Outros autores - 15 de fevereiro de 2015 às 16H 46M

Roca: um conto de Diogo Monteiro

Por Diogo Monteiro

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Ilustração de Jaíne Cintra

Foi perdendo um segundo do tempo que ela cravou a agulha no dedo descoberto. Uma pequena língua vermelha exibiu-se na ponta do indicador enrugado. Podia jurar – revistou a memória e lá estava – que havia vestido o dedal. Mas o copinho de metal permanecia, desobediente, sobre a cômoda, ao lado do jarro azul que guardava as…

… como se chamavam aquelas flores? Eram aquelas que cresciam atrás da igreja aonde ia, de arrasto, quando criança. (Qual o santo?) Eram aquelas que ele tinha trazido, gago de voz e mãos, na noite em que a chamou para serem dois e um só. (Qual o seu nome?) Olhou na estante o porta-foto com o rosto do estranho. Impresso em duas cores sem nome, ele sorria, vestindo um uniforme que não saberia dizer se do exército, da marinha ou…

… qual o outro? Sentiu-se, súbito, como o nadador apanhado pela marreta da onda, constatando, entre o pânico e a asfixia, não saber o lado da superfície. Do susto, ela largou os pés do chão, e a cadeira se pôs a balançar. Quadro, prateleira, teto/ Teto, prateleira, quadro/ Quadro, prateleira, …/ …, prateleira, …/ …, …, …

… qual o nome da coisa? Nada era familiar. Nem conseguia pensar em algo que fosse. Era pousar a vista sobre um, para apagar-lhe o nome, a experiência, a preexistência. Um toque de assombro sobre a fronte de cada objeto, fada que aponta sua varinha de…

… como se chama esquecer tudo? Esquecer formas, cheiro, sentimento. O nome Sentimento. Como se chama ser uma criança no caminho inverso, de tudo fazendo novidade, mas esquecendo o que é encontrar o novo? Como se chama o mergulho onde as coisas se despem da história que as pessoas lhes dão, onde as lâmpadas vão se apagar em fila para formar um escuro homiziado? Como…

Olhou o dedo, o sangue que não se animava a escorrer, e, num reflexo levou-o à boca. Pensou estar em um antigo conto para aquietar crianças, que talvez lhe tivesse embalado um outro sono, num dia que não aconteceu.

Conto originalmente publicado na edição 1 da revista Café Colombo. Adquiria o seu exemplar.

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