Outros autores - 10 de dezembro de 2015 às 15H 52M

Luta de classes com gosto de Projac

Por Renato K. Silva

Costumo dizer que o Brasil não é o país do futebol, mas sim o da telenovela, porque o nobre esporte bretão só é transmitido, nos dias de semana, após o produto de excelência da Rede Globo. Dito esta premissa, vou falar do filme que extrapolou o pequeno circuito cinematográfico brasileiro e ganhou às redes sociais, às ruas e transbordou os cadernos de cultura dos jornais – Que horas ela volta? (Anna Muylaert, 2015).

Antes, cabe frisar que não tenho nada contra o gênero da telenovela. Muitas vezes apontado como um segmento “menor” do audiovisual pelos críticos, sobretudo os acadêmicos que desconhecem o Brasil “profundo” apresentado pelas novelas da Rede Globo. O que me incomoda nas telenovelas é que, em sua grande maioria, elas sonegam do espectador uma maior problematização das personagens e enredos para além do dualismo entre: mocinho vs vilão.

val que horas ela volta

Assisti Que horas ela volta? no Cinema do Museu, no bairro de Casa Forte, no Recife, mesmo lugar das cenas já tão conhecidas por todos e cujos desdobramentos abordei nesse texto. Após o fim do filme, em sessão lotada numa tarde de sábado, percebi o semblante descarregado dos espectadores, um clima de êxtase e efusão. Mais ou menos como quando saímos de um estádio após uma convincente vitória de nosso time do peito.

Então comecei a desconfiar daquilo que acabara de ver. Uma ruga de criticismo começou a crescer dentro de mim. E por isso seguem algumas de minhas inquietações.

Em moldes da Globo Filmes, que inclusive assina a coprodução do longa, Que horas ela volta? narra a história de uma família rentista do Morumbi (bairro de classe média alta de São Paulo) nucleada por pai, mãe, filho, cachorro e empregada fixa, que “mora no serviço”. O filme começa com um plano-aberto pegando a piscina da casa da família, onde estão uma criança e uma mulher. Em seguida, num corte temporal de dez anos, descobrimos que a criança é Fabinho (Michel Joelsas) e a mulher é a empregada da família, Val (Regina Casé). E a pergunta que a criança faz na cena anterior para a empregada – Que horas ela volta? – é para saber o horário de regresso do trabalho da mãe Bárbara (Karine Teles), a patroa. Por fim, compõe o quadro doméstico o diletante artista plástico, em “eterno estado sabático”, Carlos (Lourenço Mutarelli), pai de Fabinho e marido de Bárbara.

O núcleo familiar vivendo em perfeita harmonia aparente é sacudido com a vinda, de Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, diretamente de Pernambuco, para passar uns dias em São Paulo, pois fará o vestibular da Fuvest a fim de estudar arquitetura na USP. Tendo em vista que sua mãe, Val, “mora no serviço”, passar uns dias em São Paulo acaba significando passar uns dias na casa do Morumbi.

Só que Jéssica não é apenas uma adolescente nordestina pela primeira vez na capital paulista. Ela traz a tiracolo, além de um relativo capital escolar, uma empáfia comportamental típica de uma geração que cresceu na euforia econômica com ênfase no consumo de bens e serviços dos anos de governo Lula. E é essa empáfia que lhe concederá acesso a cômodos e regalias até então destinadas às visitas da casa, e não para a filha da empregada que “não sabe qual é o seu lugar”.

Com a empáfia de Jéssica no interior da narração, o filme gera um grande desconforto na plateia porque instaura-se um forte contraste entre o comportamento dela e a submissão de sua mãe, a empregada Val, que começa a ter uma confusa relação com a filha que virou hóspede.

Nesta toada, Jéssica começa a embaralhar os papéis sociais até então rígidos na economia financeira e emocional da casa do Morumbi. Com isso, os gestos ousados de Jéssica – tomar o sorvete do patrão, entrar na piscina, dormir no quarto de hóspedes… – começam aos poucos a ganhar o coração e a vontade de Val. Mesmo que sua revolta fique restrita ao furto de um conjunto de xícaras que ela mesma havia presenteado a patroa dias atrás e a chapinhar em uma piscina quase seca onde nunca havia entrado em dez anos de serviços prestados na residência, em precárias condições de trabalho.

Em resumo, Jéssica representa o “fim” da reprodução social (filho de peixe, peixinho é). “Fim”, entre aspas, porque Jéssica reproduz a condição de mãe solteira desterrada como fora o caso de sua mãe, Val. Negando-se a uma postura subserviente tal qual sua mãe, Jéssica é um exemplo de que o país mudou. O filho do pobre agora pode estudar na faculdade onde estuda o filho do patrão da mãe. O filho do pobre agora pode viajar de avião. O filho do pobre agora… E outras aquisições sociais do Lulismo.

Jéssica que horas ela volta

O detalhe é que Que horas ela volta? pinta um perigoso quadro de meritocracia quando assinala a saída pela educação. Ou seja, o “fim” da reprodução social estaria apontado pelo iminente sucesso de Jéssica no vestibular. O perigo nesta forma de discurso está justamente em ver a educação como a panaceia das mazelas sociais brasileiras como se, mecanicamente, dando acesso à educação para os filhos dos pobres, a desigualdade brasileira diminuísse. Numa sociedade de classes, educar sem distribuir renda é como tapar o sol da desigualdade com a peneira falaciosa da meritocracia.

Até onde pude acompanhar no debate sobre o filme, duas coisas passaram ao largo da discussão após o final esfuziante do longa: o assédio sexual de Carlos perante Jéssica e a omissão dos direitos trabalhistas que Val nem esboçou reivindicar quando pediu demissão do emprego. Acredito que são duas pautas que não deveriam passar ilesas de menção a partir da narrativa do filme.

Que horas ela volta? me fez lembrar o filme Casa Grande (Fellipe Barbosa, 2014), com um porém: Casa Grande é a visão do patrão sobre os empregados a partir do olhar da classe média (realizadores); o filme da Anna Muylaert é o contrário: é a visão dos empregados sobre os patrões a partir do olhar da classe média (realizadores).

Neste sentido, creio que o filme de Barbosa conseguiu fazer um exercício de alteridade mais franco e sincero. Já o de Muylaert perdeu a oportunidade de ser mais contundente porque optou por recursos narrativos típicos da telenovela brasileira: ênfase no star system carismático (Regina Casé); maniqueísmo na elaboração dos personagens (o mais gritante aqui é Bárbara, espécie de má-drasta que pratica barbaridades com os subalternos); além dos tradicionais clichês sobre os gostos de classe (o barroquismo extravagante de Val contra o minimalismo requintado dos patrões).

Em suma, Que horas ela volta? tem sabor de luta de classes com pitadas de Projac. Ou seja, é uma luta de classes doce. Talvez justamente por isso o filme tenha conquistado ótima recepção do público que, familiarizado com a teledramaturgia, viu a televisão investindo na linguagem cinematográfica. Aliás, é um dos mais recentes empreendimentos da Globo, não só por meio do seu produto por excelência, as novelas, como também a partir de sua produtora, a Globo Filmes. Desta maneira, o filme da Anna Muylaert perdeu a oportunidade de radicalizar, dentro do insipiente cinema comercial brasileiro, o problema que aborda, das relações de classe. Porque optou ficar na zona de conforto da linguagem televisiva.

Renato K. Silva é escritor e doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

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