Outros autores - 15 de fevereiro de 2015 às 18H 57M

O politicamente incorreto e a vida a dois

Por Adelaide Ivánova

adel590

ilustração: Jaíne Cintra

Um dos apelidos carinhosos que meu boy usa comigo é macaquinha (“Äffchen”, em alemôo), para o qual eu reajo também carinhosamente chamando-o de “meu nazistão”. E ele cai na gargalhada, eu também. Quando brigamos, no entanto, a questão das nossas origens nunca entra na roda. Chegamos a um acordo não falado em relação a isso. Ambos sabemos que, num momento de desentendimento, há que manter o foco para não se cair na esculhambação, na ofensa pessoal. No meio de uma discussão — que pode ser sobre o valor das teorias de Deleuze ou sobre quem se esqueceu de pôr água nas plantas — é inaceitável que ele ou eu (e qualquer um) usemos qualquer indicador de classe ou raça ou gênero ou sexo etc.

Sobre o teor dos nossos apelidinhos de casal enfadonho, escrevo em tom de confissão, quase pedindo desculpas. Porque, na verdade, essas coisas não se dizem. Dependendo do contexto, essas mesmas palavras podem gerar desconforto, feridas profundas ou um belo processo judicial. Com razão. Já imaginou xingar uma vizinha sua de macaca? Ou diminuir as cicatrizes deixadas pelo Holocausto ao fetichizar os nazistas, em forma de piadinha? É apenas errado, não se faz. Será que existe contexto em que ser politicamente incorreto é aceitável? Ou será que algo deixa de ser politicamente incorreto ao ser dito no contexto aceitável?

Eu não sei, juro que não sei. Vou escrevendo e tentando entender. Avante: A questão da correção política vem sendo não ignorada, mas ridicularizada. Ser politicamente correto é ser boring, é uma chatice. Eu tendo a crer que na vida íntima há também que ser politicamente correto. Peço ao leitor que não confunda correção política com chatice, conservadorismo ou falta de humor. Ao contrário. A correção política é uma ferramenta que nos ajuda — e não somente em situações de conflito — a seguir em entendimento com o mundo. A sua função é estabelecer padrões de convivência que sejam minimamente justos e gentis. E, por “mundo”, leia-se não somente o mundão lá fora, as pessoas estranhas com quem temos que ser educados. O mundo lá fora é o outro.

Ou seja: suas ações na vida privada não são apenas inocentes porque, guess what, seu namorado / marido / companheiro / amigo é o outro, é o mundo. Se num casal heterossexual a questão do gênero pode ser uma batalha diária, para mim e meu boy há outro fator com potencial explosivo: as nacionalidades. Num casal “multicultural” como nós, facilmente entram nas conversas cotidianas termos/temas que se referem às nossas origens – menos pelas nossas aparências e mais por aquilo que mais intrinsecamente temos: eu, de latino-americana e brasileira; ele, de europeu e alemão.

A gente é um prato feito para piadas politicamente incorretas ou, no outro extremo, como exemplo de integração intercultural. Depende de quem fala, depende de quem nos olha.

E aí entra a questão fundamental do contexto que pincelei nos primeiros parágrafos: o que é politicamente correto muda com o lugar, com o tempo. Algo aceitável 40 anos atrás dificilmente é tolerado hoje. Por exemplo: até os Beatles, mesmo na fase do bom mocismo, já gravaram canções politicamente incorretas. Em Run for your life, do álbum Rubber soul, de 1965, eles cantam:

You better run for your life if you can, little girl
Hide your head in the sand little girl
Catch you with another man
That’s the end, little girl

(Isso sem contar que a música começa com os seguintes dizeres:
“Eu prefiro te ver morta a te ver com outro cara”.)

E fique atento: a incorreção política está não somente na boca de quem diz. Isso significa que, muitas vezes, apenas alguém mais sensível a certo tema identifica jargões politicamente incorretos, enquanto outras pessoas que nunca passaram algo semelhante ou nunca foram obrigadas a pensar no assunto não veem nada de errado. Outro exemplo: a questão da islamofobia, que no Brasil e em vários outros países ainda não é tão forte como na Europa ou nos EUA, pode passar despercebida para milhares de ouvidos.

Assim, a música Killing an arab, do primeiro disco do Cure, certamente é vista na Alemanha de um jeito totalmente diferente de como seria no Brasil. (Sensíveis ao contexto — que bom — depois que os EUA invadiram o Iraque em 2003, o Cure passou a chamar a canção de “Kissing an arab”, como tentativa de diminuir a crescente intolerância religiosa no mundo.) Aliás, ainda falando de música, mas voltando ao politicamente correto na vida íntima, temos um exemplo bem recente do novo álbum de Lana Del Rey, que gravou a canção He hit me and it felt like a kiss (sucesso de The Crystals nos anos 60).

Naqueles tempos, violência doméstica era algo — se não amplamente aceito — tolerado. 50 anos depois, a indelicadeza (incorreção política?) da gravação de Lana vem do fato de que a controversa letra, saindo da sua boca, vira pastiche, um simulacro. Embora não possamos assegurar que a cantora nunca tenha sofrido nada semelhante, a persona Lana Del Rey consiste exatamente na encenação da vida perfeita e retocada. O politicamente incorreto da música, que saindo da boca de Dolores Dee Dee ainda tinha a autenticidade da confissão, em Lana vira uma afronta. A gente tem a impressão de que ela não sabe da seriedade do que está falando. O politicamente incorreto da gravação de Lana vem exatamente do fato de ela tratar a violência doméstica como uma frase de efeito, como uma boa estampa pra camiseta, como um filtro do Instagram. E não como causa mortis de milhares de mulheres mundo afora.

Mas, afinal, ser politicamente correto é mesmo o caminho para uma vida (a dois ou a milhões) cordial? Bom, eu me arrisco a dizer que ajuda a viver em harmonia com as diferenças — seja no âmbito público ou na complexidade da vida íntima. Aliás, aqui vamos ampliar o conceito de intimidade. Em conversa recente, o editor Schneider Carpeggiani me lembrou que às vezes é num contexto de intimidade (uso a palavra como aproximação ao termo “reconhecimento”) que se machuca melhor. E me explicou o caso de um amigo seu que, “reconhecido” como gay na saída de um jogo de Copa, foi gratuitamente agredido. Schneider continua: “A verdadeira violência, ela pressupõe uma intimidade prévia. A intimidade pode ser o sétimo céu, mas pode ser também a porta aberta para a maior crueldade”.

Você, caro leitor ou leitora, pode rebater dizendo que a correção política é apenas um jogo de retórica. Mas o que é um romance além de um jogo retórico? Quando Gertrude Stein diz que uma rosa é uma rosa é uma rosa, não é pelo verbo de ligação que ela ratifica sua ideia, é pela repetição da “imagem” que a palavra rosa desperta. Agora repita para si mesmo: “um macaco é um macaco é um macaco”. Depois, faça outros testes: coloque no lugar de macaco todos os outros sinalizadores de classe (ou de sexo ou de raça etc.), aparentemente inofensivos e que você usa “sem maldade” no seu dia a dia. Se essas frases não perturbarem você, não me chame pra um drink.

Na vida íntima, no romance, essas feridas podem ser abertas por esses jogos retóricos também, por essa linguagem — que é, afinal, a ferramenta que usamos não somente para nos comunicarmos com estranhos, mas também com as pessoas que amamos. Toni Morrison, escritora afro-americana, diz que o termo “politicamente correto se tornou um atalho para impor descrédito a ideias. Eu acredito que uma linguagem forte, focada, incisiva, crítica, sanguínea, dramática ou teatral não depende do uso de palavras injuriosas, em ofensas. Nem depende de hierarquia. Você não está empobrecendo a linguagem quando exige das pessoas que elas tenham empatia pela dor dos outros. Eu não posso seguir por aí dizendo ‘mate os branquelos’. O que isso significa? A frase pode até satisfazer a alguém ou alguma coisa, mas ela não informa. Não há pensamento. Eu acho que temos que usar linguagem melhor que essa. O que o debate em torno da correção política realmente é, é sobre o poder de definir o outro. Os definidores querem ter o poder de definição. E os definidos não querem mais ser nomeados pelos definidores”.

Eu sou dessas que acreditam que quem consegue somar correção política com subversão marginal muda o mundo, muda um romance. Sou dessas que acredita que ousado não é frase de efeito e polêmica, mas, sim, desconstruir com inteligência exatamente aquilo que os politicamente incorretos celebram: o culto ao êxito, a egotrip, o não reconhecimento de limites, o hedonismo, a inabilidade de empatia e a glorificação da indiferença. E isso vale entre quatro paredes. Imagine viver num namoro em que essas premissas são a regra…

Não, obrigada.

* Texto originalmente publicado na revista Café Colombo #1

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