Outros autores - 17 de maio de 2017 às 00H 01M

Dilma e Goulart: o paradoxo dos presidentes zumbis

DF - CONCESSÕES/PACOTE/DILMA ROUSSEFF - POLÍTICA - A presidente Dilma Rousseff, e o vice-presidente Michel Temer na cerimônia de anúncio da nova etapa do Programa de Investimento em Logística, no Palácio do Planalto em Brasília.  09/06/2015 - Foto: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO

Por Gustavo Alonso

Em 1964 houve golpe. Em 2016 houve golpe. 53 anos atrás houve um presidente que foi derrubado e ninguém quis levá-lo de volta ao poder. Ano passado uma presidente caiu e até hoje ninguém parece querer que ela volte ao poder.

Não se buscará, nos limites deste breve artigo, entrar no debate existencial de nosso tempo: foi ou não foi golpe o que sofreu Dilma Vana Roussef? Este dilema, que nos demanda uma (e apenas uma) resposta clara e imediata a uma questão bastante complexa, vem nos cegando para um dos paradoxos mais intrigantes de nossa época: o paradoxo do zumbi. Dilma possui dois corpos, um mitológico e bastante vivo, embora impalpável, que serve para legitimar a contranarrativa do golpe; e outro semimorto, que ninguém quer enterrar. É algo muito parecido com que viveu João Goulart.

Se Dilma sofreu um golpe, por que não vale a pena lutar para que ela própria volte a ocupar a presidência? Ninguém parece querê-lo. Nem as esquerdas. Desde o crescimento das ameaças a sua prisão, a recandidatura do ex-presidente Lula vem se tornando cada vez mais palpável. E Dilma foi escanteada de vez. Ao mesmo tempo, Dilma não pode ser enterrada de vez, pois continua por aí, moribunda como um zumbi, sendo um sinal do apocalipse golpista. Há uma utilidade em seu corpo peripatético: ela serve para as esquerdas comprovarem que houve golpe. E só. Não se cogita nem que seja vice de Lula em 2018, que provavelmente fará novamente seus pactos com o empresariado, como em 2002, ou quiçá ousará um pacto com o setor financeiro ou com as empreiteiras, tão prestigiados em seu governo. Dilma jamais. Ela poderia ainda ser vice de um partido de esquerda, como o atual PDT do presidenciável Ciro Gomes, mas isso tampouco é especulado. PSOL tampouco ousou defender a golpeada a ponto de abraçá-la fraternalmente em uma candidatura em 2018. Ninguém quer abraçá-la de verdade, honrando sua trajetória golpeada.

O curioso é que não se trata de uma especificidade das lideranças partidárias das esquerdas. Tampouco as diversas militâncias à esquerda, críticas ou não ao PT, parecem querer levar Dilma de volta ao poder, como seria muito digno. Vale um pouco de história para percebermos que esse paradoxo do presidente golpeado não é novo. Alguns outros zumbis vagaram por nossa história e o caso presidencial mais emblemático é o de João Goulart.

Quando foi derrubado, em 1964, Goulart estava isolado. Tinha tentado, no ano anterior, reformular com as direitas a aliança capital-trabalho, herança fundamental do desenvolvimentismo trabalhista varguista. Não teve sucesso em grande parte devido às intransigências das direitas nacionais, enlouquecidas com a paranoia do discurso anticomunista e temerosas com a possibilidade de reformas de fato estruturais.

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João Goulart, 24º presidente da história do Brasil, de 1961 a 1964

Neste momento Goulart foi achincalhado pelas esquerdas, cada vez mais radicalizadas nas ruas, campos e construções. Os sargentos, os camponeses, as lideranças partidárias, sindicalistas, os trabalhadores, enfim, as ruas e esquinas à esquerda queriam as reformas “na lei ou na marra”, como se dizia na época. Não haveria mais margem para negociação. Uma parte da esquerda, é sempre bom lembrar, empolgada por esse acirramento, começou a luta armada aí. Dissidências do PCB já ousavam práticas revolucionárias da luta armada. Os sargentos e marinheiros se empolgavam com a militância armada, chegando, os primeiros, a cercar Brasília, em 1963, para verem efetivadas as suas demandas.

A partir de 1964, Goulart percebeu que o tradicional pacto reformista com as direitas não fluía. Resolveu então se reaproximar das esquerdas que, por sua vez, não queriam mais muita conversa com um governo “compactuador” e “reformista”, preferindo desestabilizar o trabalhismo histórico representado pelo fazendeiro João Goulart. Parte considerável das esquerdas aderiu a aventuras maiores, capazes de, pela radicalidade, instaurar as mudanças tão necessárias à sociedade brasileira.

Caso paradigmático foi a postura de Leonel Brizola, então cunhado de Goulart, que apelidou o presidente de “o belo Antonio”, personagem de famoso filme italiano de 1960 que, embora muito bonito e desejado, era sexualmente impotente. Nos bastidores, fazendo eco ao crescente militarismo das direitas, as esquerdas também se armavam e Brizola organizava por todo Brasil os chamados “grupo dos onze”, célula guerrilheira que deveria se encarregar da resistência em caso de golpe ou das reformas “na marra”, como advogava o político gaúcho. Lideranças das Ligas Camponesas, como Francisco Julião em Pernambuco, também iam subindo o tom dos embates, aproximando-se perigosamente do rompimento insurrecional. A radicalidade ia tomando os corações de direitas e esquerdas e poucos eram aqueles que ousavam defender a institucionalidade e a democracia. Quase todos queriam muito e muito rápido. No final, o desastroso resultado de todos esses radicalismos todos conhecemos.

E, no meio dessa radicalização, Goulart foi se tornando um zumbi. Não era mais necessário um pactuador. O apadrinhado de Vargas foi se isolando politicamente, atacado pelas direitas, crescentemente ignorado pelas esquerdas. E veio o golpe. As direitas conservadoras e os liberais (malgrado o paradoxo desta contradição liberal) se uniram num golpe sem disfarce e o presidente foi apeado do poder. Não houve resistência por parte do presidente. Tampouco as esquerdas que defendiam as mudanças estruturais “na marra”, conseguiram sair do espanto inicial e resistir imediatamente. Exilado, Goulart viveu as agruras de se tornar um morto-vivo. Brizola, seu cunhado, brigou de vez com o ex-presidente, que julgava “fraco”. As ousadas esquerdas do pré-64 se radicalizaram ainda mais e caíram de cabeça na luta armada. E praticamente ninguém queria a volta de João Goulart. O que se buscava por meio da luta armada era um Brasil “revolucionário”, que implantasse um governo nacionalista, para alguns, ou comunista, para outros, ou mistura variadas dessas duas vertentes. De toda forma, Goulart, um trabalhista negociador, mediador, reformista e hábil compactuador de interesses, esse ninguém queria.

Goulart viveu o exílio como um zumbi. Era um nome de que todos lembravam, mas ninguém queria de volta. Era preciso lembrar-se dele pois era preciso demarcar que de fato houve golpe e alguém tinha sido golpeado. Goulart era apenas um símbolo, mito da resistência que não houve, fraca lembrança da democracia golpeada. Mas, para grande parte das esquerdas, a “verdadeira democracia” ainda estava por vir e o ex-presidente, símbolo da “velha democracia burguesa”, “compactuadora” e “vendida”, não deveria retornar jamais. Ele nunca retornou. Morreu exilado, amargurado, politicamente isolado.

Dilma ainda é cortejada, com frequência aparece nas mídias, ainda é ouvida. Mas sempre em seu discurso monocórdio de símbolo da legalidade traída. E só. Nem ela mesma parece querer voltar ao poder do qual foi defenestrada. Transformou-se, assim como Goulart um ano depois do golpe, num zumbi, símbolo ao mesmo tempo mitologizado e necessário para as esquerdas, mas que ninguém quer que volte a viver. O que nos leva a se perguntar se o que vivemos foi um golpe de fato, já que poucos parecem querer fazer valer as consequências lógicas da resistência a um golpe. Resistir é querer de volta aquele que foi alijado, expulso do poder.

Goulart queria retornar, mas as esquerdas não o queriam. Dilma parece não querer retornar e tampouco a querem de volta. Na época de Goulart, ele era o símbolo mais evidente do varguismo. Papai Vargas já havia morrido havia dez anos quando do golpe de 1964, e não havia mais a intromissão física do criador do trabalhismo histórico. Mesmo sendo o “herdeiro de Vargas”, ou talvez por isso mesmo, João Goulart não era mais interessante às esquerdas radicalizadas dos anos de 1960. Na época de Dilma, a intromissão de pai Lula é determinante. Ele atua enfaticamente nos destinos das esquerdas e parece ser ouvido sem grandes questionamentos por quase todos, sobretudo quando o argumento do apocalipse golpista é elencado.

O que será de nós quando esta voz não mais puder ser ouvida? É de se desejar que isso seja libertador. Mas quem é, entre as esquerdas, capaz de querê-lo? O angustiante é que Dilma parece seguir complacente e alinhada às hostes do chefe, como sempre se colocou, resignando-se com sua morte política insepulta. E quase ninguém vê isso como um problema. Ainda não nos livramos do pai. Vivemos uma época de zumbis.

Gustavo Alonso é professor do Departamento de Comunicação da UFPE/Pólo Caruaru-PE. Autor de Simonal: quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga (Record, 2011) e Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira (Civilização Brasileira, 2015).

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