Outros autores - 23 de março de 2017 às 21H 06M

Polêmica entre discursos: uma hipótese

As disputas retóricas e a emergência do fenômeno literário

Captura de tela 2017-03-23 20.58.45

Por João Cezar de Castro Rocha

AS POLÊMICAS E SEUS DESCONTENTES

Há um fantasma que assombra alguns pesquisadores brasileiros: a polêmica. Como se a sua recorrência afirmasse o que eles sempre consideraram ser a marca do outro. Isto é, a precariedade do sistema intelectual nas condições dos tristes trópicos. Desse modo, o tom malcriado do debate, sua inegável orientação ad hominem, a leitura oportunista do texto alheio, a substituição da utopia da ação comunicativa pelo mero desejo de nocautear (verbalmente, esclareça-se) o adversário; enfim, esses traços condenariam inapelavelmente a universidade brasileira, a vida literária e o próprio espírito de pesquisa ao constrangedor ritual do eterno retorno da barbárie. Desolados, esses sisudos professores sonham com um modelo de vida acadêmica perfeitamente civilizado, cujo eixo é o diálogo animado pelo único propósito de aperfeiçoar constantemente a reflexão.

E nada mais.

E nada mais seria preciso, pois, nessa síndrome de Jacobina às avessas, o severo teórico nunca pensa em mirar-se no espelho.

Os professores sisudos costumam suspirar desapontados; na verdade, imaginam um sistema intelectual no qual seus preconceitos sejam valorizados como o nec plus ultra da teorização contemporânea.)

Escrevi alguns textos, a fim de demonstrar que essa posição é tanto provinciana quanto ingênua.

Vejamos.

Provinciana: qualquer pesquisador que tenha um mínimo de contato regular com universidades estrangeiras de ponta sabe que o perfil polêmico — com todos os seus ingredientes apimentados — não é exclusividade de latitude alguma; antes ele determina o cenário do mundo acadêmico como um todo. E, no calor da refrega, nem mesmo um Jürgen Habermas consegue manter-se sempre imparcial e objetivo; aliás, como suas inúmeras batalhas ideológicas bem o comprovam.

Ingênua: o problema dos críticos que diagnosticam as mazelas do sistema intelectual brasileiro é que almejam ocupar um lugar impossível. Afinal, eles alvejam o próprio meio como se dele não participassem; aqui autoindulgência e autoelogio se encontram, produzindo uma involuntária caricatura. Ei-la: ao olímpico professor parece nunca ocorrer a ideia simples de que sua atuação autocomplacente talvez seja um dos motivos da proclamada insuficiência do sistema intelectual. A retórica lamurienta e o aborrecido papel de mártir somente reforçam o disparate.

Como disse, já escrevi muito acerca desse falso dilema. Por isso mesmo, é hora de arriscar outro caminho.

Uso o verbo com cuidado: nesse momento, não posso mais do que esboçar ideias que me preocupam há alguns anos, mas que exigirão ainda muita dedicação antes que eu seja capaz de detalhar a intuição, aqui apresentada pela primeira vez numa versão mais ou menos completa.

Pois no fundo é assim mesmo: em lugar de decretar a precariedade do outro é necessário preparar-se para estar à altura de uma ideia que porventura nos ocorra. Por exemplo, estudar idiomas com afinco, a fim de enfrentar a tarefa incontornável de ler na língua original os textos que se relacionam mais diretamente com a hipótese.

(E mais não preciso acrescentar: trata-se de passo basilar, sem o qual, aí sim, o precário tornar-se-á dado estrutural.)

A EMERGÊNCIA DA LITERATURA?

Proponho uma hipótese: o que chamamos de literatura — ou o efeito literário de certos discursos, historicamente situados e, sobretudo, recebidos de uma maneira especial — é a consequência, não necessariamente planejada, de uma série de disputas discursivas, ocorridas desde a Grécia clássica.

Vale dizer, num conceito emprestado à teoria biológica contemporânea, e usado com fecundidade por Niklas Luhmann na elaboração da teoria do sistema social, trata-se de um caso típico de emergência: o surgimento de um terceiro sistema pode ocorrer a partir do encontro de dois outros, cuja soma de elementos não permitiria prever o aparecimento da nova configuração. Sem dúvida, sua constituição depende da existência prévia dos

dois sistemas, cuja acoplagem favorece a emergência de um novo feixe de relações. No entanto, a dinâmica desse terceiro sistema é própria e, se ela surge em função das inúmeras possibilidades criadas pelo cruzamento dos dois primeiros, ela também desenvolve aspectos peculiares e toma rumos singulares que não se podem reduzir àqueles dois sistemas.

(O leitor deve desculpar a reiteração, que se impõe pelo desejo de clareza.)

Como se percebe, a ideia de emergência dispensa a noção de essência, assim como de causalidade linear, demandando uma reconstrução detalhada das configurações em tela.

Imaginemos, agora, esse efeito no plano discursivo: o confronto ou contraste entre discursos diversos pode produzir a emergência de uma forma verbal própria, cuja definição sempre incluirá o nível da recepção, já que esse discurso não se define por si mesmo, porém pelo efeito derivado de uma constelação discursiva definida no seio de uma polêmica. Ora, o único meio de avaliar tal efeito consiste em valorizar a pluralidade das recepções engendradas pelo próprio efeito. O procedimento não é tautológico porque ele conduz para fora do texto, por assim dizer, embora sempre o faça através de uma textualidade específica.

Tal forma, eu dizia, pode estar na origem do que chamamos literatura – e talvez nessa discussão o anacronismo deliberado borgiano revele potencial teórico.

Se for assim, um dilema de origem dos estudos literários pode ser superado — na verdade, ele já o foi e há muito. Recordá-lo, contudo, ajuda a explicitar minha hipótese.

Refiro-me ao beco sem saída a que chegam todas as teorias acerca do literário que adotem o polo da produção como autossuficiente. Vale dizer, todo esforço de definição da literatura que aposte num conceito de base exclusivamente textual. Nesse caso, não há como escapar a um deslocado essencialismo, cuja dinâmica leva ao estabelecimento paradoxal de hierarquias entre formas diversas do mesmo.

Ao mesmo tempo, a simples historicização das práticas discursivas, passo indispensável, não dá conta do problema, pois, radicalizada a norma da contextualização, como postular a permanência trans-histórica de um determinado discurso? A contradição salta à vista.

Aliás, tal postulação trans-histórica é necessária?

Ou, pelo contrário, representa um falso problema?

Portanto, compreende-se a relativização contemporânea da ideia de literatura, não mais vista como um discurso infenso à passagem do tempo, mas antes como uma etiqueta comodamente aplicada a formações verbais muito distintas entre si.

Essa pergunta é bem daquelas questões prenhes de questões, que nos levariam muito longe.

Neste texto, contento-me em propor o problema, sugerindo um núcleo de polêmicas discursivas que pode ter jogado um papel-chave na caracterização do modo de elaborar mundos denominado literatura.

(Pois é bem essa a potência da literatura: uma forma de elaborar mundos –

diria Erich Auerbach, mediado por Nelson Goodman. Uma forma de elaborar

mundos que exige o concurso do receptor, acrescento, e supõe uma materialidade específica, ainda adiciono.)

Penso num caminho alternativo que, sem ignorar a necessidade de historicizar as práticas discursivas, nem por isso abandone a pesquisa de possíveis traços meta-históricos caracterizadores da forma discursiva que denominamos literatura.

Atenção: essa fórmula é traiçoeira; a aparente cautela — forma discursiva que denominamos — apenas esconde a manutenção do termo-chave — literatura.

Das duas uma: ou a historicização reduz a ruínas a simples possibilidade de pensar a literatura como um conceito que atravessa épocas, ou, apesar da necessária contextualização, ainda assim pode-se supor a existência de traços comuns para além de um momento específico, definindo uma prática discursiva pensada a partir especialmente do polo da recepção.

(Eis o verdadeiro termo-chave: leitor, isto é, de maneira mais precisa, receptor.)

Tal é minha aposta, à qual retornarei na conclusão deste texto. De imediato, ofereço uma polêmica à consideração do leitor.

UMA POLÊMICA

No princípio era o verbo — já se sabe.

Mas esse verbo era polêmico: era o verbo-conflito, o pai de todas as coisas — ninguém participa duas vezes do mesmo debate.

E essa refrega opôs os pretéritos e os pósteros na disputa entre os sofistas e a

tríade ordenadora do logos: Sócrates-Platão-Aristóteles.

Antes, porém, Górgias parodiara rigorosamente o poema de Parmênides, Da Natureza, cujos versos inauguraram a epistemologia ocidental com seus princípios inamovíveis: identidade (A=A), contradição (A?~A) e, instante fundador pelo avesso de minha hipótese, o tertium non datur (AV~A).

(Tertium non datur — o terceiro excluído: primeiro nome do efeito literário, impulsionador de uma recepção particular do dito/escrito? Aqui, claro, todavia um efeito-tabu; à espera de um Górgias para tornar-se totem.)

No Tratado do não-ser, Górgias ensina (inventa?) a força de um texto segundo,

cuja inteligibilidade implica radicalmente o ato de escrita como produto de um ato de leitura. Parágrafo a parágrafo, o intrincado labirinto de Górgias se abre em copas no confronto com o poema de Parmênides. Operação perversa, mas intrinsecamente aparentada com certo efeito que emergirá aqui e ali na história da literatura. Isto é: leve-se à conclusão lógica um dispositivo racional e ele se converte na negação incontornável de suas premissas.

Procedimento subversivo como poucos.

Percebe-se com facilidade seu efeito desestabilizador no fluxo irresistível da verve de Górgias:  Nada é; aliás, se é, é incognoscível;aliás, se é e se é cognoscível, não pode ser mostrado a outros.

(Carlos Lacerda, acredite quem quiser, traduziu Górgias no idioma da política golpista da UDN: Getúlio Vargas não pode ser candidato; se candidato, não pode ser eleito; se eleito, não pode tomar posse; empossado, não pode governar. Pois é: o mesmo Lacerda que traduziu Julius Caesar, de Shakespeare. Após o suicídio de Getúlio, alguém poderia pensar: para melhor entender a oscilação das massas.)

No Elogio de Helena, Górgias vai além. Não apenas ele assume posições várias, defendendo-as com igual brilho, mas, sobretudo, no final do discurso, faz o elogio do próprio ato discursivo que ele ensina (inaugura?): o que se leu/ouviu foi composto para sua própria diversão. Assim: pretendi redigir o discurso para que fosse, de Helena, um elogio, para mim, um divertimento.

Mais ou menos como o Conde de Poitiers dirá no poema “Canção”, emblema de uma nova circunstância: Fiz um poema sobre nada. Esse nada que é tudo: aprendemos com Fernando Pessoa.

Sócrates-Platão, o duplo que disciplina a potência do tertium non datur, explorada por Górgias, reagem à altura.

Em O sofista descobrem no parricídio a força paradoxal que funda certo gesto filosófico — dominante ainda hoje. É preciso afastar-se de Parmênides para recuperar a base de seus princípios: Que, para defender-nos, teremos de necessariamente discutir a tese de nosso pai, Parmênides […]. Mas o afastamento inicial permite tornar o sofista o alvo primeiro contra o qual a filosofia acerta sua mira e ajeita seu calibre.

De complexo phármakon a puro pharmakós: eis a trajetória desse primeiro bode expiatório da filosofia ocidental: o sofista.

(Aqui, devo reconhecer, não poderia ter pensado essas ideias sem o trabalho de

recuperação da logologia sofista realizado por Barbara Cassin.)

No Górgias, diálogo cujo título não deixa de ser uma declaração de guerra, o sofista se mostra surpreendentemente dócil, mas eis que surge a perturbadora figura de um Cálicles. E como se fosse um leitor impiedoso da teoria da ação comunicativa, simplesmente ele recusa a maiêutica, explicitando seu caráter de armadilha discursiva: quem aceitar suas premissas, obrigatoriamente rezará pela cartilha de Sócrates. Cálicles se opõe ao pálido destino de figurante num monólogo a muitas vozes: Dize-me, Sócrates, devemos considerar que nesse momento falas com seriedade ou estás de brincadeira? O colapso do método socrático só não é completo porque aquele que só sabia que de nada sabia precisa romper com seu protocolo, proferindo um longo discurso, em lugar de engajar o interlocutor na palavra dialética.

Discurso retomado no Fédon, em situação propriamente dramática: poucas horas antes de sua execução, o fantasma de Cálicles parece retomar, e o remédio-veneno segue idêntico: no além-vida, os justos terão sua justa recompensa — o ciclo se fecha, mas a questão segue incomodando.

Mesmo a expulsão do poeta da República platônica não resolve de todo o dilema, pois, nesse caso, o desterro é um atestado da força de sua mímesis. Pelo menos, da incapacidade da pólis em controlar os efeitos de sua recepção.

Coube a Aristóteles o golpe de graça. No conjunto de sua obra, por certo, e, em especial, no livro “Gama” da Metafísica. O sofista, ensina o Estagirita, precisa ser denunciado e combatido. Afinal, ter o dom da palavra e usá-lo deliberadamente não para produzir sentido, porém para multiplicá-lo infinitamente em jogos de linguagem que se contradizem sem trégua, reduz o sofista a uma paradoxal imobilidade semântica pelo excesso de oscilação de significados.

Portanto, dixit: o sofista é uma planta que fala.

O estabelecimento das regras do método filosófico expulsou a potência discursiva que parecia se comprazer na transgressão do interdito parmenidiano: o tertium non datur tornado potência discursiva.

E se essa transgressão for esmiuçada como uma das formas da emergência da literatura?

E se essa derrota na disputa discursiva grega for um indício decisivo para renovar a reflexão acerca da literatura?

Passo seguinte: um breve avanço no tempo.

Luciano de Samósata é o autor-chave para aprofundar a hipótese. Pois o motor de seu discurso não é apenas rigorosamente paródico em relação a um autor determinado ou a um texto específico, mas em relação à tradição como um todo; na verdade, no tocante a todos os gêneros então disponíveis.

O primeiro círculo de nossa hipótese, portanto, se fecha com o autor de A História Verdadeira.

Um título-paródia, a reiterar a potência de um discurso segundo; isto é, efeito de um ato de leitura necessariamente anterior à escrita.

(Mas devo parar por aqui. Ainda não estou preparado para discutir a obra de Luciano. Desenvolver ideias exige tempo. E não tenho pressa alguma. Preciso, em primeiro lugar, e muito modestamente, continuar estudando idiomas.)

E SE A LITERATURA NÃO FOR UM DISCURSO?

Outras disputas discursivas ajudam a constituir minha hipótese e devo mencioná-las muito rapidamente.

No século XVIII, os registros discursivos da nascente disciplina da história e da literatura polemizaram: como definir a prerrogativa de lidar com uma nova percepção do tempo histórico, que explode com toda força no Oitocentos?

No século XIX, a emergente disciplina da sociologia e a literatura palmilham a realidade nova das grandes metrópoles, buscando compreender suas formas inéditas de convívio.

No século XX, a nascente disciplina da psicanálise e a literatura encontram-se na exploração da subjetividade: como mapear o território invisível das motivações mais ocultas?

Pois bem: como ninguém ignora, a literatura foi derrotada em todos esses confrontos discursivos, atando as pontas de uma longa história principiada com o malogro dos sofistas.

Derrota, aqui, quer dizer: no mosaico discursivo desses distintos momentos históricos, atribui-se aos outros discursos a produção “confiável” de conhecimento.

Ora, a polêmica, então, não é apenas estrutural à literatura, ela também é seu principal elemento estruturante.

E não é tudo.

E se invertermos o raciocínio?

A literatura sempre é derrotada porque ela não é propriamente um discurso. Quero dizer: a literatura não estabelece padrões identificáveis, porque repetíveis, de enunciação com base em qualquer tipo de causalidade. Não há, na forma discursiva que denominamos literatura, regras do método, princípios rígidos de composição, modos determinados de recepção.

A literatura seria antes um efeito discursivo que somente se realiza na recepção, mas que não depende exclusivamente dela, pois a potência textual também pode favorecer ou constranger esse efeito. Assim, podemos historicizar as práticas discursivas e talvez (caro leitor, vale lembrar, apresento uma hipótese) preservar um componente meta-histórico, pois não se trata de um conteúdo cristalizado numa forma discursiva específica, porém de uma potência acionada por discursos, mas que, em si mesma, não chega a corporificar- se num discurso.

(Penso numa tabelinha entre a abordagem fenomenológica do ato de leitura, desenvolvida por Wolfgang Iser, e a atenção à materialidade da comunicação, proposta por Hans Ulrich Gumbrecht.)

É isso: eis a hipótese que gostaria de submeter à apreciação do leitor.

Apreciação polêmica — esperamos todos.

Outros autores

Comentários

desenvolvido por Shamá