Outros autores - 24 de agosto de 2015 às 19H 29M

O Uber e a (in)compatibilidade entre Mises e Marx: uma resposta a Edilson Silva

uber marx mises

por Cedric Ayres

Recentemente, na esteira das discussões a respeito do aplicativo Uber, o deputado estadual Edílson Silva (PSOL-PE) publicou um artigo em suas redes sociais (depois republicado pelo Mercado Popular) em que afirmava não haver incompatibilidade entre os pensamentos de Karl Marx e do economista austríaco Ludwig von Mises.

O texto versa sobre o que teriam sido “encontros intelectuais” entre as duas obras durante o século XX, mas infelizmente decepciona. Não há qualquer referência efetiva ao pensamento do austríaco, apenas o breve elogio pessoal de “intelectual refinado”. Vejamos.

O primeiro encontro teria acontecido através de John Maynard Keynes, aquele economista que, não custa lembrar, escreveu de modo entusiasmado a respeito do socialismo nacionalista alemão, regime que considerava ideal para a implementação do seu projeto de intervenção estatal.

Já o outro encontro seria caracterizado pelo “afrouxamento econômico” da Nova Política Econômica introduzida por Vladimir Lênin após o colapso causado pelo seu plano anterior, Prodrazvyorstka, uma medida de confisco de grãos e outros produtos agrícolas.

Agora vamos analisar as proposições.

Antes de tudo, qual a relação entre Keynes e Mises?

Keynes

Há poucos registros de relações intelectuais entre os economistas Keynes e Mises, mas parece que o britânico não entendia o austríaco

O único contato registrado de Keynes com a obra de Mises é uma resenha feita pelo britânico sobre o livro Theorie des Geldes und der Umlaufsmittel (Teoria sobre dinheiro e crédito monetário, em tradução livre). No texto, Keynes afirma que o livro “não é construtivo” e “não é original”. Além disso, escreveu:

“Termina-se o livro com um sentimento de decepção, que um autor tão inteligente, tão cândido e com uma bagagem de leitura tão ampla consiga, finalmente, ajudar-nos tão pouco a um entendimento claro dos fundamentos de sua área de conhecimento” (Economic Journal XXIV(1914): 417–19 apud MISES, Memoirs p. 49).

Dezesseis anos depois, no livro Um Tratado sobre a moeda, o próprio Keynes admitiu que não possuía conhecimento suficiente da língua alemã:

“Em alemão, sou apenas capaz de compreender o que já sei! — por isso, ideias novas são pouco claras para mim por dificuldades linguísticas”. (John Maynard Keynes, referência no rodapé)

Em outras palavras, poderíamos dizer que, do pouco que Keynes entendeu ao ler Mises, nada absorveu. Como disse Hayek, em 1956: “Teria-se evitado muito sofrimento ao mundo se o alemão do Lord Keynes fosse um pouquinho melhor.”

Que tal lembrarmos um pouco a obra de Lênin?

A piada de mau gosto no texto do deputado foi chamar de “produção coletiva e voluntária” o confisco estatal de alimentos. Vejamos na íntegra o Addendum que Lenin fez ao seu “Decreto da Ditadura da Comida”, em 9 de maio de 1918. Eis o que o Edílson Silva chama de “voluntário”:

“Todos os donos de matéria-prima de pão que tenham excedentes e não os entreguem às estações de coleta, inclusive aqueles que desperdiçam o estoque de grão para usá-los na fomentação do espírito ilícito, deverão ser proclamados “inimigos do povo”, levados a julgamento perante a Corte Revolucionária e sentenciados a não menos que dez anos de prisão, e deverão ter toda a sua propriedade confiscada e eles mesmos banidos por toda eternidade da comunidade, enquanto os fomentadores de ilícitos devem ser, inclusive, sentenciados ao trabalho social compulsório.”

Sim, amigos. Socialismo com “liberdade” é assim.

Para quem não sabe, “inimigos do povo” não era um título vazio. Eram considerados a pior escória do sistema prisional, estavam situados três níveis abaixo dos criminosos reincidentes “comuns”. Por sua vez, esses bandidos “comuns” geralmente, além de colaborar com os guardas nas execuções, não trabalhavam na prisão, pois viviam de roubar a produção dos “inimigos do povo”.

Pior: ser da família de um “inimigo do povo” já era motivo suficiente para que alguém fosse enviado aos campos de concentração. Muitas vezes essa era a justificativa usada para recrutar escravas sexuais, como mostram as ilustrações do livro Desenhos do Gulag, de Danzig Baldev, oficial russo forçado pela Cheka a ser guarda da prisão Kresty, em Leningrado:

mulheres no gulag soviético

A legenda superior, traduzida: “Administração do Gulag escolhendo
escravas sexuais entre mulheres presas por ser da família de inimigos”.

Legenda inferior: “Aquelas que concordavam em ser escravas sexuais dos administradores assumiam trabalho leve. As demais eram enviadas para cortar lenha ou fazer outros trabalhos pesados, ou postas em jaulas e torturadas”.

Sim, amigos. Socialismo com “liberdade” é assim.

A força Cheka era a polícia secreta criada por Lênin e conduzia esses confiscos. Era muito conhecida pelos seus métodos de tortura com dissidentes.

Segundo nos conta Bruce W. Lincoln, em seu Red Victory: A History of the Russian Civil War, de 1999, esses métodos incluíam: “esfolar vivos, escalpelar, coroar com arame farpado, empalar, crucificar, enforcar, apedrejar à morte, amarrar a tábuas e vagarosamente empurrar em fornos ou água fervente”.

the cheka lenins political policeIsso quando não eram enviados aos Kartogas, os campos de concentração de trabalho forçado, precursores dos Gulags, ou simplesmente assassinados. As mulheres muitas vezes eram, além de torturadas, estupradas, antes de receberem um tiro fatal. Sequer as crianças eram poupadas da polícia secreta de Stalin e, ainda com idade entre 8 e 13 anos, muitas eram executadas ou presas. Os relatos estão presentes no livro The Cheka: Lenin’s Political Police, de George Leggett, publicado em 1986.

Para piorar, Edílson diz que a Nova Política Econômica teria acontecido porque Lenin percebeu que os “camponeses não se adaptavam” ao confisco sob pena de tortura e execução. Gravíssimo foi omitir que, na verdade, Lenin se viu acuado a afrouxar suas atrocidades.

Seus devaneios de coletivização forçada causaram uma escassez  generalizada de alimentos cujo resultado foi a morte, por inanição, de mais de seis milhões de pessoas, como registra Robert Conquest, em Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror-Famine, de 1986. Contudo, o que de fato “sensibilizou” o ditador a mudar os rumos econômicos foram as recorrentes rebeliões oriundas do descontentamento generalizado com os confiscos — em especial as revoltas de Tambov e Kronstadt — que ameaçavam a estabilidade de sua posição política.

O mau gosto se acentua quando os critérios morais são rebaixados a níveis subterrâneos. Para amenizar a imagem das atrocidades de Lenin, Edílson o compara ao sanguinário Stalin. Sim, aquele que matou mais de vinte milhões de seres humanos, conseguindo a proeza de ser responsável por mais mortes do que o próprio Hitler! Assim somos todos anjos.

Onde entra Mises nessa história?

Sem qualquer referência ao pensamento do economista austríaco no texto de Edilson, proponho a leitura das menções aos nomes Mises e Marx como metáforas (adequadas) para liberdade e opressão.

teoria e história misesO mais curioso é que enquanto eram forjados estes encontros inexistentes, Edílson esqueceu de mencionar aqueles que de fato existiram: a leitura feita pelo próprio Mises sobre a obra de Marx. Em Teoria e História, de 1955, o austríaco se debruçou extensivamente sobre diversos aspectos do pensamento marxista, como o materialismo dialético, a luta de classes, as forças materiais produtivas, a dialética, o historicismo, a teoria do valor objetivo, dentre tantos outros. Neste caso, o melhor a fazer é deixar um convite para a leitura: o livro está disponível gratuitamente.

Não tratarei das gritantes incompatibilidades entre os dois economistas. Em resumo, basta dizer que Mises demonstrou a impossibilidade do cálculo econômico em um sistema de meios de produção inteiramente socializado, o que, nas palavras de Lenin, seria equivalente a conversão da “sociedade inteira numa só fábrica e num só escritório, com igualdade de trabalho e igualdade de remuneração”.

E o UBER com isso tudo?

Após criar os encontros inexistentes, o artigo de Edilson encerra forjando um inexistente embate entre a liberdade de empreender (“que desaliena e emancipa”) e a propriedade privada (“que monopoliza os meios de produção”). Ora, só há liberdade de empreender se houver respeito à propriedade privada, e só há respeito à propriedade privada se houver liberdade de empreender.

Quando um indivíduo deseja fazer uso de sua propriedade privada (no caso do Uber, o seu carro) para um determinado empreendimento (ofertar o serviço de transporte), mas o Estado proíbe, estamos diante de um ataque ao “direito canônico” da propriedade privada – não da sua preservação.

Nos países com a economia predominantemente centralizada, como em Cuba, o contínuo ataque à propriedade privada tolhe a liberdade de empreender e faz com que pessoas sem vocação (por exemplo: médicos ou engenheiros) acabem tendo que prestar serviços de taxista. Só assim, através de recursos importados por turistas de países mais capitalistas, conseguem acesso a um sustento minimamente decente.

Aplicativos de transporte como o Über apenas demonstram escancaradamente, de modo imune à demagogia intervencionista, o  extremo oposto cenário: a liberdade. Quando a propriedade privada é respeitada, quando há a liberdade de empreendimento, as massas têm acesso a benesses antes inimagináveis.

Como diz o ex-motorista de táxi e hoje importante economista Walter Williams no documentário Boas Intenções, de 1982, “as milhares de regulamentações impostas pelo Estado é que impedem a entrada de mais motoristas no mercado de táxis, excluindo do acesso ao trabalho especialmente os que mais precisam: os mais pobres”. O cenário não difere do atual.

Cedric Ayres é mestrando em filosofia pela UFPE e presidente do Instituto Liberal de Pernambuco.

Referência: John Maynard Keynes, A Treatise on Money, vol. I, The Pure Theory of Money, em The Collected Writings of John Maynard Keynes, vol. V, Macmillan, Londres 1971, nota de rodapé n.º 2 da p. 178 apud SOTO, Jesus Huerta, Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos; tradução de Márcia Xavier de Brito. – São Paulo : Instituto Ludwig von Mises. Brasil, 2012 nota de rodapé n.º 52 da p. 453

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