas podia desfrutar da poesia de alguns autores. Foi então que eu li o primeiro livro de Kafka, que, embora não me lembre exatamente agora, creio que se chamava Onze contos.

Me chamou atenção que Kafka escrevia de modo tão simples que eu mesmo podia entendê-lo, apesar do movimento impressionista, tão importante nessa época, fosse em geral um movimento barroco que brincava com as infinistas possibilidades da lingua alemã. Depois eu tive a oportunidade de ler O Processo e a partir desse momento eu passei a lê-lo continuamente. A diferença essencial com seus contemporâneos e até mesmo com os grandes escritores de outras épocas, como Bernard Shaw e Chesterton, por exemplo, é que com eles se é obrigado a ter referências do ambiente, com os sentidos do tempo e do lugar. É também o caso de Ibsen ou de Dickens.

Kafka, no entanto, tem textos, sobretudo contos, onde se estabelece algo eterno. Podemos ler Kafka e pensar que suas fábulas são tão antigas quanto a história, que seus sonhos foram sonhados por homens de outras épocas, sem necessidade de vinculá-los à Alemanha ou Arábia. O fato de ter escrito um texto que transcende o tempo em que foi escrito é notável. Se pode pensar que escreveu na Pérsia ou na China e aí está o seu valor. E quando Kafka faz referências é profético. O homem que está preso por uma ordem, o homem contra o Estado, esse um de seus temas preferidos.

Franz Kafka (shown here circa 1905) is considered one of the 20th century's most influential writers. Before his death in 1924, he had published only short stories and a single novella, The Metamorphosis.

Kafka para Borges: “Ele tem textos onde estabelece algo de eterno”

Eu traduzi o livro de contos cujo primeiro título é A Transformação e nunca soube por que todo mundo deu pra colocar A Metamarfose. É um absurdo, eu não sei quem inventou de traduzir assim essa palavra do mais simples alemão. Quando eu trabalhei com a obra o editor insistiu em deixar assim porque já se havia feito famosa e já se vinculava a palavra a Kafka. Eu acho que os seus contos são superiores a seus romances. Os romances, além disso, nunca terminam. Tem um número infinito de capítulos, porque seus temas são de um número infinito de aplicações.

Eu gosto mais de seus contos breves e embora não exista agora nenhuma razão para escolher um acima do outro, eu elegeria aquele conto sobre a construção do muro. Eu também escrevi alguns contos em que tentei ambicioso e inutilmente ser Karfka. Esses contos interessaram, mas me dei conta que não havia cumprido meu propósito e que devia buscar um outro caminho. Karka foi tranquilo e até um pouco secreto e eu escolhi ser escandaloso.

Comecei sendo barroco, como todos os jovens escritores, e agora trato de não ser. Tentei também ser anônimo, mas qualquer coisa que se escreve se conhece imediatamente. Kafka não quis publicar muito em vida e mandou destruirem sua obra. Isso me lembra o caso de Virgílio, que também instruiu seus amigos a destruirem a Eneida, inconclusa. A desobediência deles fez com que, felizmente para nós, a obra se conservasse. Eu acredito que nem Virgílio nem Kafka realmente queriam que suas obras fossem destruídas. Ou teriam eles mesmos feito o trabalho. Se eu passo a tarefa para um amigo é um modo de dizer que eu não me faço responsável. Meu pai escreveu muito e queimou tudo antes de morrer.

Kafka foi um dos mairoes autores de toda a literatura. Para mim é o primeiro deste século. Eu estava no centenário de Joyce e quando alguém o comparou a Kafka eu disse que era uma blasfêmia. É que Joyce é importante dentro da lingua inglesa e de suas infinitas possibilidades, mas é intraduzível. No entanto Kafka escreveu em um alemão muito simples e delicado. Ele se importava com a obra, não com a fama – isso é inegável. De todo modo, Kafka, esse sonhador que não queria que seus sonhos fossem conhecidos, agora é parte de um sonho universal que é a memória. Nós sabemos quais são suas datas, qual é sua vida, que é de origem judia e outras coisas. Tudo isso vai ser esquecido, mas seus contos seguirão contando.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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