Mano Ferreira - 17 de dezembro de 2015 às 11H 51M

De volta ao Diario, Carrero amplia espaço da literatura na grande imprensa

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É lugar comum no meio literário ouvir reclamações em função da redução do espaço dedicado à literatura nos grandes jornais do país. A reclamação é mais do que justa, registre-se, mas abrange outros elementos que muitas vezes transcendem a decisão editorial do jornal.

Um ponto importante é que em outras épocas os jornais brasileiros foram marcados por expressiva quantidade e qualidade de jornalistas que produziam em grande nível literário. Nesse sentido, basta citar que figuras como Machado de Assis, Clarice Lispector e Nelson Rodrigues atuaram por vários anos como jornalistas.

pena de aluguelAliás, esse tipo de interseção entre a atividade literária e jornalística foi muito bem explorada no livro Pena de Aluguel, de Cristiane Costa. Seguindo exemplo do grande jornalista e escritor João do Rio, do início do século XX, Cristiane perguntou a 32 jornalistas escritores contemporâneos se o trabalho no jornalismo ajuda ou atrapalha a atividade literária no Brasil. A discussão proposta por João do Rio foi publicada no livro O momento literário, em 1904, e Cristiane reeditou a enquete 100 anos depois, em 2004. Passaram-se já 11 anos, portanto, porém sem macular o valor reflexivo do livro.

Outro aspecto que não deve ser ignorado nessa discussão é a mudança da centralidade cultural, ou seja, o fato de que a literatura foi se tornando menos relevante socialmente com o passar do tempo. Pessoalmente, creio que essa mudança se deve não somente a fatores culturais que refletem mudanças sociais mais profundas – como os avanços tecnológicos, o surgimento das novas mídias e as mudanças no sistema educacional (que ampliou seu alcance sem conseguir manter a qualidade da alfabetização, o que complica a existência de um público leitor consistente) -, mas também à própria produção literária.

Nesse ponto, me refiro não somente ao foco excessivo nas reflexões meta-linguísticas, que podem muito interessar a um público especializado, mas pouco atraem pessoas ainda não habituadas à fruição da arte. Refiro-me mesmo ao contato da literatura com a realidade do país. Vivemos um período político extremamente complexo, com diversas crises sobrepostas e uma contradição simbólica muito profunda entre a esperança de mudança e os insistentes escândalos de corrupção. Nos últimos 20 anos vivemos um fenômeno de grande redução da pobreza – agora já ameaçada por uma nova realidade econômica – ao mesmo tempo em que convivemos com uma média de homicídios superior a grandes guerras, com mais de 50 mil mortos por ano. Quantas obras literárias produzimos sobre isso? Quantas vezes aproveitamos a capacidade reflexiva única da linguagem literária, capaz de traçar dilemas multifacetados, para pensar as sutilezas e contradições do momento social, político ou até mesmo moral vivido pelo país?

Infelizmente eu não recordo nenhum debate nacional suscitado por uma obra literária nesse período. Minha impressão é que os escritores silenciaram sobre nossos problemas, voltaram-se a questões outras, muito particulares. E aqui destaco para não ser mal compreendido: não falo de romances panfletários, que tragam soluções, mas de obras de arte que se conectem com o nosso contexto, que busquem tocar as pessoas através do mundo que compartilhamos.

Nesse contexto, a arte que parece ter mais se aproximado de cumprir essa função foi o cinema, através de filmes como Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite ou Que horas ela volta?, todos geradores de uma reverberação muito superior a qualquer livro literário escrito nesse período. E não podemos deixar de observar que dois dos filmes citados nasceram de adaptações de livros – Estação Carandiru, de Dráuzio Varella, e Elite da Tropa, de André Batista e Rodrigo Pimentel. Só que ambos foram livros de não-ficção, jornalísticos, e não romances.

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E com isso volto a pensar sobre o jornalismo. Qual foi o espaço jornalístico destinado à crítica? Mesmo no caso das obras já citadas que obtiveram mais reverberação social, a grande imprensa escrita parece não ter dado muita importância para a reflexão crítica. E assim a comparação com o passado parece ter que voltar à tona, com a referência inevitável à antiga crítica de rodapé, realizada por figuras como Álvaro Lins, de quem sempre tratamos neste Café Colombo.

É em meio a todo esse contexto que saudamos a inauguração de um novo espaço para Raimundo Carrero no Diario de Pernambuco. Conforme anunciado pelo próprio escritor e jornalista, parceiro de longa data deste Café, a publicação do artigo Elas chegam, agitam e triunfam, sobre a conquista do prêmio São Paulo de Literatura por parte das pernambucanas Débora Ferraz e Micheliny Verunshk, inaugura hoje um espaço semanal para os escritos e reflexões de Carrero. Destacamos um trecho:

Em Enquanto Deus não está olhando, de Débora, a personagem Érica erra em todo espaço romanesco em busca do pai, em meio a monólogos, cartas e diários, num projeto criador em que todas estas vozes criam ritmo e clima. Micheliny optou por uma narrativa muito densa e forte – Nossa Teresa, vida e morte de uma santa suicida – em que um velho músico leitor de Faulkner expõe suas inquietações e dúvidas. Aliás, a escolha do narrador é uma das grandes qualidades de Micheliny.

Temos notado uma gradativa mudança editorial no Diario. Desde a troca de diretoria, o jornal passou a destacar artigos opinativos em sua capa, o que parece dar sinais de uma aposta pela revitalização do jornalismo impresso através de uma ênfase maior na análise. Esperamos que a literatura e a crítica cultural tenham um espaço restaurado nesse novo cenário, de modo a promover um debate público mais intenso e qualificado a respeito das obras. Por isso, um espaço com assinatura de Carrero é animador. Vamos acompanhar.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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