Outros autores - 02 de fevereiro de 2018 às 14H 09M

O frevo vivo de Carlos Fernando

Por Amilcar Almeida Bezerra

Dentre as numerosas utopias provincianas que habitam o imaginário dos pernambucanos, uma das mais recorrentes é a crença de que um dia o frevo dominará o Brasil, quiçá o mundo. Este projeto de conquista global ganhou significativo impulso a partir de 1979, quando o compositor e produtor caruaruense Carlos Fernando lançou, pelo selo CBS (atual Sony Music), o primeiro Long-play da série Asas da América, até hoje um marco na modernização do frevo-canção. Daí por diante foram seis LPs com faixas compostas em sua maioria pelo próprio Carlos Fernando e executadas por grandes nomes da MPB, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Jackson do Pandeiro, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Fagner e Elba Ramalho, entre outros. O objetivo, claro, era transformar o frevo num produto fonográfico de alcance nacional. Até então, nenhum pernambucano havia levado o frevo tão longe.

Mais do que um competente produtor musical capaz de, pela primeira vez na história da indústria fonográfica brasileira, reunir medalhões de diferentes gravadoras num único LP, Carlos Fernando foi um compositor de características bem peculiares. Embora ancorado em sonoridades nativas, incorporou em suas criações influências do rock, do jazz, do cinema e da poesia modernista, como bem observou o amigo e jornalista Amin Stepple.

Carlos Fernando dilatou até onde pôde o conceito de “frevo” em nome de sua mais ampla divulgação, provocando reações controversas entre os conterrâneos. Os mais conservadores não conseguiam reconhecer na ousadia do Asas da América as marcas da tradição musical pernambucana. Instrumentos elétricos, como baixo e guitarra, o andamento mais rápido que, segundo Capiba, lembrava o “rock”, e as letras que fugiam dos clichês carnavalescos projetavam no frevo pretensões comerciais e artísticas de forma ainda não ensaiada em Pernambuco.

25 anos antes, em 1954, Jackson do Pandeiro havia gravado a incrível canção “Micróbio do frevo”, em cujos versos o autor Genival Macedo afirma “Eu só queria que um dia o frevo chegasse a dominar em todo o Brasil” e convida o ouvinte a vir “a Pernambuco pra ver como é feito o passo ao som de uma orquestra pra valer”. Os breques, as síncopes e os atravessamentos – tão comuns nos cocos e baiões cantados por Jackson do Pandeiro – irrompem no frevo criando uma linguagem rítmica tão própria que só reforçam a pretensão dos versos.

Em fins dos anos 1960, os baianos da Tropicália começaram a gravar frevos eletrificados, influenciados pela escola de Dodô e Osmar, os precursores do Trio Elétrico. Nessa época, Gil compôs “Frevo rasgado” e Caetano Veloso escreveu “Atrás do Trio Elétrico”, até hoje um de seus grandes sucessos. Ao longo dos anos 1970, Caetano Veloso e Moraes Moreira foram alguns dos artistas de expressão nacional que incorporaram de forma regular o frevo a seus repertórios. O frevo finalmente ganhava o Brasil.

Os pernambucanos, porém, não se mostravam tão satisfeitos. Os arranjos pouco ortodoxos, a ausência dos metais e a estridência das cordas plugadas sobre o Trio elétrico baiano formulavam um contraste brutal com as orquestras de metais dos carnavais de rua e salão do Recife e Olinda. O próprio Carlos Fernando foi inúmeras vezes acusado em Pernambuco de compor frevos “abaianados”, espécie de rótulo herético comumente atribuído pelos conservadores locais aos que tentavam trazer inovações ao gênero. Nesse meio tempo, às eventuais picuinhas que surgiam entre pernambucanos e baianos, Carlos Fernando reagia com bom humor:

“É moda dizer que baiano está por cima
que está por cima, meu bem, eu também acho
segurando a barra dessa rima
deve haver algum pernambucano por baixo”
(Gilberto Gil, Ninguém segura este país, 1977)

“Gilberto baiano meu amigo do peito
Em cima ou embaixo
Aquele abraço meu nego”
(Carlos Fernando, Lenha no fogo, 1979)

Além de cinéfilo inveterado, Carlos Fernando era um obsessivo voyeur da vida cotidiana. Em seus frevos exuberantes e coloridos, criava cenários e narrativas que nos conectavam a experiências quase cinematográficas. À perspectiva do observador acurado, que trazia personagens e situações verossímeis para dentro das canções, acrescentava um dom de fantasiar a realidade com paisagens e personagens oriundos do cinema ou das mitologias populares.

Quem, além de Carlos Fernando, teria imaginado transportar a personagem do filme Lily (1953), interpretada por Leslie Carron, para as ruas do carnaval de Olinda, como vislumbramos nos versos de “Noites Olindenses”, ou o “Pierrot le fou” de Godard? Quem seria capaz de elaborar, de maneira tão sucinta e precisa, a crônica de um folião que acorda na cidade alta durante o carnaval, e se depara com a lendária boneca gigante da Mulher do dia encantando um séquito de foliões?

“Os clarins tocaram, chamando atenção
Com cara de sono, vestido de Nero
Corri pra varanda, salve a multidão
Que vem e que passa cantando
Acorda pretinho, vem ver tua tia
A deusa do povo, a mulher do dia
Requebra pintada, de rouge, talco e batom
É pena que seja de papel crepom”
(Carlos Fernando, A mulher do dia, 1979)

A utopia de uma vida carnavalizada está presente em quase toda a obra de Carlos Fernando. Mesmo quando o cenário não é o carnaval, mesmo quando o gênero não é o frevo, a fantasia está lá. É pena que seja de papel crepom.

Em paralelo à sua trajetória como compositor de frevos, Carlos Fernando se engajou numa prolífica parceria artística com Geraldo Azevedo, que gerou dezenas de canções em diversos gêneros, algumas das quais figuram entre os maiores sucessos de Geraldinho, como “Canta Coração” (Canta, canta passarinho…) e ‘Terra à Vista” (San, San, San, São Luís do Mara…). Em função dessa parceria, se instalou no Rio de Janeiro a partir dos anos 1970, onde constituiu família e viveu a época mais produtiva de sua carreira profissional.

Em 1983, veio o estrondoso sucesso de “Banho de Cheiro” na voz de Elba Ramalho, uma das faixas mais tocadas nas rádios brasileiras naquele ano. Até hoje este é um dos poucos frevos de Carlos Fernando que costumam ser executados nos bailes de carnaval em Pernambuco. Quase todo o restante de sua extraordinária obra dedicada ao frevo, contudo, passa ao largo do repertório de nossas orquestras de rua e de salão.

É possível que as profundas transformações que acometeram a indústria fonográfica nas últimas décadas tenham abalado de forma significativa a trajetória profissional de Carlos Fernando. Como ele não era intérprete nem instrumentista, sempre atuou nos bastidores dos palcos e da produção de discos. Ao longo de mais de trinta anos como produtor realizou, entre outros projetos, sete volumes da série Asas da América e mais cinco da coletânea Recife Frevoé, além do projeto 100 anos de Frevo, todos com a participação de artistas consagrados da chamada MPB.

Contudo, à medida que os custos de produção caíam em função das inovações tecnológicas, ficava mais difícil sobreviver profissionalmente apenas como produtor de discos. Por outro lado, com a disseminação do compartilhamento gratuito de música pela internet, a arrecadação de direitos autorais para compositores também sofre um golpe brutal. Talvez por isso não tenha, com suas asas, voado tão alto quanto gostaria. Depois de sua obra, todavia, o frevo jamais seria o mesmo.

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