Mano Ferreira - 25 de agosto de 2015 às 09H 10M

Há 54 anos, Jânio renunciava à presidência. Ato será repetido?

Jânio Quadros chega em São Paulo, logo após anunciar sua renúncia à presidência da República, em agosto de 1961

Jânio Quadros chega em São Paulo, logo após anunciar sua renúncia à presidência da República, em agosto de 1961

Jânio Quadros exerceu a presidência da República brasileira sucedendo o famoso Juscelino Kubitschek, de 31 de janeiro de 1961 a 25 de agosto do mesmo ano. O período tão curto se deve à carta de renúncia enviada ao Congresso Nacional há exatos 54 anos. Na época, a atitude foi atribuída a “pressão de forças ocultas” e o próprio Jânio afirmou que a renúncia se configurava como um ato de coragem.

Carta renúncia de Jânio. Teremos outra em breve?

Carta renúncia de Jânio. Teremos outra em breve?

A lembrança é especialmente interessante nesse momento em que a Presidente Dilma Rousseff sofre com recordes de impopularidade, atravessa uma grave crise econômica e tenta se equilibrar sobre um gigantesco penhasco de corrupção. Para completar o cenário, diversos políticos importantes, a exemplo do senador Jarbas Vasconcelos e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, já pediram publicamente que ela repita o ato de Jânio e deixe a presidência antes do término do mandato. Também vale menção a troca de farpas entre o vice-governador de Pernambuco, Raul Henry, que afirmou não vislumbrar em Dilma a coragem suficiente para a renúncia, e o deputado federal Silvio Costa, vice-lider do governo na Câmara, para quem é justamente por ter coragem que Dilma não renunciará.

Vale acrescentar que apesar da referência histórica ao ato de Jânio ser inevitável, as diferenças contextuais entre os casos são enormes. As cobranças sobre Dilma são tão evidentes quanto o grito de cententas de milhares de manifestantes nas ruas. As dificuldades são amplamente conhecidas por todos os brasileiros. E a única figura oculta nesses tempos é o inesquecível cachorro atrás.

Após deixar a presidência, Jânio retomou sua carreira política e foi eleito prefeito de São Paulo em 1986, sucedendo a Mário Covas. Esse talvez seja outro contraste importante: quem imagina, hoje, que Dilma (nunca eleita vereadora) continue a sua carreira política e assuma outro cargo eletivo após deixar a presidência?

De todo modo, vale resgatar a histórica carta de razões entregue por Jânio ao seu então ministro da Justiça Oscar Pedroso Horta:

“Fui vencido pela reação e, assim, deixo o Governo. Nestes sete meses, cumpri meu dever. Tenho-o cumprido, dia e noite, trabalhando infatigavelmente, sem prevenções nem rancores. Mas, baldaram-se os meus esforços para conduzir esta Nação pelo caminho de sua verdadeira libertação política e econômica, o único que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo.

Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou indivíduos, inclusive, do exterior. Forças terríveis levantam-se contra mim, e me intrigam ou infamam, até com a desculpa da colaboração. Se permanecesse, não manteria a confiança e a tranquilidade, ora quebradas, e indispensáveis ao exercício da minha autoridade. Creio mesmo, que não manteria a própria paz pública. Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes e para os operários, para a grande família do País, esta página de minha vida e da vida nacional. A mim, não falta a coragem da renúncia.

Saio com um agradecimento, e um apelo. O agradecimento, é aos companheiros que, comigo, lutaram e me sustentaram, dentro e fora do Governo e, de forma especial, às Forças Armadas, cuja conduta exemplar, em todos os instantes, proclamo nesta oportunidade.

O apelo, é no sentido da ordem, do congraçamento, do respeito e da estima de cada um dos meus patrícios para todos; de todos para cada um.

Somente, assim, seremos dignos deste País, e do Mundo.

Somente, assim, seremos dignos da nossa herança e da nossa predestinação cristã.

Retorno, agora, a meu trabalho de advogado e professor.

Trabalhemos todos. Há muitas formas de servir nossa pátria.

Brasília, 25-8-61.

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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