Outros autores - 21 de março de 2017 às 13H 36M

Desumanização da Crítica Literária

A decadência da tradição humanista na crítica coincidiu com o momento em que a teoria literária se arvorou a ser crítica literária, e acabou muitas vezes tomando seu espaço e negando sua legitimidade

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O filósofo e linguista búlgaro radicado em Paris Tzevetan Todorov

Por Eduardo Cesar Maia

A busca por uma definição unívoca de crítica é problemática porque a “natureza” e o sentido de um texto crítico estão diretamente ligados não ao que determina uma teoria x ou y, mas aos seus usos contingentes e particulares. A crítica, portanto, é uma nomenclatura aplicada a procedimentos bastante diversos e, por vezes, contraditórios em seus desígnios. Historicamente, em função, por um lado, das demandas dos meios públicos de divulgação desse gênero textual (revistas e jornais que divulgam esse tipo de texto para o grande público) e, por outro, dos modismos intelectuais e das influências filosóficas e acadêmicas de cada época, a atividade do crítico é considerada de forma particular e assume pressupostos e objetivos diferentes.

Qualquer definição essencialista ou dogmática de crítica literária não leva em consideração o fato incontornável de que a crítica, antes do que uma teoria, é uma prática e, como todas as atividades humanas, desenvolve-se numa dinâmica histórica de acordo com necessidades e demandas circunstanciais e contingentes. A crítica, como a própria literatura, não é, mas se faz. Quer dizer, a partir desse ponto de vista, a questão da crítica se apresenta não como uma problemática abstrata, uma busca obsessiva por definições  últimas, baseada em disjuntivas teóricas, mas como uma série de práticas reais, com seus objetivos específicos. Há demasiadas classes diferentes de crítica, com finalidades completamente distintas, para que exista a possibilidade de se construir uma teoria geral e última, que dê conta de todas elas de forma satisfatória. E se existem diferentes classes de crítica é porque há demandas diversas – necessidades humanas distintas – relacionadas com o trabalho crítico. Uma simples observação de um fato bastante evidente pode esclarecer a questão. Note-se, por exemplo, a fundamental diferença existente entre os objetivos e métodos de um crítico acadêmico que escreve uma dissertação; de um resenhista de livros que trabalha com os limites de tempo e espaço do jornalismo contemporâneo; de um blogueiro que deixa suas impressões sobre os livros que lê em sua página pessoal na internet; de um ensaísta que publica em revistas especializadas ou de um crítico de jornal que possui uma coluna semanal – todos eles obedecem a diferentes impulsos, e cumprem papéis distintos, têm objetivos particulares e estabelecem uma relação própria com os textos literários.

O pluralismo e a polissemia do termo “crítica”, portanto, não é nada mais do que uma constatação – não se trata de norma ou prescrição. O que me parece importante hoje é discutir sob quais formas a crítica literária e cultural pode assumir funções relevantes no debate público de ideias. Por isso endosso a importância de entender o real alcance da velha (e plural) tradição humanista e repensá-la para nosso tempo.

Uma ciência da literatura?

De forma especial no século XX, um tipo de discussão conceitual preocupada em definir claramente o âmbito próprio da crítica e da teoria literárias (seus métodos, sua linguagem própria, seus objetivos, etc.) tomou proporções mais gerais devido à estreita relação que se estabeleceu entre a nova e inovadora teoria literária e algumas correntes linguísticas, filosóficas, sociológicas e psicanalíticas que dominavam o ambiente acadêmico, principalmente em países como Rússia, França, Inglaterra e Estados Unidos. Dessa relação – e de forma diferente em cada caso – renasceu a pretensão de se criar uma ciência da literatura, dotada de metodologia rigorosa e de terminologia conceitual nova, comparável a das chamadas ciências naturais ou exatas, o que acabou por estigmatizar as formas de crítica tradicionais – entre elas a tradição crítica humanista.

O escritor e crítico literário Antoine Compagnon

O escritor e crítico literário Antoine Compagnon

Existe uma semelhança interessante e significativa entre as aspirações universalistas e objetivistas da tradição filosófica racionalista e certas proposições advindas das principais correntes de teoria literária que se desenvolveram no século passado, principalmente no sentido de que assumiam o objetivo de serem discursos fundamentadores. Enquanto a filosofia racionalista buscava abandonar a esfera do meramente sensível, do transitório e contingente e chegar à palavra definitiva – ao conhecimento pleno da realidade em sua essência, substituindo a opinião pelo conhecimento racionalmente fundamentado –, as primeiras grandes correntes da teoria literária pretendiam funcionar como metodologias metacríticas, quer dizer, tentavam ser uma espécie de fundamentação e servir como meio de legitimação intelectual da crítica e do conhecimento literários. Tal concepção – de teoria como metacrítica – pode levar a excessos perigosos: é como se houvesse um lugar superior de onde o teórico pudesse avaliar de forma isenta as manifestações críticas singulares e concretas, funcionando como uma espécie de tribunal da razão crítica.

É justamente nessa pretensão que acreditamos se encontrar a primeira importante divergência entre a filosofia racionalista tradicional (e algumas correntes de teoria literária em seu encalço) e a tradição intelectual humanista. Para Antoine Compagnon, autor de O demônio da teoria, o fim do humanismo na crítica literária teria ocorrido exatamente no momento em que a teoria literária se arvorou a ser crítica literária, e acabou muitas vezes tomando seu espaço e negando sua legitimidade.

Não é meu objetivo aqui fazer uma análise crítica detalhada de cada uma dessas correntes teóricas ou de seus representantes; e nem, por outro lado, desconsiderar a importância e os enormes ganhos advindos do desenvolvimento das diversas correntes da teoria da literatura para os estudos literários e para o âmbito das ciências humanas em geral. A intenção é simplesmente, a partir da apresentação de exemplos esparsos que me parecem relevantes, refletir sobre alguns momentos em que a tendência de radicalização dogmática do discurso teórico gerou um fenômeno que poderíamos chamar de “desumanização da crítica”: ou seja, um confronto direto e, muitas vezes, deliberado e consciente, com a tradição e os valores do humanismo.

Crise das concepções tradicionais da crítica

Os primeiros grandes projetos de ruptura com o discurso da crítica literária tradicional, ou seja, as linhas principais de ascendência do que viria a ser o discurso teórico que predominaria durante boa parte do século XX, começaram pela revalorização e reinterpretação do Curso de linguística geral, de Ferdinand Saussure e pela difusão do Formalismo Russo e do Estruturalismo da Escola de Praga. As diversas correntes teóricas, desde o já citado Formalismo Russo, passando pelo New Criticism, os diversos Estruturalismos, a Semiótica, a Fenomenologia, a Teoria da Recepção, o Pós-estruturalismo e, dentro deste, o projeto ou estratégia Desconstrucionista, além dos Estudos Culturais, marcaram o ambiente intelectual das Humanidades no século passado e algumas delas continuam exercendo influência no pensamento literário até nossos dias.

As primeiras correntes mencionadas, inspiradas (e muitas vezes fundamentadas) pelo desenvolvimento exitoso no seio das ciências humanas  de grandes e pretensiosas teorias gerais, como a Linguística (pós) saussureana, a Teoria Psicanalítica e o Marxismo, propuseram-se a estabelecer um novo paradigma para a crítica literária baseado num rigor metodológico e terminológico que garantiriam, segundo esses mesmo teóricos, interpretações mais objetivas e científicas do que aquelas proporcionadas pela crítica tradicional, considerada por eles como simples impressionismo carente de métodos válidos. Para esses teóricos, o diletantismo e amadorismo pré-teórico pré-teórico da crítica humanista deveria ser suplantado por novas metodologias analíticas especializadas e através da construção de um vocabulário teórico renovado. Uma característica comum a várias dessas correntes teóricas era, portanto, a propensão ao abandono do vocabulário comum da crítica tradicional (muito próxima da linguagem corrente) em troca do uso de uma terminologia especializada que caracterizasse uma linguagem propriamente científica, que ultrapassasse o uso linguístico contingente e histórico da velha crítica humanista. Cabe aqui uma analogia entre essa tendência – presente em diversas correntes de teoria literária – de busca por um vocabulário técnico especial (muitas vezes esotérico e deliberadamente hermético) e as pretensões da filosofia racionalista tradicional no sentido de encontrar uma linguagem perfeita, distinta e distante do vocabulário comum, que represente fielmente – como um espelho – a realidade. Ambas as tendências – da teoria literária e da filosofia racionalista –, cada uma a sua maneira, pressupõem um afastamento do ideal humanista da busca do conhecimento através do diálogo entre os indivíduos. A crítica literária pensada como ação humana – com finalidades próximas e atentas às demandas da vida comum – é a que se aproxima da proposta edificante da tradição humanista, que diverge frontalmente da tendência teórica ao monólogo intelectual afastado da experiência existencial concreta. De fato, a teoria literária muitas vezes pareceu querer estar acima das contingências e das perspectivas, tentando propor uma visão sub specie aeternitatis (sob a perspectiva da eternidade), emulando as pretensões da filosofia racionalista as que aludi anteriormente.

Em particular, a crítica de inspiração estruturalista se caracterizou pelo uso excessivo de jargões e por transportar termos e metodologias de diferentes campos da ciência para o uso literário. Segundo Raman Selden, a tradição estruturalista foi a mais resistente à identificação com o humanismo; foi um tipo de ‘anti-humanismo’ teorético, um rompimento consciente a crítica anterior. O autor, portanto, considera que correntes teóricas precedentes, como o Formalismo Russo e o New Criticism, forneceram os subsídios para o advento da Era Teórica dos estudos literários, mas o Estruturalismo é que marcaria a verdadeira e radical ruptura. Claro que essas generalizações acadêmicas não significam que não houve resistência em vários âmbitos ao discurso da teoria literária. No Brasil, por exemplo, em um texto conhecido e bastante polêmico – O estruturalismo dos pobres –, José Guilherme Merquior pôs em ridículo alguns autores canônicos da “seita” estruturalista (“São Greimas, São Todorov, São Genette et caterva”) e desancou a apropriação tupiniquim do método estrutural: “Graças ao ‘estruturalismo’ no seio das humanidades estrepitosamente tornadas ‘científicas’, vinga e prospera o mais franco terrorismo terminológico. A seu lado, todavia, pontifica um não menor ‘terrorismo metodológico’ (Starobinski); a nova crítica, por exemplo, se alimenta do mito do Modelo mecanicamente aplicável”.

No poema “Exorcismo”, o poeta Carlos Drummond de Andrade, no auge da onda estruturalista nos departamentos de Teoria da Literatura das principais universidades brasileiras, também demonstrou sua, digamos, impaciência, com os tecnicismos metodológicos e com o vocabulário, no mínimo, exótico dos teóricos da moda. Destaco somente uma estrofe: “Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchomock/ De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser/ e Zolkiewsky, Jakobson, Barthes, Derrida, Todorov/ De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterva/ Libera nos, Domine”. A crítica do poeta mineiro atinge, como se vê, os principais teóricos da época, que já então eram considerados verdadeiros gurus pelos professores universitários brasileiros. Não se pense, contudo, que a obscuridade deliberada e a excentricidade vocabular são características exclusivas de teorias formalistas e estruturalistas que já ficaram para trás, e muito menos que essa é uma problemática superada no âmbito das humanidades. Nesse sentido, basta mencionar os principais nomes da tradição pós-estruturalista, e o polêmico Caso Sokal, ocorrido em 1996.

Além da construção de uma linguagem própria e especializada, outro atributo marcante das propostas teóricas a que nos referimos foi, justamente, a valorização de metodologias críticas rígidas – em oposição direta ao elemento impressionista e personalista da crítica tradicional (ou a qualquer manifestação da perspectiva individual no ato crítico). Subordinava-se, desta maneira, o crítico ao método, ou melhor, a uma aplicação quase mecânica das metodologias estabelecidas. Prescindia-se também, pois, da erudição literária, tão cara aos críticos humanistas, no sentido da valorização de um conhecimento amplo da história da literatura, da tradição e do cânone literários; e, por outro lado, a teoria dispensava ainda qualquer aproximação “intuitiva e ametódica”, por parte do crítico. Enfim, o afã cientificista demandava uma atitude extremista de ruptura com as metodologias e pressuposições da crítica tradicional. Famoso representante do Formalismo Russo, Boris Eichenbaum (1886–1959) deixou claro o propósito do movimento: “A história nos pedia um verdadeiro pathos revolucionário, teses categóricas, ironias sem piedade […]. O que importava era opor os princípios estéticos subjetivos que inspiravam os simbolistas em suas obras teóricas contra nossa exigência de uma atitude científica e objetiva vinculada aos fatos”.

Saussure havia proposto que o estudo científico da Linguística deveria se ocupar somente da Langue (língua), e prescindir completamente da Parole (a fala, ou seja, a manifestação particular desse sistema no ato real e concreto de comunicação). A abordagem linguística (saussuriana) da crítica literária, considerada científica na medida em que se enclausurava dentro dos muros de suas próprias normativas disciplinares, ao se limitar à abordagem estrutural, isolou e depurou a linguagem de sua dimensão social, desvirtuando profundamente o fenômeno linguístico. A aplicação esquemática dos estudos linguísticos à crítica literária não levava em consideração o fato de que o âmbito do literário é aquele em que nos deparamos com a linguagem viva, criando-se: propondo e destruindo significados. Como uma teoria da literatura que se pretendia geral só dava conta de um dos seus aspectos isoladamente? Obviamente, essa abordagem trouxe descobrimentos, perspectivas novas e análises pertinentes; mas não se tratava, na verdade, de uma Teoria da Literatura, senão de uma Teoria Linguística da Literatura, assim como podemos nos referir a uma teoria psicanalista ou marxista da literatura; mas com a reserva de que elas só são compreensíveis dentro de seu próprio sistema e não observam tudo, só a parte que as interessa. Eram só perspectivas, portanto, mas supunham-se verdades universais: explicações monistas e totais da realidade literária.

As correntes fenomenológicas e hermenêuticas de teoria literária, em suas bases filosóficas, por sua vez, conformam uma visão teórica à parte para os propósitos críticos deste ensaio, justamente por conservarem, em parte, valores essenciais à tradição humanista. Apesar de ambas partirem da contribuição fundamental da filosofia da existência heideggeriana, que polemizou e estabeleceu um confronto direto com o humanismo filosófico, acabaram sendo, na prática, uns dos últimos redutos teóricos que referendam certos aspectos da tradição humanista, principalmente pelo fato de que, diferentemente do Estruturalismo (que entendia a linguagem como um sistema), compreendiam que o fenômeno linguístico só poderia ser entendido a partir da consideração concreta de uma situação existencial, da valorização da perspectiva humana individual. Influenciada diretamente pela hermenêutica gadameriana, a Teoria da Recepção, por exemplo, de Robert Jauss e Wolfgang Iser (O ato da leitura: uma teoria do efeito estético), baseia-se fundamentalmente na experiência humana do leitor. Sob a influência da fenomenologia de Roman Ingarden, esses teóricos falavam da “concretização” da leitura por parte do leitor: para eles, a obra de arte só adquire existência entre o sujeito e o objeto.

As abordagens teóricas contemporâneas

Atualmente, o Pós-estruturalismo (em particular em sua vertente desconstrucionista) e os Estudos Culturais – ambos fenômenos teóricos bastante plurais – mantêm a hegemonia acadêmica no âmbito dos estudos literários e chegaram a superar muitos dos problemas de suas teorias predecessoras, principalmente no sentido de que já não assumem as mesmas pretensões de chegar a definições essencialistas e universalistas sobre o que é ou não é “literário”, e já não prometem critérios objetivistas e cientificistas para a interpretação das obras literárias. Mas essa reviravolta teórica não significou, necessariamente, uma revalorização de características humanistas nos estudos literários. Terry Eagleton sintetiza bem os novos caminhos da teoria: “A chegada da Desconstrução dava esperanças de uma certa resolução provisória dos problemas da crítica […]. E é que, em uma manobra estrategicamente admirável, este movimento era ao mesmo tempo anticientificista e antissujeito, de maneira que constituía de certo modo uma posição ideal para aqueles que, desencantados com as pretensões metafísicas do alto Estruturalismo, continuavam apreciando seu anti-humanismo. Agora sim era possível renunciar ao humanismo liberal, ao humanismo radical e ao cientificismo numa só tacada”.

Os atuais representantes dos chamados Estudos Culturais – empreendimento teórico originado exatamente a partir do redimensionamento disciplinar possibilitado pelo desenvolvimento e pela revisão crítica de diversas perspectivas teóricas – talvez pudessem argumentar no sentido de que a busca por uma abordagem integradora e interdisciplinar – cara à tradição humanista – é justamente uma das preocupações centrais da linha de investigação em que eles se inserem. Sem contestar a validez desse argumento, cabe aqui enfatizar que também os Cultural Studies muitas vezes repetem certos vícios dogmáticos já mencionados nestas páginas, principalmente os de tipo ideológico.

O artista russo/alemão/francês Wassily Kandiski

O artista russo/alemão/francês Wassily Kandiski 

Assim, a politização excessiva dos estudos literários, muitas vezes baseada em considerações completamente alheias ao entendimento da literatura como fenômeno artístico, é coisa bastante recorrente nesse tipo de investigação: basta com averiguar a quantidade de trabalhos acadêmicos desse viés que nem ao menos estabelecem qualquer relação com obras literárias concretas, pois se apoiam em critérios exclusivamente ideológicos para a escolha de seus temas – de preferência a defesa de causas politicamente corretas, progressistas e emancipacionistas. A perspectiva dos Estudos Culturais, principalmente nos Estados Unidos, portanto, segue a tendência teórica pós-estruturalista e pós-moderna de subsumir a crítica e a teoria literária em uma teoria geral do discurso a partir de uma relativização geral do cânone e da história da literatura. Paradoxalmente, a tradição literária passa a ser vista, assim, como inimiga dos estudos literários.

Em se tratando de arte, a ideologia nunca deve servir como explicação total, mesmo que seja parte importante da concepção do artista. A densidade e complexidade de um bom romance, por exemplo, transcende a mera tentativa exclusivamente persuasiva de qualquer discurso ideológico que, por natureza, crê-se portador de “verdades universais”.

Repensar o humanismo crítico para nosso tempo

Um equívoco básico de alguns dos discursos teóricos mencionados neste ensaio foi o de presumir que o objetivo primeiro da crítica é buscar a verdadeira interpretação, a verdade última sobre as obras. A estreiteza dessa concepção contaminou as teorias literárias com a ideia de que, com uma metodologia correta de análise literária – de pretensão científica – o problema da literatura estaria resolvido. A crítica, felizmente, ultrapassa em muito esse pontual objetivo. O problema central da crítica literária não é a busca de uma metodologia que garanta a descoberta de certezas e de verdades objetivas a respeito de textos literários; o trabalho do crítico relaciona-se, de forma mais essencial, com a busca de verdades intersubjetivas – moderadas, provisórias e negociadas dialogicamente: o desenvolvimento e a ampliação da imaginação literária não é uma questão de acumular resultados. A crítica humanista é aquela que depreende da obra literária uma visão integral da cultura e, ao mesmo tempo, afirma, dentro do ambiente que a produz ou a influi, a singularidade do homem. Um Humanismo para nosso tempo começa pelo reconhecimento de que a cultura, a linguagem, a filosofia e, obviamente, a crítica literária são respostas às necessidades humanas, aos problemas da vida humana (do homem real, concreto e efetivo, e não o homem abstrato, idealizado); e parte também do reconhecimento da linguagem como âmbito primeiro para se conhecer este homem. A questão do uso contingente da palavra é, portanto, ponto central da reflexão humanista: é a primeira forma que o homem encontra para responder às suas carências; é o meio de expressar sua humanidade e sua visão particular de suas circunstâncias. Um crítico de orientação humanista, nos dias de hoje, é aquele que, por prudência e reconhecimento do caráter radicalmente contingente de sua atividade, recusa-se a adotar preceitos universais, disjunções absolutas, teorias totalizantes e qualquer forma de monismo metodológico.

Devemos partir do entendimento de que a literatura não tem um propósito fixo e imutável: ela participa do jogo social em que todos os propósitos estão em contínua redefinição. A crítica não deve ser nunca uma simples operação mecânica, uma mera aplicação fria de qualquer teoria. O bom crítico vai além da obra, pois ao relacionar a obra com o real ele abre o campo a possibilidades infinitas (e talvez mais instigantes) de análise, pois o real é mais complexo do que qualquer obra ou qualquer teoria. Um bom crítico é, enfim, um arguto e criativo intérprete do mundo. E a boa crítica pode ser compreendida, assim, como a arte de encontrar o que não está exatamente no livro, pois o que um livro pode nos dizer depende fundamentalmente do tipo de perguntas que somos capazes de fazer.

As teorias são construções intelectuais proveitosas e saudáveis quando se reconhecem como perspectivas possíveis de interpretação, mas podem se tornar ilusórias, falazes e autoritárias quando têm a pretensão de assumirem um lugar privilegiado de avaliação crítica, substituindo as outras perspectivas e negando a validez das demais manifestações da crítica literária. A partir de um ponto de vista humanista, o crítico não necessita apresentar certezas últimas, mas deve propor valores, ainda que saibamos que nunca chegaremos a um consenso universal sobre eles. E é em épocas de radical desorientação dos valores, como parece ser a nossa, que o papel do crítico adquire maior relevo. É hora, pois, de se repensar o humanismo a partir da aceitação da contingência e da precariedade inerente à condição humana.

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