Mano Ferreira - 02 de julho de 2014 às 01H 01M

Os 20 anos transformadores do Plano Real

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Há exatos 20 anos, em 1º de julho de 1994, entrava oficialmente em vigor o Plano Real, a política monetária gestada sob a presidência de Itamar Franco e coordenada pela equipe econômica do então ministro Fernando Henrique Cardoso. O Plano atingiu seu maior objetivo, controlando a inflação e ajudando a estabilizar a economia brasileira, um ambiente até então imprevisível e hostil a qualquer planejamento de longo prazo.

Antes da oficialização da moeda, houve um período de transição no qual o cruzeiro real, altamente impactado pela hiperinflação, convivia com as chamadas URVs, Unidades Reais de Valor. O processo foi resgatado em imagens pela galeria do jornal O Globo, de onde retiramos a foto que ilustra essa postagem.

Desde aquele 1º de julho, os brasileiros passaram a usar uma nova moeda, o Real, que inicialmente era indexada em função do Dólar americano. O gráfico a seguir, organizado pelo Mercado Popular com dados da FGV, demonstra a evolução histórica da inflação no Brasil desde 1965.

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Componente do Mercado Popular e analista econômico do FMI, Carlos Góes analisou os impactos sociais do Plano Real em dois artigos. No primeiro, 25 anos de história sócio-econômica do Brasil em menos de 3 minutos, escreveu:

“Com a economia estabilizada, as pessoas puderam investir, poupar e tomar riscos. Em dois anos, o Plano Real tirou cerca de 9 milhões de pessoas da miséria. Na década seguinte, uma combinação de crescimento econômico, mudanças demográficas favoráveis e políticas sociais direcionadas aos mais pobres retiraria mais 20 milhões de pessoas da miséria.”

No segundo, Góes colocou o Plano Real em perspectiva com o regime militar, comparando os impactos sociais do golpe e do que ele chama de verdadeira revolução:

“Ao fim do regime, com as pessoas acostumadas com uma inflação alta e reajustes anuais, a economia plenamente indexada e uma revolta acumulada pelo arrocho salarial, a bomba-relógio estava prestes a explodir. E assim ocorreu. Tentou-se todo tipo de feitiçaria macroeconômica (como o congelamento de preços do Plano Cruzado e o confisco da poupança do Plano Collor) para se tentar combater uma inflação que chegou a 2.700% em 1993.

Esse ambiente tornava impossível que as pessoas se planejassem, poupassem e investissem. Ao invés de comprar caminhões para fazer entregas, donos de supermercado estavam comprando caminhões para se proteger da inflação. Ninguém conseguia fazer planos de longo prazo. As pessoas investiam no “overnight”, um mercado de empréstimos diários que em países com economia normal tem margens tão pequenas que só interessa a bancos – nunca a pessoas físicas. A economia estava em colapso.

Então, trinta anos depois do Golpe, veio a Revolução. A estabilização macroeconômica brasileira foi, de fato, uma Revolução. Ela modificou completamente as possibilidades das pessoas. A Revolução de 1994 tornou possível que empresários e consumidores fizessem planos e investimentos e que governantes pudessem engendrar políticas públicas de uma forma mais ordinária e transparente.”

Saga brasileira

miriamleitão-sagabrasileiraAos que desejam compreender em detalhes todo o processo que resultou na implantação do Plano Real, vale a leitura do livro Saga Brasileira – a longa luta de um povo por sua moeda, onde a jornalista Miriam Leitão faz um apanhado pedagógico de toda a história. Além dos mecanismos econômicos, a obra contextualiza as expectativas e reações da sociedade às sucessivas tentativas de estabilização da economia. Confira um trecho:

Na longa caminhada até ter uma moeda, o povo brasileiro provou que estava disposto a tudo e a tudo suportaria. A cada nova tentativa, a esperança tomava conta dos cidadãos. A cada derrota, voltava-se ao ponto de partida. As famílias sofreram nos planos e no avesso dos planos. A convivência com preços que subiam diariamente era tão intolerável e empobrecedora, tão cansativa e ameaçadora, que os brasileiros se empolgavam a cada nova chance de vitória. Acreditavam que daria certo e se armavam de máquinas de calcular e blocos de anotação para registrar os preços, vigiar seus passos, denunciar suas manobras, defender o orçamento doméstico.

 

Mano Ferreira

Editor deste site, integra o Café Colombo desde 2012. Jornalista formado pela UFPE, trabalhou nos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco, onde atuou na Revista Aurora. É colunista do Mercado Popular e foi co-fundador da rede Estudantes Pela Liberdade no Brasil.

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