Outros autores - 04 de outubro de 2018 às 11H 57M

Do tropel de paixões, que me arrastavam…

Jessé_de_Souza (1)Jessé Souza, sociólogo e autor de “A elite do atraso”

Por Josias de Paula Jr.

Paulo Francis afirmou, em O Brasil no mundo (1985), ainda na fase da transição democrática, que a história brasileira oscilava entre populismo e militarismo. A despeito do valor do livro do velho polemista, ele errou ao não atacar a grande estrutura que alimenta nosso subdesenvolvimento: o patrimonialismo. Um patrimonialismo mantenedor de miséria, contudo, é um regime que possui dificuldades em sua legitimação, porquanto é um patrimonialismo cuja operação requer a constante do populismo: a forma suprema do encantamento político, a manipulação segura das massas. O populista brasileiro pode ou não se apresentar em versão militarista. O militarismo, em outras palavras, não exclui o populismo.

Entretanto o tema carece da atenção devida. Para além das formulações clássicas de Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Simon Schwatzman, as análises acerca do nosso traço patrimonial são escassas e pouco debatidas. A importante escola uspiana de sociologia, com sua tradição de interpretações da realidade brasileira sob o registro da dinâmica das classes sociais, tampouco consegue articular solidamente seu viés marxista com a explicação do processo patrimonialista. Para piorar, nos últimos anos, a ênfase no patrimonialismo tem sido criticada como suposta distorção de uma “elite do atraso”.

Esse é o título do livro de Jessé Souza – A Elite do atraso. A obra é um amontoado de argumentações confusas, de senso comum. Pode-se tê-la, sem forçar, como um textão de Facebook alentado. Estão lá os vilões de sempre: o imperialismo, a Globo, “as elites”, a “classe média”, etc. As conexões que o autor faz segue, por exemplo, trilhas tão sinuosas que assimila o tenentismo com o movimento de impeachment de Dilma Roussef. Em resumo, o livro de Jessé muita vez parece ter sido escrito por método psicográfico, numa arenga mediúnica entre Brizola e José Ramos Tinhorão. Mas foi tido e havido, entre intelectuais da esquerda, como uma grande contribuição. E no cerne dessa grande contribuição está o rebaixamento explicativo do patrimonialismo, conceituado irresponsavelmente como um mero recurso ideológico das elites liberais contra a importância do Estado.

A verdade, contudo, está bem longe dessa simplificação. Desde Getúlio Vargas até aqui, para dar um corte temporal, as evidências do conluio entre grupos econômicos, setores da burocracia e as oligarquias políticas são evidentes e documentadas. A Lava Jato, com seus erros e acertos, teve a virtude de escancarar o modus operandi do funcionamento patrimonialista. Bilhões de reais distribuídos a grupos amigos, em troca de sustentação político-financeira mediante doações eleitorais. Bilhões cujo destino, politicamente falando, foi a formação de um condomínio de poder, capitaneado por um partido

hegemônico, aliado com as oligarquias mais retrógradas do país. Pelo lado econômico, o apadrinhamento resulta em ineficiência, fortalecimento de cartéis, travando a lógica concorrencial. O que resulta, para a sociedade, em assistir seus recursos sendo desviados para interesses privatistas, com obras públicas superfaturadas, atrasadas até chegar a conta dos malabarismos fiscais.

Tudo isso ocorreu, como sabemos, durante a longa década do PT no poder. O PT renovou e exponenciou o patrimonialismo no Brasil. Os liberais não foram e não são a favor do jeito petista de governar. Já Jessé o é. Emblemático no caso do período petista, é que o pacto patrimonial erguido pelo partido ruiu sob as mãos de Dilma, a personificação do anti-carisma. Quando acabou o dinheiro para continuar nas aventuras populistas, faltava-lhe também a força messiânica, a qual transbordava em Lula. Lula usa unicamente a emoção como arma política: suscitar o amor a ele – o líder, e o ódio aos adversários.

Quando muitos pensavam que teríamos uma eleição presidencial mais racional, após o impeachment, eis que vemos o mais medíocre dos pleitos nacionais desde a redemocratização. Uma algaravia tosca, despolitizadora, polarizada entre Jair Bolsonaro (o populista militarista), nosso novo Floriano Peixoto e Lula. Ambos os lados retroalimentando a intolerância mútua. Continuamos, os brasileiros, presos ao personalismo, ao emocionalismo, ao messianismo, à espera de rupturas salvadoras. Tudo isto é oposto ao apego racional, desencantado, institucionalista e plural do liberalismo. Solo infértil, tem sido o Brasil, às ideias liberais.

O título deste texto, um verso do poema “Contrição”, de Bocage, parece encerrar nosso percurso histórico como nação até aqui. Parece que ecoamos coletivamente, reiteradamente, a oração de Santo Agostinho, quando jovem e ainda antes da conversão: “Senhor, conceda-me a castidade e a continência, mas não agora”. E seguimos incontinente a esperar o novo messias populista, que falsamente pontificará sobre os problemas todos, com o auxílio luxuoso das elites patrimoniais do atraso de sempre.

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