Outros autores - 21 de setembro de 2015 às 20H 30M

O som ao redor da polêmica na Fundaj

Regina Casé em cena do filme Que horas ela volta?, obra cujo debate

Regina Casé em cena do filme Que horas ela volta?, obra cujo debate no Recife ficou marcado por polêmica envolvendo cineastas

Por Renato K. Silva

Muito se tem discutido sobre a punição que a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) deu para a dupla de diretores Cláudio Assis e Lírio Ferreira, protagonistas de ignóbeis expressões de preconceito por ocasião do debate de lançamento do filme, Que horas ela volta?, da diretora Anna Muylaert, na noite do dia 29 de agosto, no Cinema do Museu, em Casa Forte. A decisão da Fundaj consiste em suspender durante um ano, em suas dependências, qualquer trabalho envolvendo a dupla de realizadores acima mencionados.

Após a decisão da Fundaj, instaurou-se um debate bastante polarizado sobre o tamanho da medida. Uns dizendo que fora justa; outros, alegando exagero – inclusive a diretora Anna Muylaert, principal alvo do machismo da dupla de diretores. De repente o clima, em linhas gerais, quedou-se nos polos: pedagogia x censura. Para além disso, a decisão da Fundaj também manifesta um dado que há algum tempo vinha em latência: o confronto geracional entre os realizadores de cinema em Pernambuco.

Há hoje duas gerações de realizadores operando em Pernambuco. A primeira seria a dos “curta-metragistas”, ou Geração da Retomada, pois surgiram no período da Retomada do cinema em Pernambuco, com o filme Baile perfumado (Lírio Ferreira e Paulo Caldas, 1997). Esta geração conta com nomes como Adelina Pontual, Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Hilton Lacerda, Paulo Caldas e Marcelo Gomes. A segunda geração seria a dos cineastas que sobretudo galvanizaram cineclubes em Recife na virada da década de 1990 para 2000. Entre eles, temos nomes como Kleber Mendonça Filho, Gabriel Mascaro, Daniel Aragão, Marcelo Pedroso, Marcelo Lordello, Tião, Leonardo Lacca, Daniel Bandeira, entre outros. Chamaremos, a partir de agora, de geração da pós-Retomada.

Um recorte nas obras

Estrangeiro evidencia aposta na alteridade em Cinema, aspirinas e urubus: marca da geração da Retomada

Protagonista estrangeiro evidencia aposta na alteridade em Cinema, aspirinas e urubus: marca da geração da Retomada

Em todos os mercados de bens simbólicos há disputas pela hegemonia pública das interpretações da realidade local. Essas querelas são inerentes a quaisquer setores onde haja abertura política, circulação de informação e rotatividade dos locais deliberativos para a gestão cultural.

No caso do cinema produzido em Pernambuco, a disputa geracional entre os realizadores está configurada tanto dentro quanto fora dos filmes. Em outras palavras, tanto no texto quanto no contexto. Explico-me: a geração da Retomada enfatiza em larga medida, em seus trabalhos, o tema do sertão pernambucano. Os pontos de partida e de chegada deste locus são os longas Baile perfumado Cinema, aspirinas e urubus (Marcelo Gomes, 2005). Ambos são filmes que trazem uma “consciência que vem de fora” (tanto no texto quanto no contexto), representada respectivamente na figura do mascate Benjamin Abrahão (Duda Mamberti) e Johann (Peter Ketnath).

Os dois “gringos” plasmam um exercício de alteridade que o cinema pernambucano buscava no momento e, acima de tudo, refletem o anseio de aprender a filmar com os que “vêm de fora”, seja na missão da ECA-USP, que ministrou cursos técnicos para a equipe de Baile perfumado; seja na profissionalização e conquista da manipulação dos recursos expressivos a partir do longa de Marcelo Gomes, representadas no personagem de Ranulpho (João Miguel), que aprende a operar o caminhão da Bayer – símbolo de um cinema que poderia ser produzido fora do eixo Rio-São Paulo a partir daquele momento (2005).

O ponto de inflexão à temática sertaneja ocorre nos filmes de Cláudio Assis. Em sua grande maioria, retratam o lúmpen urbano do Recife. Mantém, por outro lado, a marca do que eu chamo de exercício de alteridade, ao buscar retratar, através dos personagens, modos de vida diferentes da sua própria trajetória biográfica.

Já a geração da pós-Retomada, na maioria dos seus filmes, padece desse foco em exercícios de alteridade. O sertão sai de cena, literalmente, e entra a vida da classe média recifense, seja na crítica à desenfreada especulação imobiliária ou ao modo de vida “enjaulado” da capital pernambucana. Em outras palavras, essa geração começa a filmar o seu próprio modo de vida.

Festivais em disputa

Festival Janela Internacional de Cinema do Recife: supremacia sobre o CINE-PE

Festival Janela Internacional de Cinema do Recife: supremacia sobre o CINE-PE

Fora dos filmes, no contexto dos eventos, a luta deu sinais na queda de braço entre o Cine-PE – festival que surgiu de roldão com a geração da Retomada – e o Janela Internacional de Cinema do Recife.

Diria que a luta entre os dois festivais pelo lugar de protagonismo no circuito pernambucano deu-se de maneira não deliberada. Ou seja, o Cine-PE perdeu sua hegemonia mais por sua própria incapacidade de renovar a sua linha curatorial do que por qualquer outra coisa. Já o Janela aproveitou a lacuna aberta e tornou-se o evento mais importante do gênero no estado.

Com isso, não podemos perder de horizonte que a geração da Retomada perdeu capital simbólico e status com o declínio do Cine-PE e a geração da pós-Retomada ganhou mais visibilidade com o Janela.

A propósito, não devemos esquecer que o Janela é organizado por Kleber Mendonça Filho, cineasta comprometido com os ideais estéticos da pós-Retomada e um dos responsáveis pela programação das duas salas de cinema da Fundaj.

Financiamento e política

Além das disputas no texto e contexto dos filmes, há a corrida anual pelas linhas mais rentáveis do Funcultura Audiovisual.

A geração da pós-Retomada familiarizou-se com o edital justamente no período em que ele recebeu aumentos sucessivos em seu aporte, os excelentes anos fiscais dos dois mandatos de Eduardo Campos. Sobrinho do cineasta Guel Arraes, Eduardo foi o político que mais viabilizou políticas públicas para o setor do audiovisual, basta observarmos a evolução dos números no aporte do Funcultura Audiovisual: de R$ 900 mil em 2006 para R$ 20,5 milhões atualmente. Até jantar em sua residência para deliberar o futuro do cinema local ocorreu.

Nesse clima, os cineastas da pós-Retomada surgiram com suas próprias produtoras e com o devido conhecimento técnico de como funciona o edital. A título de exemplo, vale destacar a quantidade de filmes que cineastas como Gabriel Mascaro produziram nos últimos anos – seis longas -, em paralelo ao número dos cineastas da Retomada, que produzem um filme a cada três anos, em média. A diferença é significativa.

Com tudo isso, algumas produções da pós-Retomada se depararam com um dilema (bem comum em se tratando de produções artísticas) e resolveram enfrentá-lo: como criticar um projeto político que incentivou minha produção?

estelita

O projeto era justamente o alavancado pelo neodesenvolvimentismo do PSB, centralmente representado na figura de Eduardo Campos. Ao topar o desafio, os cineastas da pós-Retomada conseguiram capitanear o carisma de certos setores da classe média recifense, sobretudo profissionais liberais, estudantes universitários e ativistas políticos que, somados à luta pelo direito à cidade na esteira do movimento Ocupe Estelita, foram acumulando ainda mais capital simbólico em detrimento dos cineastas da Retomada.

Por sua vez, os integrantes da geração da Retomada até agora não se posicionaram claramente sobre essa nova agenda política cada vez mais candente no debate público recifense, seja nos textos ou contextos de seus filmes. E com isso murcham seus status.

E nós com isso?

Cena do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

Cena de O Som ao Redor, filme de Kleber Mendonça Filho

No incipiente mercado pernambucano de bens simbólicos, especialmente no audiovisual – que detém um edital de fomento exclusivo -, a queda de braço entre as duas gerações até aqui trazidas é tema pouco abordado nas discussões sobre o assunto.

A decisão da Fundaj em obliterar a obra de dois cineastas da Retomada manifesta a possível luta no regaço do audiovisual local para além do binarismo ideológico das interpretações, entre pedagogia ou censura, da decisão tomada pelo órgão federal.

Devemos ampliar cada vez mais o debate porque o que está em jogo não é apenas a sanção devido às posturas preconceituosas de Lírio Ferreira e Cláudio Assis. Há também uma batalha a respeito da hegemonia da produção de imagens da cultura pernambucana em suas diversas manifestações. E isso nos interessa muito – até porque somos nós quem pagamos a conta.

Renato K. Silva é doutorando em Ciências Sociais pela UFRN.

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